Cruz ou estaca? – O que diz a arqueologia?

Sabemos com certeza que as suas mãos ou seus braços não foram simplesmente amarrados, pois Tomé disse mais tarde: “A menos que eu veja nas suas mãos o sinal dos pregos.” (João 20:25) Isto pode ter significado um prego em cada mão, ou o plural “pregos” pode referir-se a marcas de pregos nas ‘suas mãos e nos seus pés’. (Veja Lucas 24:39.) Não temos condições de saber onde precisamente os pregos o perfuraram, embora obviamente tenha sido na área de suas mãos. O relato bíblico simplesmente não provê detalhes exatos, nem há necessidade disso. E, se os eruditos que examinaram diretamente os ossos encontrados perto de Jerusalém, em 1968, nem podem ter certeza como aquele corpo foi posicionado, isto certamente não prova como Jesus foi posicionadoA Sentinela, 15 de Agosto de 1987, pp.29

Nessa Sentinela os autores discorrem sobre um fato interessante: “Arqueólogos israelenses, tendo desenterrado a primeira evidência material duma crucificação, disseram hoje que isto pode indicar que Jesus Cristo talvez tivesse sido crucificado numa posição diferente daquela mostrada na cruz tradicional“.  Entretanto, na avaliação que fazem das evidências apresentadas chegam a conclusão de que tal evidência arqueológica nada poderia falar sobre o modo como Jesus teria sido morto. Mas, é isso mesmo verdadeiro? A Arqueologia nada pode falar sobre o assunto?

Existem poucas descobertas antropológicas relacionadas com a crucificação. Joe Zias, antigo Diretor de Arqueologia/Antropologia pela Autoridade de Antiguidades de Israel, diz que existem duas explicações para isto. A primeira explicação se baseia na forma que os indivíduos eram fixados à cruz. Nem sempre estes criminosos eram fixados com pregos, e muitos eruditos discutiram sobre esta questão. Brandenburger(1969) e Jeremias(1966) defendiam a tese de que a crucificação era uma penalidade sem sangue, onde as pessoas eram amarradas com cordas. Martin Hengel, por outro lado, juntamente com Hewitt(1932), adotaram a visão oposta, dizendo que pregar as mãos e os pés, cada um com um prego, era a regra, e amarrando-os, era a exceção. De fato, Flávio Josefo escreveu que “os soldados por raiva e ódio se divertiam pregando seus prisioneiros com diferentes posturas” (De Bello Judaico 5.11 e 451). Além disto, a forma variava de acordo com a quantidade de pessoas a serem crucificadas. Na crucificação dos 6000 prisioneiros de guerra por Crassus na Via Appia entre Roma e Capua (Bella Civilia I.120), o mais plausível é que tenham sido crucificados usando somente um poste vertical, que seria a forma mais rápida e simples. Assim, tanto este exemplo, como os exemplos em que as vítimas eram amarradas, não haveriam evidências traumáticas nos corpos. A segunda explicação, seria o uso dos pregos de crucificados como poderoso amuleto medicinal, sendo removidos assim que os cadáveres eram retirados.

Apesar disto, em 1968, construtores trabalhando em Giv’at ha-Mivtar, um subúrbio de Jerusalém, acidentalmente descobriu uma tumba judaica datada do primeiro século depois de Cristo. Nesta tumba havia um ossuário cuja inscrição dizia: “Jehohanan, filho de HGQWL”. Eram os restos de um homem por volta de 20 anos, que havia sido crucificado. A evidência se baseia no osso do calcanhar, que tinha um prego de 11.5 cm. Ao que tudo indica, o prego ao entrar na madeira, ficou preso de tal forma aos pés, que foi impossível tirar os pregos na retirada deste corpo. Foi encontrado também entre a cabeça do prego e o osso, um pedaço de madeira de oliva, que pode ter sido usado para aumentar a área da cabeça do prego, e evitar que a vítima solte seus pés.

Joe Zias foi quem reexaminou estes ossos. O seu predecessor, Haas, que publicou um artigo em 1970, havia dito que os pregos tinham 17 a 18 cm, o que foi desmentido por Joe Zias. Outro exame detalhado revela que ao contrário do que Haas havia dito, não havia evidências no osso rádio de que um prego havia estado ali. Por isto, Joe Zias diz que provavelmente Jehohanan foi pregado nos pés, e amarrado pelos braços. De fato, segundo Flávio Josefo (Guerras Judaicas 5:552-553) as tropas romanas tiveram que viajar 10 milhas para encontrar madeira, o que indica que esta estava escassa naquela região. Assim, Joe Zias considera que podia se economizar madeira, usando-se o mesmo poste transversal para várias crucificações.

Além das evidências antropológicas, temos também algumas evidências arqueológicas. Lâmpadas e lamparinas são achados comuns, que evidenciam algumas práticas de vários povos. Um fato interessante é que lâmpadas cristãs eram facilmente identificadas pelos símbolos que elas apresentavam. Entre os símbolos mais comuns em lâmpadas cristãs, estava a cruz.

Uma outra evidência sobre a crucificação foi encontrada no Paedagogium, nas encostas das montanhas Paladinas em Roma. Em 1856, R. Garrucci examinou as paredes deste edifício (talvez uma prisão para escravos), e descobriu uma caricatura de Cristo crucificado. De acordo com Jack Finegan “Este desenho rude mostra um corpo humano com a cabeça de um asno, em uma cruz. À esquerda há uma pequena figura de um garoto ou jovem em atitude de adoração”. (Light From the Ancient Past, 1959, p. 373).

 

ALEXAMENOS SEBETE THEON

ALEXAMENOS SEBETE THEON

 

Abaixo da figura, há a inscrição “ALEXAMENOS SEBETE THEON”, que pode ser traduzida por “Alexamenos adora seu deus”, ou o vocativo, “Alexamenos, adore deus”.

Não há dúvidas de que esta figura blasfema ironizava cristãos. O escritor cristão Tertuliano, escrevendo em sua Apologia, esclarece a figura:

“Juntamente como outros, estais na ilusão de que nosso Deus é uma cabeça de asno. Cornélio Tácito foi o primeiro a divulgar tal noção entre o povo.” – Apologia capítulo 16

Mais adiante, Tertuliano completa:

Mas, ultimamente a nova versão de nosso Deus foi dada a conhecer ao mundo nessa grande cidade: originou-se com um certo homem desprezível que tinha costume de se dedicar a trapacear com feras selvagens, e que exibiu uma pintura com esta inscrição: O Deus dos Cristãos nasceu de um asno. Ele tem orelhas de asno, tem casco num pé, segura um livro e usa uma toga. Tanto o nome como a figura nos provoca risos. – Apologia capítulo 16.

O desenho das montanhas Paladinas é datado do reino do imperador Marcus entre 161-180 D.C, mas alguns o datam mais tarde, no reino de Alexander Severus, 222-235 D.C. Apesar da datação muito posterior, o desenho ainda mostra como os pagãos viam a crucificação de Cristo, e que a crucificação com dois postes de madeira era usado nesta época.

Esse post provém de parte do artigo de Gustavo Souteras Barbosa, publicado no e-cristianismo sob o título: Com quantos paus se faz uma stauros? – O artigo foi gentilmente cedido pelo autor para ser publicado neste blog. Algumas alterações de forma foram feitas ao original, mas o conteúdo mantém-se o mesmo.


 

 

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