O que dizer de João 1.1?

“No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com o Deus, e a Palavra era [um] deus” – João 1.1 na Tradução do Novo Mundo

Esse é um daqueles textos que certamente precisam ser bem entendidos, pois muitas pessoas que se chamam seguidores de Cristo o entendem equivocadamente. Para muitas pessoas esse é o texto que afirma que Jesus é Deus, pois é assim que a versão da bíblia que usam é traduzida. Por outro lado, a Tradução do Novo Mundo é acusada de inserir palavras nesse texto uma vez que o artigo indefinido não está explícito no Texto Original. Mas, quais são os fatos que podemos usar para analisar essa questão? Sobre isso, aprendemos que:

Sentinela

Sentinela

“A gramática grega e o contexto indicam fortemente que o modo como a Tradução do Novo Mundo verte esse versículo é correto e que “a Palavra” não deve ser associada com o “Deus” mencionado antes nesse versículo” – Sentinela, Novembro de 2008, pp.24

A primeira fonte de informações que devemos usar para saber como entender é a gramática grega, seguida da análise do contexto. Como a Sentinela já nos informa, essas são as razões que nos levam a crer que a Tradução do Novo Mundo é fiel ao texto original. Nesse breve artigo vamos fazer exatamente isso, vamos olhar um pouco da gramática grega e o que podemos aprender com ela, e então vamos olhar o contexto de João para entendermos como esse texto deve ser traduzido.

1. Gramática Grega

Aqueles que têm acesso a boa literatura não precisam ser grandes conhecedores do grego bíblico para entender o que está acontecendo nesse texto: No texto grego nós encontramos o artigo definido para se referir a Deus (Jeová) na segunda parte do verso (“a Palavra estava com o Deus”), mas não usa o mesmo artigo na terceira parte (“e a Palavra era __ deus”). Essa distinção serve para demonstrar que Jesus não é o Deus com quem estava, e a Tradução do Novo Mundo, deixa isso claro, indicando que a Palavra não é o Deus Todo-poderoso, mas que é um “poderoso”, um deus. Isso acontece por que o idioma grego, no qual foi escrito o Evangelho de João, não tinha um artigo indefinido, ou seja, se o autor tivesse a intenção de usar um substantivo de modo indefinido ele não poderia colocar o artigo, como acontece em Jo.1.1.

Por isso, quando o termo grego the.ós é usado sem artigo os tradutores devem respeitar essa ausência e traduzi-lo de maneira indefinida, pois se fosse intenção do autor usá-lo definidamente ele deveria ter colocado um artigo, como o livro “Deve-se crer na Trindade” deixa muito claro:

“Em João 1:1 ocorre duas vezes o substantivo grego the‧ós (deus). A primeira ocorrência se refere ao Deus Todo-poderoso, com quem a Palavra estava (“e a Palavra [lógos] estava com Deus [uma forma de theós]”).

Publicações

Publicações

Este primeiro theós é precedido pela palavra ton (o), uma forma do artigo definido grego que aponta para uma identidade distinta, neste caso o Deus Todo-poderoso (“e a Palavra estava com o Deus”). Por outro lado, não existe artigo antes do segundo theós, em João 1:1. Assim, uma tradução literal seria “e deus era a Palavra”.” – pp.27

Portanto, parece bem claro que as versões trinitárias não parecem se fundamentar na gramática grega para fazer a tradução desse texto, mas por acreditarem que Jesus é o Deus Todo-Poderoso fazem com que suas traduções digam isso.

Outro detalhe que merece nossa atenção, é que esse tipo de construção grega exige que o texto seja entendido como a Tradução do Novo Mundo sugere, como vemos no livro Raciocínios:

Publicação

Publicação

“A construção articular (quando o artigo aparece) do nome indica identidade, personalidade, ao passo que um nome predicativo, no singular, sem artigo e anteposto ao verbo (como está construída a sentença no grego) indica qualidade de uma pessoa. Portanto, o texto não diz que a Palavra (Jesus) era o mesmo que o Deus com quem estava, mas, antes, que o Verbo (a Palavra) era semelhante a um deus, era divino, era um deus” – pp.213

Diante dessas evidências é certo que a Tradução do Novo Mundo traduz o texto de modo mais claro e respeitando o texto original. Mas, essa não é a única indicação que temos de que essa é a tradução correta.

