Cruz ou estaca?

Durante toda a história cristã, a cruz, que em grego se chama “stauros“, é tida como o instrumento de execução de nosso Senhor Jesus Cristo. Instrumento através do qual, Ele consumou Seu plano. Mesmo assim, muitos evitaram representá-la, pois temiam acabar idolatrando a representação, se esquecendo de prestar a devida adoração a Deus.

Esta preocupação mostra o zelo destas pessoas, e é certamente louvável da parte deles. No entanto, muitas vezes o zelo conduz a excessos. Principalmente quando o zelo provoca um asceticismo exagerado. Um exemplo bem conhecido disto, nas próprias Escrituras, são os fariseus. Não somente o Senhor disputou com eles por causa de seu zelo excessivo, mas também os apóstolos. Quem não se lembra da discussão sobre o lavar das mãos? Em Marcos 7:2, vemos claramente que a preocupação dos fariseus era quanto à impur7eza, demonstrando assim suas inclinações ascéticas. Comentando este versículo, John Gill traz uma citação do Zoharim, que diz:

“Aquele que despreza o lavar das mãos, será erradicado do mundo, pois nele está o segredo do decálogo”. – Zoharin Numb fol. 100. 3.

Assim coloca-se o lavar das mãos como uma questão de salvação, o que explica o fato daqueles fariseus repreenderem os discípulos de Cristo. Nosso Senhor então responde que é por tradições humanas como aquelas, que as leis de Deus são deixadas de lado. Respondendo mais ainda, Cristo nos diz:

E, chamando outra vez a multidão, disse-lhes: Ouvi-me vós, todos, e compreendei. Nada há, fora do homem, que, entrando nele, o possa contaminar; mas o que sai dele isso é que contamina o homem. Se alguém tem ouvidos para ouvir, ouça.- Marcos 7:14-16

O que mostra que quem faz o homem impuro é o próprio homem, e não o que ele come ou toca. Tiago, mais tarde, concordaria com esta origem do pecado em sua epístola (Tg 1:14). Se o pecado se origina no próprio homem, então praticar asceticismo não o livra de ser impuro. Mesmo assim, os apóstolos tiveram que enfrentar este asceticismo ainda várias vezes, como deixa claro esta passagem escrita por Paulo:

Ninguém vos domine a seu bel-prazer com pretexto de humildade e culto dos anjos, envolvendo-se em coisas que não viu; estando debalde inchado na sua carnal compreensão, e não ligado à cabeça, da qual todo o corpo, provido e organizado pelas juntas e ligaduras, vai crescendo em aumento de Deus. Se, pois, estais mortos com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, por que vos carregam ainda de ordenanças, como se vivêsseis no mundo, tais como: Não toques, não proves, não manuseies? As quais coisas todas perecem pelo uso, segundo os preceitos e doutrinas dos homens; as quais têm, na verdade, alguma aparência de sabedoria, em devoção voluntária, humildade, e em disciplina do corpo, mas não são de valor algum senão para a satisfação da carne. – Carta aos Colossensses 2:18-23

Este zelo ascético não se limita àquela época. Hoje também enfrentamos situações similares. E no que diz respeito à cruz, não só evitam representá-la, como faziam antigamente. Recentemente, o grupo conhecido por Testemunhas de Jeová chegou até a negar que a cruz tenha sido o instrumento de execução de nosso Senhor. Foi seu segundo líder, J. F. Rutherford, quem introduziu esta idéia. Até 1936, todas as suas publicações traduziam stauros por cruz, e o livro intitulado “Criação”, de 1927, possui em sua versão portuguesa uma figura de Cristo e dos ladrões sendo pregados em cruzes, na página 236. Foi em 1936, em seu livro Riquezas, que ele começa a mudar sua posição sobre o assunto. Nele foi escrito:

A morte de Jesus, o homem perfeito, fosse como fosse, satisfaria as exigências da lei, visto que a pena imposta sobre Adão foi a morte. Por que, pois, foi Jesus crucificado? Jesus foi crucificado ou afligido, porém não exatamente numa cruz lavrada, como está representado nas imagens que os homens fabricam; a crucificação de Jesus consistiu em ser o seu corpo cravado ou pregado no madeiro.

