Cruz ou estaca? – O que diz a história?

Portanto, falta totalmente qualquer evidência de que Jesus Cristo tenha sido crucificado em dois pedaços de madeira colocados em ângulo reto. Não queremos acrescentar nada à Palavra escrita de Deus pela inserção nas Escrituras inspiradas do conceito pagão da cruz, mas vertemos stau‧rós e xý‧lon de acordo com o significado mais simples. – Bíblia Tradução do Novo Mundo com referências, Apendice 5C, pp.1515

Com tal citação generalista, os autores das referências da Tradução do Novo Mundo sugerem a seus leitores que não existem qualquer evidência de que o instrumento da morte de Cristo tenha sido uma CRUZ. Mas, será isso verdadeiro? O que dizem os historiadores sobre isso?

Muitos historiadores atribuem a criação da crux compacta, constituída de um poste horizontal e um vertical onde se pregavam os braços, aos romanos, que combinaram práticas locais com a de povos vizinhos. Esta prática no entanto teve vários precedentes, como o impalamento e o penduramento pós-morte. O primeiro foi praticado por assírios, cujo exemplo mais antigo é o de Hamurabi (1700AC). O segundo foi praticado por israelitas(Dt 21:23).

Os persas, no entanto, pregavam seus prisioneiros em árvores e postes. Segundo o The Theological Dictionary of the New Testament, “os persas inventaram ou foram os primeiros a usar este modo de execução. Eles provavelmente faziam assim para não profanar a terra, que era consagrada a Ormuzd, pelo corpo da pessoa executada” (p. 16). Apesar disto, Hengel em sua obra Crucifixion, chama a atenção para o fato que outros povos também possuíam tal prática. O que distinguia a prática persa, do penduramento pós-morte é que os prisioneiros eram fixados vivos. Acredita-se que as menções à forca em Esdras 6:11 e Ester  7:9,10 se refiram à crucificação persa, apesar dos textos não serem específicos. As guerras greco-persas introduziram a prática aos gregos, e Herodotus (Historiarum, 1.128.2, 3.125.3, 3.132.2, 3.159.1, 4.43.2-7, 6.30.1, 7.194) faz inúmeras referências a seu uso pelos persas (ver também Thucydides, Historia 1.110.3, sobre seu uso no Egito neste tempo). Por exemplo, Herotodus menciona um vice-rei chamado Sandoces, filho de Thamasius, que foi levado e crucificado (anestauróse) por Dário, mas Dário então mudou de idéia e libertou Sandoces. A forma do instrumento usado pelos persas também variava muito. Herotodus diz que era composto de “tábuas” (9.120), enquanto Plutarco mostra que até 4 estacas eram usadas para uma vítima (Artaxerxes, 17.5).

Pelo contato com os persas, os gregos incorporaram a crucificação como estratégia militar. Foi usado principalmente por Alexandre o Grande em sua guerra contra os persas (336-323 AC). Depois do cerco de Tiro (332 AC), “dois mil… foram pendurados em estacas por uma longa faixa da praia” (Curtius Rufus, Historia Alexandri 4.4.17; veja também Plutarco, Alexandre 7.2 sobre a crucificação do médico persa de Alexandre). Alguns historiadores também supõem que ele crucificou Callisthenes, seu historiador e biógrafo oficial, depois que Callisthenes se opôs à adoção por Alexandre da cerimônia real Persa de adoração. Depois da morte de Alexandre, os gregos continuaram a usar a crucificação contra seus inimigos (ver Diodorus Siculus, Bibliotheca Historica 16.61.2), apesar de não incorporar a prática em seu sistema legal de punição. Os gregos repeliam tal mostra brutal (ver Herodotus, Historiarum 7.138, 9.78). Como resultado da crucificação em massa de Tiro, os fenícios e cartaginenses adotaram a prática para uso em guerra (cf. Valerius Maximus, Memorabilium 2.7; Silius Italicus, Punica 2.344). Durante as guerras púnicas (264-146 A.C.), os romanos encontraram a versão fenícia da crucificação e se apropriaram dela como meio de punição para escravos, convertendo-o em um meio brutal de tortura. Para isto, eles adicionaram uma trave vertical chamada patibulum, e um sedile, onde a vítima descansaria seu peso. Antes da invenção da crucificação pelos romanos, o patibulum era usado para humilhar condenados que marchavam para sua execução. Dionysius de Halicarnassus (primeiro século A.C.) descreve esta prática:

“Um cidadão romano de posição não obscura, mandando um de seus escravos ser posto para morrer, o entregou a seus companheiros de escravidão para levá-lo, e para que todos pudessem ver sua punição, os direcionou a puxá-lo pelo Fórum e qualquer outra parte mais freqüentada da cidade enquanto o chicoteavam, e que ele deveria ir à frente da procissão à qual os romanos estavam conduzindo na época em honra ao deus. Os homens foram ordenados a levar o escravo a sua punição, tendo seus braços abertos e pregados a um pedaço de madeira (tas kheiras apoteinantes amphoteras kai xuló prosdésantes) o qual estendia-se por suas costas e ombros até seus punhos, seguindo-o, cortando seu corpo nu com chicotes” – (Antiguidades Romanas, 7.69.1-2).