2. Contexto

No livro “O que a Bíblia REALMENTE ensina” lemos:

O que Bíblia Realmente Ensina?

O que Bíblia Realmente Ensina?

“A maioria das pessoas não conhece o grego bíblico. Como, então, você pode saber o que o apóstolo João realmente queria dizer? Pense neste exemplo: um professor explica um assunto aos seus alunos. No final, os alunos entendem a explicação de maneiras diferentes. Como podem resolver o assunto? Talvez pedindo mais informações ao professor. Sem dúvida, aprender fatos adicionais os ajudará a entender melhor o assunto. De modo similar, para entender o sentido de João 1:1, você pode encontrar no Evangelho de João mais informações sobre a posição de Jesus. Aprender fatos adicionais sobre esse assunto o ajudará a chegar à conclusão certa”- pp.202

Como vemos, o contexto oferece informações suficientes para verificarmos como deve ser entendo o texto que estamos lendo. Observe que em nenhum outro lugar no evangelho de João, Jesus é chamado inequivocamente de Deus (ho the.ós), mas Ele é chamado sempre de Filho de Deus. Veja que no mesmo capítulo João fala que “Nenhum homem jamais viu a Deus” (João.1.18), mas que Jesus “se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória” (João 1.14). Portanto é seguro afirmar que Jesus não pode ser o Deus Todo-Poderoso com quem estava, até por que ninguém viu a Deus (Todo-Poderoso), mas Jesus certamente foi visto em sua glória. Pouco à frente, o mesmo livro nos informa:

“Quase no fim de seu Evangelho, João resume o assunto dizendo: “Estes foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus.” (João 20:31) Note que Jesus não é chamado de Deus, mas sim de Filho de Deus. Essas informações adicionais, fornecidas no Evangelho de João, mostram como João 1:1 deve ser entendido. Jesus, a Palavra, é “deus” no sentido de que ele tem uma alta posição, mas não é o mesmo que o Deus Todo-Poderoso” – pp.203

Portanto, podemos ter certeza de que a Tradução do Novo Mundo trás uma versão mais fiel do texto, seguindo as regras da gramática grega e ao contexto do Evangelho de João. Mas, será isso realmente assim? Não seria natural esperar que as publicações da Sociedade Torre da Vigia fossem favoráveis a tradução feita pela mesma instituição? Será que pessoas que não pertencem a essa Organização tem a mesma opinião? Será que a interpretação das evidências tem sido feita de modo imparcial? Todas as evidências foram analisadas? Essas são as perguntas que pretendo responder adiante.

3. Mas, será isso a verdade? – Vamos aos fatos…

Em primeiro lugar, devemos afirmar que a ausência do artigo não exige que um substantivo seja entendido indefinidamente. Esse fato é observado com facilidade no NT. Por exemplo, nomes próprios não exigem artigo (At.19.13; Mt.2.7; 1Co.9.6; Cl.4.10). Outro fato observável com facilidade no NT é que títulos de livros não exigem a presença do artigo e nem por isso são entendidos indefinidamente (Mc.1.1). Veja por exemplo o caso de 1 Pedro 1.1-2:

“Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos residentes temporários espalhados por Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia, aos escolhidos segundo a presciência de Deus, o Pai, com santificação pelo espírito, com o objetivo de que sejam obedientes e sejam aspergidos com o sangue de Jesus Cristo. Benignidade imerecida e paz vos sejam aumentadas”

Toda essa sentença é escrita sem nenhum artigo grego e isso não faz com que todos os substantivos sejam indefinidos. Esse tipo de situação não é incomum no grego do NT e caso semelhante acontece com palavras abstratas que também não exigem a presença de artigo para serem entendidas como definidas (Gl.5.20; Rm.1.29). Ou seja, a idéia de que um substantivo sem artigo deve ser indefinido não provém da gramática grega. A gramática grega, na verdade, afirma que um substantivo sem artigo pode vir a ser indefinido.

Caso a defesa da Sociedade Torre da Vigia esteja certa em Jo.1.1c, devemos reinterpretar o que acontece em todo o Evangelho de João. Por exemplo, em João 1.6 o substantivo the.ós também está sem artigo, e ainda assim sabemos que ele fala sobre Deus. Considerando isso, será que deveríamos ler o texto assim: “Houve um homem enviado por um deus”? Seria isso uma boa tradução? Certamente não.

