O que dizer da versão copta de Jo.1.1?

A significância disso [o exemplar copta] é fenomenal. Em primeiro lugar, por que as versões copta precedem a Tradução do Novo Mundo em quase 1700 anos e é parte do corpo das antigas testemunhas textuais do evangelho de João. Em segundo lugar, as versões copta foram produzida enquanto o grego koinê das escrituras gregas cristãs ainda era uma linguagem viva cujas pequenas nuances  poderiam ser compreendidas pelos tradutores coptas, de modo que muitas palavras gregas foram deixadas sem tradução no texto copta. Em terceiro lugar, as versões copta não demonstram a influência  de interpretações posteriores da Cristologia criada pelos concílios da igreja do quarto e quinto século da Era Comum” (LANDERS, Solomon, The coptic evidence. Material não publicado, 2006, p.1).

 

Landers tem razão quando diz que a versão copta precede a TNM em muito tempo e que é uma ótima testemunha textual de João. Ele também está correto que afirmar que essa versão é contemporânea do grego koine utilizado no texto do novo testamento. E possivelmente também está certo em supor que a tradução está isenta de interpretações cristológicas (ortodoxa) do quarto e quinto século. Entretanto, isso não significa que seja uma tradução isenta de qualquer influência teológica.

O que se pode dizer com certeza é que a versão copta saídica tem grande valor para a crítica textual e deve ser considerada com critério. Por isso, vamos observar com cautela as evidências que dispomos sobre essa tradução.

1. O que dizer do idioma copta?

O idioma copta é normalmente reconhecido por quarto dialetos: Boárico, Fauímico, Saídico e Ajmínico. É bem verdade que essa definição é bem genérica, e alguns especialistas consideram cerca de meia dúzia de dialetos, acresecendo à essa lista os dialetos Menfítico, Subajmínico (METZGER, Bruce, The Text of the New Testament. Oxford, 1992. pp.79). É bem provável, entretanto, que os dois últimos sejam considerados como dialetos resultantes dos anteriores, onde o Menfítico é fruto de um avanço lingüístico do dialeto Boárico e o Subajmínico do Ajmínico. Deve ser por isso que Tisdall considera um equívoco denominar o dialeto Boárico de Menfítico (TIDALL, Clair, Intenacional Standard Bible Enciclopédia). De qualquer forma, entre todos esses os mais importantes em nossa consideração aqui são o Boárico e o Saídico, em função de que são os dois dialetos que deixaram significativas marcas na história manuscrita do Novo Testamento.

O dialeto Boárico, que é típico da região Sul do Egito, foi o dialeto utilizado em serviços eclesiásticos na igreja copta. É reconhecido entre os lingüistas que esse idioma tem traços de influência do grego koinê. Esse idioma foi encontrado no Norte do Egito, particularmente na província de Bohairah, ao sudesde de Alexandria e nos monastérios do Deserto de Nitria.

O dialeto Saídico, que eventualmente é chamado de Tebaítico, é típico da região Norte do Egito, inclusive na região do Cairo. É o idioma que mais tem representações manuscritas das escrituras e as mais antigas.

Um detalhe importante, é que a versão copta saídica foi a primeira versão do Novo Testamento a usar artigos indefinidos, o que não aconteceu com as versões latinas ou sírias, como o site Mentes Bereanas afirma. J. Warren Wells, que é o responsável pelo projeto sahidica.org e autor de diversos artigos sobre a versão copta saídica, em seu artigo Cristology in the Coptic Versions of Jonh, sobre o uso do artigo indefinido, diz: “Isso é interessante por que, nas versões coptas, Jo.1.1b é comumente traduzido como ‘e o verbo estava com Deus e o verbo era um deus’ usando o artigo indefinido, mas com algumas variações de ordem”.

É por essa razão que alguns defensores da leitura da TNM têm usado esse exemplar como defesa da inserção do artigo indefinido em referência ao Verbo com um deus, uma vez que a primeira versão do texto grego que foi traduzido para um idioma que usava artigos indefinidos, ele foi inserido. Soma-se se a isso, o fato de que tal idioma era similar ao grego koinê e a tradução foi performada quando o grego koinê ainda era falado.

