Cruz ou estaca? O que diz a Bíblia?

Os relatos evangélicos de Mateus, Marcos, Lucas e João usam a palavra grega stau‧ros′ quando se referem ao instrumento de execução em que Jesus morreu. (Mateus 27:40; Marcos 15:30; Lucas 23:26) Essa palavra se refere a um poste, uma estaca ou um mastro. O livro The Non-Christian Cross (A Cruz Não-Cristã), de J. D. Parsons, explica: “Não existe uma única sentença em nenhum dos inúmeros escritos que formam o Novo Testamento que, no grego original, forneça sequer evidência indireta no sentido de que o stauros usado no caso de Jesus fosse diferente do stauros comum; muito menos no sentido de que consistisse, não em um só pedaço de madeira, mas em dois pedaços pregados juntos em forma de uma cruz.” – Despertai, Abril de 2006, pp.12-13

Será que as escrituras não deixam alguma evidência diferente do que supõe essa revista? Vamos olhar algumas afirmações bíblicas:

As evidências bíblicas sobre o formato da cruz utilizada na morte de Cristo não são explícitas. No entanto, várias referências à crucificação indicam que a cruz usada foi uma crux compacta.

Mateus 27:37

E por cima da sua cabeça (epanó tés kephalés autou) puseram escrita a sua acusação: ESTE É JESUS, O REI DOS JUDEUS.

Este texto é reconhecido como sugerindo uma cruz formada de dois postes. Se a crux simplex fosse usada no caso de Jesus, o mais natural aqui seria descrever o uso do titulus (um pedaço de madeira preso ao stauros, dizendo o crime do réu, como é dito por Cassius Dio, Historae Romanae 54.3.7-8 referido acima) acima das mãos, onde poderia ser visto.

É digno de nota, que apesar da Torre de Vigia argumentar que stauros significava simplesmente uma estaca, vemos através deste versículo que o instrumento que foi usado na morte de Cristo não era composto apenas de um poste vertical. A menção do titulus aqui indica que era sim um instrumento composto de mais de uma peça de madeira, e mesmo assim foi definido como stauros e xulon pelos escritores bíblicos.

João 19:17

E, levando ele às costas a sua cruz (bastazón hautó ton stauron), saiu para o lugar chamado Caveira, que em hebraico se chama Gólgota,

Este talvez seja o texto mais importante. Aqui, temos uma referência clara ao costume romano de se levar o patibulum. Note o uso do verbo bastazón para carregar, o mesmo verbo usado por Chariton e Artemidorus para se referir à mesma prática. Artemidorus é claro ao dizer que a vítima deste tipo de morte é pendurada em uma cruz de duas traves. Escritores latinos claramente distinguem o patibulum do poste vertical, e que era o patibulum que era carregado.

Nunca nos escritos antigos, um escravo é descrito carregando o poste vertical, tal prática não tem sequer relação com a velha prática romana de carregar o patibulum pela cidade. Os evangelhos sinóticos também falam a respeito de carregar a cruz, dizendo ainda que Simão de Cirene carregou a cruz de Cristo. A versão original de Marcos 15:31 diz que Simão levantou a cruz de Cristo (aré ton staurou autou), mas a versão de Lucas é mais detalhada: “E quando o iam levando, tomaram um certo Simão, cireneu, que vinha do campo, e puseram-lhe a cruz às costas(epethékan autó ton stauron), para que a levasse(pherein) após Jesus.” O verbo pherein também foi usado por Chariton e Plutarco, para se referir ao “carregar a cruz”, e o verbo epethékan, “colocado sobre”, é bem sugestivo  sobre  carregar o  patibulum nas costas da vítima, conforme Plutarco, ou cruzando o peito e ombros, conforme Dionysius de Halicarnassus. Compare o uso do verbo com com Lucas 15:5, descrevendo um pastor colocando a ovelha perdida sobre os ombros (epitithésin epi tous ómous), ou com Mateus 27:29 e João 19:2, onde soldados romanos colocam a cruz de espinhos sobre a cabeça de Cristo, ou até mesmo Mateus 21:7, onde as pessoas colocaram suas vestimentas sobre o jumento para que Cristo se assentasse.

João 20:25

Disseram-lhe, pois, os outros discípulos: Vimos o Senhor. Mas ele disse-lhes: Se eu não vir o sinal dos cravos(hélón) em suas mãos (en tais khersin), e não puser o dedo no lugar dos cravos(hélón), e não puser a minha mão no seu lado, de maneira nenhuma o crerei.

Esta importante declaração de Tomé não deixa espaço para a noção de que o instrumento usado na morte de Cristo foi uma crux simplex. O plural sugere o uso de dois pregos para fixar as mãos de Cristo, um para cada mão.

Pode-se recordar que Plautus que descreve o mesmo fato anteriormente (Mostellaria, 55-57), fala de uma forma mais severa onde “são pregados duplamente os pés, duplamente as mãos”. Talvez a interpretação mais aceita seja que usualmente se pregava mãos e pés com um prego, e quando se requeria uma forma mais severa, aplicava-se mais um prego em cada membro. O texto é um pouco ambíguo, mas o uso de dois pregos para uma mesma mão não combina com a palavra marca, lugar (tupos), que foi usado por João no singular.