Em segundo lugar, temos que lembrar que o fato do substantivo the.ós não tem artigo não implica no fato de que ele deve ser entendido indefinidamente. No Novo Testamento existem ao menos 29 ocasiões em que o substantivo “Deus” é usado sem artigo no NT no mesmo caso que em Jo.1.1 (nominativo) e em nenhum desses casos vemos declarações indefinidas (Mc. 12:26 (x2), 27; Jo.1:1, 18; 8:54 10:34; At.19:26; Rm.8:33 9:5; 1Co.3:7 8:4, 5 (x2), 6; 2Co.1:3, 21; 5:5, 19 6:16; Gl.6:7; Ef.4:6; Fl.2.13; 1Ts.2:5; 2Ts.2:4; 1Tm.2:5; Hb.3:4; 11:16; Tg.2:19; Rv.21:7). Ou seja, se a regra de Jo.1.1c for usada em todo o NT, o resultado será um outro tipo de Teologia.

Um caso muito interessante desse fato é Mateus 4.4:

“Mas ele disse em resposta: Está escrito: O homem tem de viver, não somente de pão, mas de cada pronunciação procedente da boca de Jeová

Nesse texto, a referência a Deus Pai (Jeová) é tão clara que a TNM já adotou o nome de Deus aqui. Entretanto, nesse caso o substantivo “Deus” não tem artigo e nem por isso traduzimos “da boca de um deus“. Aliás, essa seria um claramente uma má tradução. Esse tipo de uso é freqüente no NT, e o leitor pode encontrar mais exemplos em: Lc 2:14, 40, 52; 3:2; 20:36, 38, Jo.1:6; 1:13; 3:21; 6:45; 9:33; 10:34; 17:3; At. 7:40; 15:8; Rm 1.4, 7, 23; 2:17; 8:16… etc.

Em terceiro lugar, devemos ter em mente que a ordem das palavras nesse texto é fundamental. Normalmente a ordem das palavras em grego não faz a menor diferença para o sentido da frase, entretanto, quando a frase tem um verbo de ligação (especialmente o verbo “ser”), a ordem das palavras e o uso de artigo faz toda diferença.

Isso acontece por que em grego tanto o sujeito como o predicativo do sujeito são escritos no mesmo caso (nominativo), e precisam de uma indicação de quem é o sujeito. Por exemplo, quando sujeito e predicativo do sujeito levam artigos, temos uma construção onde A=B e B=A. Isso acontece em João 15.1:

“Eu sou a verdadeira videira e meu Pai é o lavrador”

Nesse caso, não importa quem é o que, pois os substantivos estão em completa equiparação, ou seja, o Pai é lavrador do mesmo modo que o lavrador é o Pai.

Outro modo que poderia ser usado para descrever seria usar o predicativo do sujeito depois do verbo acompanhado de artigo. Nesses casos, a presença do artigo após o verbo garante que o entendimento do substantivo é definido. Observe o exemplo de Marcos 1.11 na TNM:

e uma voz saiu dos céus: “Tu és meu Filho, o amado; eu te tenho aprovado.”

Nesse texto, certamente o sentido é definido. Marcos não fala que a voz disse que Jesus era um Filho, mas O Filho. A sentença grega deixa isso claro usando predicativo do sujeito depois do verbo com artigo.

Mas, o que aconteceria se o autor usasse o predicativo após o verbo, mas sem artigo? Essa construção seria entendia indefinidamente. Usualmente no grego koinê quando predicativo é sem artigo após o verbo de ligação, o sentido é claramente indefinido (salvo alguma indicação do contexto). Observe o caso de João 11.38 na TNM:

Por isso, Jesus, depois de gemer novamente no seu íntimo, foi ao túmulo memorial. Era, de fato, uma caverna e havia uma pedra encostada nela

Note que João aqui usa uma construção que evidencia que fala de uma caverna, não A caverna como se fosse uma em especial, ou a única existente. Nada de especial havia, era uma caverna. Essa construção é comum no NT e freqüente em João. Mas, o que aconteceria se o autor usasse o predicativo do sujeito antes do verbo sem artigo?.