Tendo considerado isso, vamos conhecer um pouco mais sobre as antigas versões do antigo testamento para vermos se de fato essa conclusão é plausível.

2. O que dizer das antigas versões do Novo Testamento?

Toda evidência textual histórica encontrada é analisada e classificada em antiguidade, qualidade e tipo-texto. A antiguidade de um documento é analisada por diferentes métodos de datação associados ao estudo paleográfico do documento. A qualidade é avaliada por vários quesitos, incluindo o tamanho do documento encontrado, a quantidade de fragmentação, sua relação com os textos-família de outras regiões. Além disso, também considera-se, ao encontrar-se códices, que livros fazem parte do documento encontrado, pois a partir disso podemos levantar possibilidades sobre que tipo de evidência é essa encontrada. O tipo-texto é a característica geral de leitura do texto de acordo com a região em que normalmente é encontrada. Fruto de muitos debates e contraversões, o método genealógico consiste, nas palavras de Westcott e Hort:

O acurado método de Genealogia consiste … na recuperação mais ou menos completa dos textos de ancestrais sucessivos, pela análise e comparação dos textos variantes dos seus descendentes respectivos, cada texto ancestral assim recuperado sendo por sua vez usado, em conjunção com outros textos similares, para a recuperação do texto de um ancestral comum e ainda mais antigo” (WESTCOTT, Brooke Foss, HORT, Fenton Jonh Anthony, The New Testament in the original greek. Macmillian, 1881. pp.73).

Por último, as evidências textuais também sofrem uma análise de caráter teológico, pois, diferente do que Landers parece supor, todas as versões representam algum distintivo teológico. Até por que, supõe-se com razão que as versões em outros idiomas foram feitas para suprir a lacuna de informação apostólica para uma região onde o idioma original não poderia ser lido com facilidade. Possivelmente, missionários realizavam preocupados com o desenvolvimento e propagação da fé.

Além disso, devemos lembrar que existem limitações nos benefícios de uma versão antiga do Novo Testamento. Observe o que Bruce Metzger afirma sobre o assunto:

É necessário ser observado que existem certas limitações no uso de versões para o criticismo textual do Novo Testamento. Não apenas algumas traduções foram preparadas por pessoas que tinham um imperfeito conhecimento do Grego, como alguns aspectos sintáticos da sintaxe e vocabulário não podem ser convertidos em uma tradução. Por exemplo, o Latim não tem artigo definido; o Siríaco não distingue entre o aoristo e o perfeito grego; e o Copta é faltoso com a voz passiva e deve usar o circumlocution” (METZGER, Bruce, The Text of the New Testament. Oxford, 1992. pp.68).

Tendo considerado isso, vamos analisar a versão copta saídica do ponto de vista da antiguidade em comparação com outras versões para então procedermos para a tradução de João 1.1c do documento. Para os interessados em analisar o documento do ponto de vista qualitativo e tipo-textual, consultar: METZGER, Bruce, The text o f the new testament. Oxford, 1992. pp. 67-85; ALAND, Barbara , Kurt, The text of the new testament. Eerdermnas, 1995. pp.185-214; LIGHTFOOT, Neil R, Comprendamos como se formo la Bíblia. Mundo Hispano, 2003. pp.74-84; PAROSCHI, Wilson, Crítica textual do novo testamento. Vida Nova, 2008. pp. 58-66. Para uma visão mais detalhada ver: METZGER, Bruce, The early versions of the new testament.  Oxford, 1977.

A. As versões Coptas

A tradição copta hoje tem versões completas do Novo Testamento, incluindo versões críticas. Na internet, por exemplo, você pode ter acesso ao Novo Testamento Egípcio no dialeto Saídico (seguindo o texto grego egípcio) disponível para consulta em todos os livros e inclusive acesso a um dicionário para auxílio em pesquisas.

Mas, nem sempre foi assim. O processo de produção de manuscritos do Novo Testamento em copta parece ter iniciado por volta do fim terceiro início do quarto século da Era Cristã (ALAND, TTNT, pp.200). Entretanto, Metzger afirma que essa produção no dialeto saídico iniciou por volta do início do terceiro século de tal forma que, com o passar do tempo todos os livros do Novo Testamento foram traduzidos para esse dialeto (METZGER, TTNT, pp.68). Paroschi afirma que cerca de um século depois as produções no dialeto Boárico também iniciaram no Baixo Egito (PAROSCHI, CTNT. pp.66).

