João 1.1: Gramática ou interpretação?

A pessoa não perita nas línguas bíblicas originais não precisa ficar tomada de reverência por aqueles que citam regras gramaticais. Nenhuma regra de gramática irá contradizer a mensagem geral da Bíblia. Semelhantemente, o honesto instrutor da Bíblia sabe que é o texto da Bíblia que é inspirado. Os livros de regras gramaticais não são, embora sejam de ajuda – Sentinela, 22 de Novembro de 1972, pp28

Muitas pessoas já passaram pela dificuldade de se entender um texto bíblico traduzido, entretanto, muitas delas não sabem como pode ser difícil fazer o mesmo lendo no idioma original. É por isso que para ser um tradutor das escrituras exige-se que se tenha um grande conhecimento da língua que se propõe a traduzir, para que pessoas das mais diferentes classes possam ler a aproveitar o texto que lêem.

Todavia, encontramos diferentes opiniões sobre como poderia ser traduzido o texto de João, que a TNM assim verte: “No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com o Deus, e a Palavra era [um] deus“. Por outro lado, diversas traduções diferem especialmente da parte final desse texto, e afirmam que nesse texto João ensina que Jesus é Deus. Os que pensam assim dizem que uma regra de gramática grega não permite que o texto seja traduzido como vemos na TNM, mas será isso verdade?

Em primeiro lugar, temos que admitir que o texto deixa claro que Jesus não é o Deus Todo-Poderoso com quem estava, pois o texto diz: “e a Palavra estava com o Deus“. Vale a pena dizer que nenhuma versão tem outra leitura para esse verso. Ou seja, o texto não pode estar dizendo que Jesus é o Deus com quem estava.

Em segundo lugar, devemos lembrar que não existem regras gramaticais que sejam suficientes para dizer que Jesus é o Deus com quem Ele estava. O texto nesse lugar é claro e deve ser respeitado. Não devemos permitir que pessoas que tentam distorcer as escrituras nos convençam do contrário com suas falácias gramaticais.

Por outro lado, devemos ter severa cautela com o que a Sentinela no informa na citação inicial, pois ela diz: “Nenhuma regra de gramática irá contradizer a mensagem geral da Bíblia“. Embora isso seja absolutamente verdade, não podemos cair no exagero e ignorar o que a gramática de um texto fala sobre ele. Por exemplo, nesse mesmo verso, sabemos que o texto não pode falar que Jesus é o Deus com quem estava, mas isso determina que ele é [um] deus? Certamente não.

Por isso, é importante conhecer um pouco mais sobre a gramática do texto de João 1.1 para podermos saber o que o texto está ensinando de fato. Um detalhe interessante sobre a gramática grega é que normalmente a ordem das palavras e o uso do artigo não faz diferença. Por exemplo, afirmar que Jesus ama Paulo em grego koinê, pode ser escrito de 16 formas diferentes sem alteração de significado:

1.᾿Ιησοῦς ἀγαπᾷ Παῦλον
2.᾿Ιησοῦς ἀγαπᾷ τὸν Παῦλον
3.ὁ ᾿Ιησοῦς ἀγαπᾷ Παῦλον
4.ὁ ᾿Ιησοῦς ἀγαπᾷ τὸν Παῦλον
5.Παῦλον ᾿Ιησοῦς ἀγαπᾷ
6.τὸν Παῦλον ᾿Ιησοῦς ἀγαπᾷ
7.Παῦλον ὁ ᾿Ιησοῦς ἀγαπᾷ
8.τὸν Παῦλον ὁ ᾿Ιησοῦς ἀγαπᾷ
9. ἀγαπᾷ ᾿Ιησοῦς Παῦλον
10. ἀγαπᾷ ᾿Ιησοῦς τὸν Παῦλον
11. ἀγαπᾷ ὁ ᾿Ιησοῦς Παῦλον
12. ἀγαπᾷ ὁ ᾿Ιησοῦς τὸν Παῦλον
13. ἀγαπᾷ Παῦλον ᾿Ιησοῦς
14. ἀγαπᾷ τὸν Παῦλον ᾿Ιησοῦς
15. ἀγαπᾷ Παῦλον ὁ ᾿Ιησοῦς
16. ἀγαπᾷ τὸν Παῦλον ὁ ᾿Ιησοῦς