Bom, esse é o caso de Jo.1.1: καὶ Θεὸς ἦν ὁ Λόγος. Nessa frase como sabemos quem é o sujeito e quem é predicativo do sujeito? O substantivo que usa o artigo é o sujeito, portanto, O Verbo é o sujeito da frase. Mas, por que João usa esse modo de escrever?

  • Sabemos que se João quisesse dizer que o Verbo era o Deus Pai, ele teria usado os dois substantivos com artigo, como demonstramos com Jo.15.1. Mas, João não fez isso.
  • Se quisesse dizer que o Verbo era O Deus, ele poderia ter usado um pronome para substituir o Verbo e acrescer um artigo no substantivo Deus. Essa sentença ficaria assim: “No princípio era o Verbo, o Verbo estava com Deus, e ele era o Deus“. Mas, João não fez isso.
  • Se quisesse dizer que o Verbo era um deus, ele poderia ter colocado o predicativo do sujeito depois do verbo e sem artigo como em Jo.11.38. Mas, João nã fez isso. Então, o que quis dizer João?

Usualmente, quando o predicativo do sujeito está sem artigo e antes do verbo de ligação o sentido é qualitativo, como acontece umas 40 vezes só no evangelho de João (Jo.1.12, 14; 2.9; 3.4, 6 (x2), 29; 4.9; 6.63, 70; 7.12; 8.31, 33, 34, 37, 39, 42, 44 (x2), 48; 9.17, 24, 25, 27, 27, 31; 10.1, 2, 8, 13, 33, 34, 36; 12.6, 26, 50; 13.35; 15.14; 17.17; 18.35). Ou seja, é mais provável que João estivesse a dizer: “E o Verbo era divino“.

Mas, é fundamental demonstrar que a conclusão da STV sobre o sentido qualitativo está absolutamente equivocada, pois o sentido da Tradução do Novo Mundo (um deus) diz que o Verbo, Jesus Cristo é um tipo de Deus, ao passo que o sentido qualitativo demonstra que o Verbo tem as características e qualidades de Deus, ou seja, é tão Deus quanto Deus é.

Observe que esse é exatamente o tipo de construção em que João apresenta características fundamentais de Deus, que é Luz (1João 1.5) e Amor (1Jo.4.8). Se a regra que a STV usa para Jo.1.1c fosse usada para os outros dois textos, teríamos sérios problemas, pois Deus seria uma forma de luz e de amor, e não todo Luz e todo Amor. Sabemos que isso não é verdade, e o modo como João escreveu isso é tão claro que nenhuma versão jamais ousou verter esses textos indefinidamente. Ou seja, para que Jo.1.1c fosse traduzido indefinidamente os tradutores teriam uma agenda teológica definida a ponto de ignorarem a gramática grega.

O que quero dizer com isso é que João jamais intencionou usar o sentido indefinido em João 1.1c e que tal opção é uma subversão do texto. Está claro que o texto diz que o Verbo é tão Deus como Deus é. Mas, o que isso significa? Será que isso significa que Jesus é o Deus Pai? Certamente não.

O entendimento claro do texto diz que o Verbo estava com Deus Pai (Jo.1.1b), mas também é tão Deus quanto Ele (Jo.1.1c), ou seja: O Verbo não é a mesma pessoa que o Deus Pai, mas são a mesma essência.

Por último, devemos considerar o contexto do texto. Lembre-se que Jesus além de ser chamado de Deus em João 1.1, o mesmo acontece em João 1.18 e 20.28. No caso de João 20.28 é tão claro e inequívoco que João usa o substantivo the.ós acompanhado de artigo. Nesse caso, temos que entender que para João, o Verbo não é o Deus Pai, mas tem a mesma essência, sendo isso claramente evidenciado pelo texto de João 1.1. Mas, ainda assim, Ele é chamado de Filho de Deus, mas Ele é um Filho como mais ninguém é, Ele é o Filho e Deus unigênito. Esse é Jesus Cristo, Deus que se fez carne e habitou entre nós, e não uma forma de deus criado por Deus.

É fundamental que o leitor tenha em mente que João afirma que apenas o Deus Pai é o verdadeiro Deus (Jo.17.3), e se Jesus é um outro deus, Ele não pode ser o Deus Verdadeiro, pois apenas o Deus Pai o é. Entretanto, se Jesus é essencialmente Deus, Ele é o Verdadeiro Deus (1Jo.5.20).

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