Ou seja, os dialetos boárico e saídico representam manuscritos neotestamentários bem antigos. Isso indica que, do ponto de vista da crítica textual, são documentos de grande valor e úteis para se compreender como a tradição manuscrita do NT se comportou na história. Já do ponto de vista da bibliologia é fantástico, pois supõe-se que um corpo neotestamentário estivesse pronto bem cedo já nas regiões do norte do Egito.

A versão copta saídica, em particular, é provavelmente a versão mais antiga e tem grande valor para a crítica textual. A datação no terceiro século é validada pela existência de uma cópia de 1 Pedro datada do fim desse século. Um dos detalhes interessantes sobre essa versão é que, ao contrário da versão bohárica, ela não apresenta tantas evidências de uma revisão progressiva. É verdade que os documento não são sempre concordantes (como acontece com outras versões), mas há maior credibilidade nessa versão pelo fato de não ter grandes evidências de correção durante a história da manutenção desse texto.

No que se refere a tipo texto, é normalmente declarado que nos evangelhos a versão saídica é Alexandrina, com algumas evidências de leituras ocidentais especialmente no evangelho de João, o que não é incomum em manuscritos dessa natureza. Em Atos é majoritariamente Alexandrino, com poucas evidências de influência Ocidental, como também parece acontecer nas epístolas católicas. Apenas nas cartas paulinas é que uma situação deferente é encontrada, pois apesar de aparentemente ser Alexandrino, tem um tom Ocidental. É normalmente associado com o Códice Vaticano e com o Papiro 75.

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Para mais informações sobre as versões coptas, ver: HORNER, George Willian, The Coptic Version of the New Testament in Southern dialect, otherwise called Sahidic and Thebaic. Vol.3. Oxford, 1911. MEZGER, Bruce, The early versions of the New Testament, Oxford, 1977, pp. 99-151.

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Entretanto, não podemos deixar de evidenciar que as versões coptas não são as únicas testemunhas textuais do cristianismo primitivo. Embora sejam excelentes fonte para o estudo crítico do Novo Testamento, temos que levar em consideração também as versões Sírias e Latinas, pois também são conhecidas em sua antiguidade e podem elucidar o cenário de produção textual em outros idiomas ao redor do mundo antigo.

B. Versões Sírias:

As versões coptas mais antigas são precedidas pelas versões Sírias, que alguns teólogos ousam datar entre 160-180 d.C (cf. T. Nicol, Internacional Standard Bible Enciclopedia). Tal alusão não vem desprovida de evidência: Na obra mais importante de Eusébio de Cesaréia, História Eclesiástica, ele cita um fato referente a Hegésipo que “declara alguns particulares do evangelho dos hebreus e do siríaco e, em especial, da língua hebraica” (CESARÉIA, Eusébio, História Eclesiástica. CPAD, 1999. Vol IV, xxii. Pp. XX). Se essa citação reflete a existência de um corpo de evangelho em Siríaco, temos a evidência que aponta para a mais antiga versão síria de que se tem conhecimento.

O que de fato é certo, entretanto, é que essa alusão é frágil demais para se ter uma conclusão definitiva. Contudo, essa não é a única evidência que suporta uma data ainda bem antiga para as versões sírias: Existem ainda dois textos siríacos que marcam sua antiguidade por não serem representantes da tradição síria posterior as edições latinas de Jerônimo:

(1)      Síria Curetoniana: Esse exemplar siríaco consiste em fragmentos dos evangelhos encontrados em 1842 na região do Deserto de Nitria no Egito. Embora o material do documento seja datado no quarto século, muitos acadêmicos estão certos que a leitura do texto (vorlagën[1]) seja do segundo século (cf. METZGER, Bruce, TTNE. Pp.69)

(2)      Síria Sinaítica: Esse é o exemplar mais interessante de todos, pois além conter os evangelhos quase que completamente, foi analisado cuidadosamente e datado no segundo século. Ou seja, esse exemplar representa a mais antiga versão síria encontrada. Entretanto, do ponto de vista da leitura do texto, pode-se dizer que trata-se de um exemplar resultado de uma recensão.