Na década de trinta, Rutherford começou a elaborar algumas das doutrinas que distinguiram os Testemunhas de Jeová de outros grupos cristãos. Foi nesta década que ele criou o nome “Testemunhas de Jeová”, por exemplo. Acredita-se que ele tenha feito isto para se distinguir principalmente de outros grupos de Estudantes da Bíblia, que eram mais fiéis a Charles Taze Russel. Este tinha como símbolo na capa de suas revistas o símbolo da cruz. Então a partir de 1936, ele passa a criticar o uso da cruz, bem como sua historicidade. Em 1937, no livro “Inimigos”, ele escreve:

Alguém entretanto objeta : `Que dizer-se da estátua que mostra a Jesus sendo crucificado na cruz? Não deveríamos ter aquela estátua em nosso lugar de devoção? Jesus não foi crucificado numa cruz. A lei de Deus determinou que o amaldiçoado traidor fosse pendurado num madeiro. Os sacerdotes católicos conhecem esta verdade, porque sua Bíblia assim estabelece. (Veja-se Gálatas 3:13, Versão Soares) Deuteronômio 21 : 22, 23) .

Já em 1968, no livro “A Verdade que conduz à vida eterna”, eles exortam aos leitores que abandonem o uso da cruz:

Não é normal prezar e adorar o instrumento usado para assassinar alguém que amamos. Quem pensaria em beijar o revólver usado para matar um ente querido ou em levá-lo pendurado do pescoço? Sendo assim, e provando-se que a cruz é um símbolo religioso pagão, os que têm usado tal objeto ou que têm um crucifixo no seu lar, se confrontam com uma decisão importante. Continuarão a usá-los? Continuarão até mesmo a guardá-los? O amor à verdade e o desejo de agradar a Deus em tudo ajudará a fazer a decisão correta. – Deuteronômio 7:26.

Atualmente, eles possuem um livro de perguntas e respostas, conhecido por “Raciocínios à Base das Escrituras”. Este livro traz um tópico sobre a cruz, onde se defende que a forma de stauros era uma estaca vertical. A cruz como conhecemos é uma herança pagã. Certo ponto do tópico, é feito a pergunta:

“Faz realmente diferença se a pessoa preza a cruz, conquanto não a adore?”. A resposta, além de frisar que as origens da cruz são pagãs, termina dizendo: “Como deve, então, Jeová considerar o uso da cruz, que, conforme vimos, era antigamente usada como símbolo na adoração fálica?”.

Acredito que com estas palavras, a acusação de paganismo está feita a todo o cristianismo, que sempre acreditou que a cruz é o instrumento de execução de Cristo. Como concluímos ao ler a citação do livro “A Verdade que conduz à vida eterna”, estes não agradam a Deus nem amam a verdade. E se estas pessoas desagradam a Deus desta forma, devem estar excluídas da Salvação. A velha citação do Zoharin toma outra forma.

Por isto, acredito ser importante fornecer uma resposta a esta acusação. Muitas pessoas não costumam dar importância a este assunto, pois a importância maior está no evento, não nos meios. No entanto, penso que assim como se combateu o asceticismo desnecessário no passado, que faz objetos erroneamente originar o pecado, devemos fazer o mesmo hoje.

A questão aqui, não é se cristãos adoram ou não a cruz. Se eles adoram, estão mesmo errados. A questão é se o stauros usado na Bíblia é ou não uma cruz. E diante de tantas evidências, só podemos concluir que o stauros era realmente uma cruz, constituída de dois postes.

Por isso convidamos os leitores a conferirem se isso é verdade nos seguintes artigos:

1. Cruz ou estaca? – O que diz a história?

2. Cruz ou estaca? – O que diz a arqueologia?

3. Cruz ou estaca? – O que diz a lingüística?

4. Cruz ou estaca? – O que diz a Bíblia?

5. Cruz ou estaca? – O que dizem os Pais da Igreja?

6. Cruz ou estaca? – O que diz a Sociedade Torre da Vigia?

Todos os artigos dessa série provém do artigo de Gustavo Souteras Barbosa, publicado no e-cristianismo sob o título: Com quantos paus se faz uma stauros? – O artigo foi gentilmente cedido pelo autor para ser publicado neste blog. Algumas alterações de forma foram feitas ao original, mas o conteúdo mantém-se o mesmo.

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