Esta punição do patibulum, onde o escravo era chicoteado e levado pela cidade, foi praticado nos tempos pré-republicanos, e foi o ancestral direto do ritual da crucificação onde a vítima levava a própria cruz. Nem sempre precedia a execução, era mais usada para humilhar. Outras descrições da prática podem ser encontradas em Livy e Plutarco, que descrevem seu uso em tempos pré-republicanos e revelam que a madeira carregada pela vítima também era chamada de furca, “jugo”.

“Nas primeiras horas do dia apontado para os jogos, antes que o espetáculo começasse, um certo chefe de família dirigiu seu escravo, que carregava um jugo (furca), pelo meio do circo, chicoteando o réu enquanto entrava.” – (Livy, História Romana 2.36.1).

 

“Um certo homem entregou um de seus escravos, com ordens de chicoteá-lo pelo fórum, e então colocá-lo para morrer. Enquanto estavam executando suas ordens e atormentando o pobre infeliz, cuja dor e sofrimento o faziam se contorcer e se torcer horrivelmente, a procissão sagrada em honra a Júpiter mudou para aparecer atrás deles… E era uma punição severa para um escravo que cometeu uma falta, se ele fosse obrigado a tomar um pedaço de madeira (xulon), com o qual eles apoiavam a haste de uma carruagem, e o carregar pela vizinhança. Pois aquele que era visto experimentar esta punição não teria mais crédito em sua própria vizinhança familiar. E ele era chamado de furcifer (phourkipher), pois o que os gregos chamam de coluna ou suporte, é chamado de ‘furca’ (phourkan) pelos romanos.” – Plutarco, Coriolanus 24.4-5.

 

É esta velha prática romana de levar o patibulum que mais tarde, se unindo à crucificação fenícia, daria forma à crucificação romana. Muitos eram crucificados no local onde ocorreu o crime, ou em lugares que havia muitas pessoas, como forma de advertir as pessoas. Esta situação pode ser bem exemplificada por Quintilian (35-95 D.C.), que escreveu “sempre que crucificamos o culpado, as ruas mais movimentadas são escolhidas, onde mais pessoas possam ver e serem movidas por este temor. Por que as penalidades se relacionam não tanto com a retribuição do que com seu efeito exemplar” (Decl. 274).

Por se relacionar com criminosos e pessoas de classe baixa, a crucificação foi considerada o modo mais desonroso de morrer. Cidadãos Romanos condenados eram usualmente isentos de crucificação (como nobres feudais de enforcamento) exceto por crimes maiores contra o estado, como alta traição. Os Romanos o usaram durante a rebelião de Spartacus, onde crucificaram 6000 pessoas, durante a Guerra Civil Romana, e a destruição de Jerusalém.

A crucificação, em Roma, era a forma mais humilhante de morrer. As autoridades romanas desenvolveram várias maneiras para deixar as vítimas por vários dias sendo expostas ao público. Assim, a forma de punição não era fixada por lei, mas parecia depender da quantidade de pessoas, da criatividade sádica daqueles que conduziam a crucificação, e o tempo necessário para que este espetáculo tenha o maior efeito. A forma da cruz também poderia variar. A cruz de Santo Antonio, ou cruz Tau, possuia o poste horizontal fixado na ponta do poste vertical, assemelhando-se à um T. Uma variação desta era a cruz latina, onde este poste era fixado um pouco abaixo da ponta. Esta é a cruz mais conhecida. A cruz de Santo André possuía a forma de um X, ou seja, era formada de dois postes na diagonal. Havia também a crux simplex, formada apenas do poste vertical.

Dar um enterro às vítimas de crucificação era muito raro, muitas vezes não era permitido, para que a humilhação continuasse. Assim, ou as vítimas eram jogadas nos montes de lixo das cidades, ou simplesmente deixadas na cruz, onde serviam de alimento para pássaros e animais. Juvenal, por exemplo, escreveu que em Roma “o falcão apressa por gado morto e cães e cruzes para trazer algum dos cadáveres para sua prole” (Sátiras 14.77f). A menção de cães aqui é curiosa, já que Plínio (NH 29.57) escreveu que cães foram também crucificados por não avisarem os romanos sobre o ataque dos gaulenses no monte Capitoline.

Esse post provém de parte do artigo de Gustavo Souteras Barbosa, publicado no e-cristianismo sob o título: Com quantos paus se faz uma stauros? – O artigo foi gentilmente cedido pelo autor para ser publicado neste blog. Algumas alterações de forma foram feitas ao original, mas o conteúdo mantém-se o mesmo.

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