Quando colocamos as versões sírias[2] em comparação com as versões coptas podemos com certeza afirmar a tradição manuscrita avança rápido pelo mundo antigo e conforme o alcance da fé cristã propagava-se as versões a acompanhavam.

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Para mais informações sobre as versões Sírias, ver: LEWIS, Agnes Smith, A translation of the four gospels from de siriac of the sinaitic palimpsest. Macmillan, 1894; MEZGER, Bruce, The early versions of the New Testament, Oxford, 1977, pp. 3-97.

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Isso nos ajuda a compreender que a antiguidade por si só não é sinal de evidência final para determinada leitura de um texto, quanto menos de uma tradução. O objetivo de levantar versões antigas em outros idiomas é que nos auxilia a perceber um mundo um pouco maior no que refere-se a tradição manuscrita, o que Landers não mencionou em seu artigo, e  os escritores do site Mentes Bereanas fizeram com desprezo.

C. Versões Latinas:

As questões relacionadas a quando e onde as traduções latinas iniciaram a ser feitas é sempre bem debatido, entretanto, parece consenso que já no segundo quarto do segundo século na região de Cartago as primeiras traduções em latim[3] já estivessem prontas (PAROSCHI, CTNT. pp.62).

A essas versões anteriores a Vulgata de Jerônimo (383-405), os críticos têm atribuído o nome de Antiga Latina. Um dado interessante sobre as versões da Antiga Latina é os manuscritos que sobreviveram ao tempo, apesar de estarem fragmentados, são encontrados em duas tradições principais, a Africana e a Européia. Os fragmentos sobreviventes são datados desde o quarto século até o décimo terceiro século, o que evidencia que ela ainda era copiada mesmo quando havia deixado de ser usada de modo geral (METZGER, TTNT. pp.72).

Quatro documentos latinos merecem nossa atenção quando falamos sobre datação:

(1)      O Códice Palatino: Esse exemplar é interessantíssimo, pois é escrito em letras prateadas em um pergaminho púrpuro, o que demonstra o valor atribuído ao documento em sua fabricação, considerando que tal empreendimento deveria ser caríssimo. Ele é normalmente datado no quinto século e representa a tradição africana, muito embora se suponha que posterior ele tenha sido alterado para ser compatível com a tradição européia. Entretanto, o mais facinante sobre esse texto, é que ele é similar ao que Agostinho faz uso antes de 400 d.C.

(2)      O Códice Veronese: Esse é um daqueles documento que nos brindam com um excelente visual. Escrito em um papiro púrpura onde as letras são ora prateadas, ora dourada. Esse códice contém os quatro evangelhos, e segundo especialistas (cf. Francis Burkkit; IN: PAROSCHI, CTNT. Pp.63) representa o tipo texto usado por Jerônimo na produção da Vulgata. Ele é normalmente datado no quinto século.

(3)      O Códice Vercelence: Representante da tradição Européia, e mantido na sala de tesouro em Vercelli no norte da Itália, é normalmente atribuído a Eusébio, bispo de Vercelli. Segundo a tradição, ele mesmo teria copiado a mão esse documento e por isso é datado antes de 370 d.C., quando Eusébio foi morto. E, provavelmente o mais antigo manuscrito latino da tradição européia.

(4)      O Códice Bobiense: é normalmente considerado a testemunha sobrevivente mais importante da tradição da Antiga Latina. O documento é bem fragmentado e contém apenas alguns trechos de Mateus e Marcos. Entretanto, a forma do texto encontrado nesse documento é muito aproximada da citações latinas feitas por Cipriano (250 d.C.). Falando sobre a vorlagen do documento, E.A. Lowe apresenta marcas paleortográficas de que o texto representa uma leitura do segundo século (IN: METZGER, TTNT. pp.73).

A existência de manuscritos da tradição da Antiga Latina não se resume a esses, mas são esses os considerados relevantes para nossa abordagem aqui. Sobre a existência de manuscritos antigos representantes da tradição da Antiga Latina, no The Greek New Testament, editado por Neste-Aland apresenta mais de cinqüenta manuscritos, mas temos certeza de que isso representa apenas uma pequena porção do número original. Tanto Metzger, Aland e Paroschi citam Jerônimo como evidencia desse fato, pois, segundo Jerônimo existiam tantas versões quanto eram os códices. Razão que o levou a fazer sua edição do texto latino conhecido como Vulgata.