Observe que a ordem das palavras e o uso do artigo nesse caso é indiferente: Não há mudança de significado nenhum. Contudo, quando a frase é escrita com verbo de ligação (ser, estar), a coisa muda de figura, e o uso do artigo e a ordem das palavras é fundamental. Entretanto, existe um padrão para identificarmos como traduzir sentenças assim (verbos sempre em itálico):

1. CONSTRUÇÃO INTERCAMBIÁVEL (Sujeito e predicativo do sujeito definidos): Nesse tipo de construção, sujeito e predicativo do sujeito levam artigo, independente da ordem das palavras. Ex. “ὁ πατήρ μου ὁ γεωργός ἐστιν ” Jo.15.1 (Meu Pai é o Agricultor – O Agricultor é o Meu Pai).

2. CONSTRUÇÃO ANARTRA E PRÉ-VERBAL: (Predicativo do sujeito sem artigo no original antes do verbo): Nesse tipo de construção, quatro sentidos são possíveis: Definido, Correlato, Qualitativo e Indefinido:

* Definido: Dependendo do substantivo usado, a sentença é definida, embora não tenha artigo. Ex. “σὺ ___βασιλεὺς εἶ τοῦ ᾿Ισραήλ” (Tú és O Rei de Israel – Jo.1.49). Não é um Rei, é O Rei. Veja também: Jo.17.17 (“ὁ λόγος ὁ σὸς ____ἀλήθειά ἐστι” – Tua palavra é A verdade). (cf. Jo.3.29; 9.5). Esse uso não é comum em João e no NT (Jo.1.49; 5.27; 9.5; 7.17; 19.21).

* Correlato: Nesse tipo de construção, o sujeito pode ter artigo ou não, mas o predicativo do sujeito não tem, mas é colocado antes do verbo e traduzido sem artigo. Ex. “ὅτι ἐμοὶ ___μαθηταί ἐστε” Jo.13.35 (Sois meus discípulos). Veja também Jo.18.37: “βασιλεὺς εἶ σύ” (Tú és rei). Esse uso não é comum, mas quando se trata de questões temporais é o modo correto a se traduzir (Jo.5.10; 21.4).

* Qualitativo: Nesse tipo de construção o sujeito pode ter ou não artigo, mas o predicativo não tem, é colocado antes do verbo, mas o sentido é qualitativo. Na tradução desses casos um adjetivo pode ser usado para expressar o sentido qualitativo do substantivo grego.. Ex. “πῶς δύναται ἄνθρωπος γεννηθῆναι ___γέρων ὤν” Jo.3.4 (Como um homem pode nascer sendo velho – sentido de idoso). Veja também: “τὸ γεγεννημένον ἐκ τῆς σαρκὸς ____σάρξ ἐστι” Jo.3.6 (quem nasceu da carne é carnal). (cf. Jo.6.63). Esse é o uso padrão e comum em João e no NT (1.12; 14; 2.9; 3.4, 6 x2, 29; 4.19; 6.33 x2, 70; 8.31, 33, 34, 37, 39, 44 x2, 48; 9.8, 17, 24, 25, 27, 28, 10.1, 2, 8, 13, 33, 34, 36; 11.51; 12.6, 29, 26, 50; 13.35; 15.14; 18.25, 35 x2, 37 x2).

* Indefinida: Nesse tipo de construção o sujeito pode ou não ter artigo, mas o predicativo não tem e é colocado antes do verbo, mas o sentido é indefinido. Na tradução deve-se colocar um artigo indefinido antes do substantivo. Ex. “Κύριε, θεωρῶ ὅτι ___προφήτης εἶ σύ” (Senhor, vejo que és um profeta). Esse é o único caso, sob discussão se o sentido não é correlato ou até mesmo qualitativo, em toda a obra literária de João no Novo Testamento. Esse uso é incomum e quase ausente em João e raro no NT.