Pode-se também objetar, como faz a sociedade Torre de Vigia, que os pregos estão no plural, por que Tomé está incluindo os pregos usados nos pés de Cristo:

“Alguns concluíram de João 20:25 que dois pregos foram usados, um para cada mão. Mas o uso do plural (cravos) por Tomé tem que ser entendido como uma descrição precisa indicando que cada mão de Jesus foi atravessada por um prego separado? Em Lucas 24:39 o Jesus ressuscitado diz: ‘Vede minhas mãos e meus pés, que sou eu mesmo’. Isto sugere que os pés de Cristo também foram pregados. Desde que Tomé não fez menção ao sinal dos pregos nos pés de Jesus, seu uso do plural pregos pode ter sido uma referência geral aos pregos usados para pregar Jesus. Assim, não é possível neste ponto definir com certeza quantos pregos foram usados.” (Sentinela 1984, pg 31)

No entanto, a dúvida é respondida pelo próprio Tomé, ao dizer que gostaria de ver as mãos, e o sinal dos cravos nas mãos de Cristo. Mais adiante no mesmo capítulo, Cristo mostra para Tomé as mãos e o lado, não seus pés. Apesar dos pés de Cristo terem sido pregados, Tomé estava se referindo às suas mãos quando usou pregos no plural, o que descarta os pés.

João 21:18,19

Na verdade, na verdade te digo que, quando eras mais moço, te cingias a ti mesmo, e andavas por onde querias; mas, quando já fores velho, estenderás as tuas mãos(ekteneis tas kheiras sou), e outro te cingirá, e te levará para onde tu não queiras. E disse isto, significando com que morte (poió thanató) havia ele de glorificar a Deus. E, dito isto, disse-lhe: Segue-me.

Aqui vemos uma expressão muito conhecida, o “estender as mãos”. Este mesmo verbo é usado por Epictetus (Dissertationes, 3.26.22) e Artemidorus (Oneirocritica, 1.76) . Vemos a mesma expressão em Lucian, Plautus, e Seneca.

Apesar da clareza do texto, exitem três interpretações aqui. A primeira é que o texto é na verdade uma adição posterior, feita para refletir a crucificação (Bernard, p. 709). O texto original deveria simplesmente mostrar a velhice como carente de ajuda. Mesmo que esta teoria esteja certa, a interpolação deveria ser muito cedo, no segundo século, o que demonstraria que a idéia de crucificação já estava presente.

A segunda interpretação trata o versículo como referente à crucificação e nada mais. Bernard aponta que o uso de cingir no grego clássico e na Septuaginta está relacionado ao cingir de roupas, o que nunca foi usado no sentido de prender um criminoso, que seria o sentido usado pelo Senhor se relacionando ao martírio de Cristo. Outra dificuldade apontada seria o uso de ekteneis ao invés de ektasis neste texto.

A última indica estender para os lados, e a primeira, para frente, como vemos em Lucas 5:13. A maior evidência que este texto se refere a outra coisa que não a crucificação, é a ordem dos eventos. Como diz D. W. O’Connor:

“Se há uma referência aqui da crucificação, não se esperaria que cingir viesse antes, seguido de carregar  e por último o estender das mãos?” (Peter in Rome: The Literary, Liturgical, and Archaeological Evidence, 1969, p. 62).

A terceira explicação combina o melhor das duas anteriores. Como sugerido por Bultmann e outros eruditos, o texto de João 21:18,19 pode refletir um antigo provérbio: “Na juventude pode-se ir livremente para onde quer ir, na velhice ele deve permitir ser levado mesmo que ele não queira”. (O’Connor, p. 62). Este provérbio foi adaptado para se referir à crucificação de Pedro, como explica Barnabas Lindars: “Ele foi colocado na segunda pessoa e alterado os tempos verbais de um presente, para passado e futuro. Também o expandiu com detalhes simbólicos… A linguagem é preservada para manter a imagem do velho carente.” (Lindars, The Gospel of John, 1980, pp. 636-637). Isto explica por que zónumi e ekteneis foi usado ao invés de uma forma mais apropriada, e por que a ordem dos eventos aparece diferente. Sobre o uso de ekteneis, deve-se lembrar que Epictetus já o havia usado para se referir à crucificação, o que não implica necessariamente que os braços eram estendidos para frente, o que impediria qualquer tipo de crucificação. Lindars também dá uma explicação boa sobre a sequência dos eventos: “A sequência intencionada poderia ser (a) estendendo as mãos pela trave horizontal, (b) ter suas mãos amarradas a ela com cordas, (c) ser levantado para a estaca.” (Lindars, p. 637).

É muito interessante também a crítica à tradição escrita por Eusébio, pois se não fosse a tradição escrita por alguns escritores modernos, não haveria dúvidas sobre o instrumento de penalidade de Cristo ser uma cruz. Não só Eusébio, mas outros escritos atestam o uso da expressão “estender as mãos” aplicada à crucificação. Portanto, esta interpretação deve-se muito mais ao registro histórico do que à tradição.

Esse post provém de parte do artigo de Gustavo Souteras Barbosa, publicado no e-cristianismo sob o título: Com quantos paus se faz uma stauros? – O artigo foi gentilmente cedido pelo autor para ser publicado neste blog. Algumas alterações de forma foram feitas ao original, mas o conteúdo mantém-se o mesmo.

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