 

3. O que dizer da tradução copta feita Jo.1.1?

O que demonstramos até agora é que o idioma copta saídico tem a peculiaridade de ter tanto o artigo defino quanto o indefinido, como o Português. Além disso, sabemos que foi provavelmente o primeiro idioma a traduzir o grego koinê a ter essa peculiaridade. Também sabemos que o texto de Jo.1.1 traz tanto o artigo definido como o indefinido em referência a Deus. Mas, o que isso significa? Será que a tradução de Landers está correta? Vamos olhar  com mais atenção ao texto:

Legenda: WHO – Westcott; TGE – Texto Grego Egípcio; VCS – Versão Copta Saídica

 

Se tem alguém que merece ser considerado na busca pela tradução de Jo.1.1 é  George Willian Horner, por ter-se dedicado a traduzir e realizar crítica no Novo Testamento Copta. Em sua tradução de Jo.1.1c, Horner trouxe a seguite leitura: “e o Verbo era [um] Deus” e em nota à tradução acrescentou: “Os colchetes implicam em palavras usadas pelo copta mas não requeridas pelo inglês” (HORNER, pp.376).

Isso é um pouco diferente do que Landers parece supor em sua análise da leitura copta saídica de Jo.1.1c. É bem verdade que ele afirma que isso não é uma questão de gramática, mas de teologia: “Os gramáticos do idioma copta estão em acordo quanto ao que a leitura copta diz literalmente. Mas, os pressupostos teológicos de alguns gramáticos não os permite ficar satisfeitos com essa leitura” (LANDERS, Solomon, The coptic evidence. Material não publicado, 2006, p.1). Mas, será que isso é verdadeiro?

A resposta para essa questão repousa sobre o uso do artigo no idioma copta. Layton Bentley em sua obra A coptic Grammar with chrestomathu and glossary – Sahidic Dialect, afirma que o uso do artigo indefinido no dialeto saídico pode ser usado em referência a classe ou a qualidade (p.43). Observe suas colocações:

O artigo indefinido é parte do padrão sintático copta. Esse padrão pode ser tanto qualitativo [divino] ou de entidade [um Deus]; o leitor decide que leitura atribuir a isso. O padrão copta não atribui equivalência com o nome próprio Deus; em copta, Deus é sempre, sem exceção, suprido com o artigo definido. A ocorrência de um substantivo anartro nesse padrão seria muito estranho” (Grifo pessoal)

O que Bentley sugere com isso é que, quando a declaração é em referência ao nome próprio de Deus a versão copta usa sempre o artigo definido e jamais deixaria sem artigo, como o grego, o latim e o siríaco poderiam fazer. Willians, sobre isso diz: “Nós podemos observar como o copta evita substantivos sem artigos. Em conseqüência disso ou eles adicionam um artigo definido ‘O Deus é o Amor’ (1Jo.4.8) ou o indefinido em Jo.1.1”. Ou seja, para que o substantivo grego anartro Θεὸς pudesse ser traduzido, era necessário usar um artigo (cf. Jo.1.33 e3.6 na tradução de Horner representam usos qualitativos).

Portanto, o uso do artigo indefinido em referência a Deus não é necessariamente uma demonstração de que os tradutores da versão copta saídica tinham em mente [um] deus, pois poderia ter sido entendido qualitativamente, o que alguns teólogos chegam a admitir com uma leitura possível para o texto grego de Jo.1.1 (WALLACE, Daniel, Greek Grammar Beyond the Basics. Zondervan, 1996. pp. 269).

Ou seja, o tradutor copta não estava equivalendo o Verbo com Deus (e o Verbo é O Deus), mas pode estar pensando qualitativamente (o Verbo é divino). O que é fato, segundo Bentley sugere é que a decisão repousa sobre o leitor. Mas, será que existem evidências para que se descarte a leitura e o Verbo era um deus na versão copta saídica?