3. CONSTRUÇÃO ANARTRA E PÓS VERBAL: (Predicativo do sujeito sem artigo no original). Nesse tipo de construção o sentido é claramente indefinido sempre indefinido. Ex. “Ἦν δὲ ___ἄνθρωπος ἐκ τῶν Φαρισαίων ” (Jo.3.1 – Havia um homem entre os fariseus). Uso comum em João e no NT (Mc.3.17; 6.34, 44; Jo.11.38).

É importante dizer que a construção grega de João 1.1 não é nem a primeira nem a terceira, mas a segunda. Ou seja, é possível que o sentido da expressão fosse tanto definido, quanto correlato, qualitativo e indefinido. Contudo, mais uma observação deve ser feita aqui: A tradução indefinida é antagônica às outras três. Não é possível que um ser criado (indefinida) seja da mesma natureza (qualitativa) que seu Criador ou Deus (correlata ou definido). Segundo as escrituras, nada na criação tem mesma natureza ou essência do Criador, tudo é criado distinto do Criador. Ou seja, se Jesus é criado como um outro deus e lhe é inferior não pode ter a mesma natureza de Deus ou ser Ele mesmo Deus.

Tendo considerado a gramática do texto, podemos dizer que a tradução indefinida é correta?

A resposta a essa pergunta é:  Certamente não! Nesse tipo de construção grega o sentido indefinido é sempre o mais improvável. Isso acontece pelo fato já demonstrado acima: O grego koinê tinha um modo específico para usar o sentido indefinido de um substantivo, colocando-o após o verbo de ligação e sem artigo. Ou seja, se a intenção de João fosse deixar, sem sombra de dúvidas que a Palavra era [um] deus, ele teria colocado depois do verbo o substantivo sem artigo. Como ele não fez isso, temos por certo que esse não é o sentido auferido por ele. Então, o que quis dizer João?

Considerando que o sentido usual auferido por João com esse tipo de construção é o qualitativo, devemos considerá-lo proeminente aqui. Temos por certo que o sentido não é DEFINIDO, pela clara ausência de artigo acompanhando o termo “Deus”. Temos por certo que o sentido não é INDEFINIDO, por que sabemos que João não usa esse tipo de construção grega para o sentido indefinido, salvo apenas uma possibilidade. Diante disso, ou entendemos como CORRELATO ou QUALITATIVO.

Na verdade, a tradução correlata poderia ser considerado um modo possível de tradução, mas não necessária. Diante disso, devemos entender qual seria as implicações de se entender o termo qualitativamente.

Em primeiro lugar, teríamos que assumir que Cristo é Divino e não o Deus com quem estava. Ou seja, ele não é a mesmíssima pessoa que Jeová, mas é divino. Devemos ter cuidado com o entendimento que temos do termo “divino”, visto que em nossos dias o termo está desgastado. Com esse termo não estamos dizendo que Jesus é divino no sentido de especial, ou de participação na divindade, pois se João intencionasse dizer isso, ele teria usado o adjetivo grego “Θειὸς”, mas não o fez. Ao usar o substantivo Deus sem artigo João estava dizendo que Jesus é tão Deus quanto Deus: Ele é Divino como Deus o é.

Em segundo lugar, temos que assumir que se Jesus não é a mesma pessoa que Jeová, mas é tão divino quanto, Ele não pode ser um outro ser à parte de Deus, pois existe apenas um só Deus. Ou seja, Jesus e Jeová são essencialmente um, como o próprio Jesus ensina. Não são a mesma pessoa, mas são essencialmente divinos.

Essa conclusão parece colocar o sentido do texto de fato no lugar em que deve estar: Jesus Cristo é Deus, tal qual Deus, sem ser a mesma pessoa que Jeová. Esse é o ensino desse texto, e como esse texto está nas escrituras, esse é o ensino das Escrituras sobre Cristo.

Portanto, João 1.1 é sim uma questão de gramática, mas não apenas de gramática: Gramática e Interpretação – Uma parceria necessária de ser resgatada.

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