Tenho a impressão que sim, pois o texto grego tem mais um uso anartro do substantivo Θεὸς em referência a Cristo. Em Jo.1.18 lemos: “Θεὸν οὐδεὶς ἑώρακε πώποτε μονογενὴς Θεὸς ὁ ὢν εἰς τὸν κόλπον τοῦ πατρός, ἐκεῖνος ἐξηγήσατο” (Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou – ARA).

O primeiro uso de Θεὸς é uma clara referência à Pessoa do Deus Pai e é anartro em grego. Entretanto, acompanha o artigo definido em copta: “pnoute”. A expressão “μονογενὴς Θεὸς” é uma clara declaração em referência a Cristo. No texto grego essa expressão também não traz artigo, nem para “μονογενὴς” nem para “Θεὸς”, mas a versão copta saídica traz o artigo definido aqui: “pnoute pShre”. Diante disso temos que nos perguntar: Como um mesmo tradutor diria que o Verbo é um deus em Jo.1.1c e o chamaria de O Deus em Jo.1.18[4]?

Provavelmente por que Jo.1.1c foi entendido no sentido qualitativo e não literal como Landers supõe. É interessante que essa opinião é bem reconhecida entre os gramáticos do dialeto saídico. Ariel Shisha-Halevy sobre o assunto diz: “Em copta ounoute pode significar um deus ou aquele que tem natureza divina. Na passagem em referência [Jo.1.1c] a melhor interpretação é qualitativa”.

Mesmo J.Warren Wells parece não concordar com a opinião de Landers. Embora já tenha citado que Wells entende que literalmente a tradução de Jo.1.1c é “e o verbo era um deus”, ele entende que essa não é a melhor opção de tradução para o texto, exatamente pelo mesmo motivo que já apresentamos: o artigo definido em Jo.1.18. Sobre isso ele diz: “Para mim o sentido da passagem de Jo.1 é uma descrição do Logos em relação a Deus. À grosso modo, uma leitura poderia ser: O Logos estava no princípio. O Logos estava com Deus, O Logos é como Deus (divino); com ênfase em sua natureza, não em sua pessoa”.

Ou seja, quando Landers diz que a tradução literal de Jo.1.1c é “e o verbo era um deus” ele não está dizendo toda a verdade, e ao suprimir essas informações ele condiciona a conclusão dos seus leitores.


[1] Uma das distinções interessantes que devem ser feitas pelos críticos textuais é que a idade do documento não representa necessariamente a idade do texto do documento. Um manuscrito latino do oitavo século pode conter um texto do segundo século. É por essa razão que supõe-se que os exemplares coptas são anteriores à data do documento que representam. O termo técnico para representar essa idéia é a palavra germânica vorlagën, que não se encontrou como traduzir adequadamente, nem para o inglês ou português e normalmente é citada em alemão mesmo.

[2] Também é importante que se diga que, embora a versão síria sinaítica seja corrompida nos primeiros 24 versos do evangelho de João (LEWIS, Agnes Smith, A translation of the four gospels from de siriac of the sinaitic palimpsest. Macmillan, 1894), entretanto a tradição síria que contém o primeiro verso parece ser fiel a tradição manuscrita grega.

[3] Ao tratar do assunto, o casal Aland nos lembra que o próprio Agostinho teria dito que qualquer um que obtivesse um manuscrito grego iria traduzi-lo para o latim, não importando o quanto ele conhecia de ambos os idiomas (Aland, TTNT. pp.187). Isso nos ajuda a considerar que o processo de tradução nem sempre era acompanhado de um processo de competência, mas de necessidade.

[4] Landers afirma que a pergunta citada é lógica, mas faz parte da lógica invertida. Para ele, uma vez que a opção um deus é a correta ele entende que o artigo definido de Jo.1.18 é uma referência àquele que é um deus. Entretanto, sua opinião não faz o menor sentido, pois não corresponde ao que a versão copta está a afirmar em Jo.1.18. A verdade é que o artigo indefinido pode ser entendido qualitativamente, enquanto o artigo definido tem sido entendido apenas como tal. Ou seja, para que Landers esteja certo é necessário realizar um adendo à gramática copta, sugerindo que o artigo definido pode ser lido como indefinido. O que não faz o menor sentido, pois em um idioma onde ambos os artigos são disponíveis, se o tradutor quisesse usar um artigo indefinido em Jo.1.18 ele o teria usado.

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