Os cristãos primitivos chamavam Jesus de “um deus”? – Hilário e Irineu

A posição proeminente da Palavra como Primogênito entre as criaturas de Deus, como aquele por meio de quem Deus criou todas as coisas e como Porta-voz de Deus,oferece uma base real para ele ser classificado como “um deus” ou poderoso – Estudo Perspicaz, Vol.2, pp. 536

É bem verdade que para alguns Jesus deve ser chamado de “um deus”, e que tal ensino reflete o ensino dos cristãos primitivos. Os Testemunhas de Jeová, que se consideram a única religião verdadeira, aquela que proteje o ensino dos apóstolos por meio de um grupo de anciãos separados nos fins dos tempos para salvagardar as escrituras, acreditam que Jesus deva ser chamado de “um deus”.

Essa visão é bem conhecida em sua tradução de João. 1.1: “No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com o Deus, e a Palavra era [um] deus“. Como portadores do ensino verdadeiro das escrituras, os Testemunhas de Jeová consideram que ao traduzir desse modo esse texto estão refletindo o ensino dos cristãos primitivos. Mas, será isso verdade?

Será que existem evidências entre os textos dos cristãos primitivos, especialmente aqueles que viveram antes do Concílio de Nicéia, de que Jesus era considerado como um deus? Será que os cristãos primitivos chamavam a Jesus de um deus? Nesse post, veremos dois deles: Hilário e Irineu.

A. Hilário de Poitters

Hilário nasceu no fim do terceiro século em uma família pagã e foi educado em filosofia e retórica. Três anos após sua conversão foi eleito bispo da cidade de Poitiers pelo povo da cidade, mesmo sendo casado. Hilário foi chamado de Doutor da Igreja em função de sua luta contra o Arianismo, e por isso foi também chamado de “malleus arianoru” (martelo contra os arianos) e de Atanásio do Oeste.

Dos Pais da Igreja anteriores ao quarto século, Hilário é sem sombra de dúvidas o que mais citou ou aludiu o texto de Jo.1.1: Ele o faz ao menos onze vezes. Suas citações acontecem em duas de suas obras: Sobre os Concílios na qual apresenta um aparato histórico da confissão da Igreja Ocidental com suas opiniões pessoais e Sobre a Trindade que defende a fé trinitária dos ataques arianos.

Sobre os Concílios

No décimo capítulo da obra “Sobre os Concílios”, Hilário cita uma definição cristológica da Igreja:

“E se alguém admite que Deus tornou-se Pai do Filho Unigênito em algum ponto do tempo e não que o Filho Unigênito veio à existência antes de todas as eras e além de toda capacidade de calculo humano; por contrapor-se ao ensino do Evangelho que exclui qualquer intervalo de tempo entre o ser do Pai e do Filho e fielmente nos instrui que ‘No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus’ seja considerado anátema

A citação desse conceito cristológico nos diz muito sobre a posição teológica da região da Gália no fim do terceiro século e início do quarto. É bem verdade que o progresso da compreensão da Trindade desde os apóstolos cresceu vertiginosamente após Tertuliano no fim do segundo início do terceiro, mas o conceito Cristológico encontrado aqui é deveras rico.

Essa declaração é forte e clara e diz respeito aos que tentam inserir o Filho no Tempo, ou àqueles que ainda que não saibam como ou quando tentam afirmar que o Filho faria parte da criação de Deus. Segundo essa afirmação conciliar, tal afirmação contradiz o Evangelho e deve ser considerada anátema.

Ou seja, Jo.1.1 é utilizado para demonstrar que a frase “No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus” é evidência de que não existe tempo em que o Verbo não existia, que jamais existiu intervalo de tempo entre o Pai e o Filho. Logo, afirmar que o Verbo teria sido criado era uma perversão da verdade, anátema, maldição.

Em seu comentário à essa leitura conciliar, falando sobre o Filho Hilário diz:

“Ele não delimitado pelo tempo, por que o eterno e infinito Deus não pode ser entendido como se torna-se Pai no tempo, e de acordo com o ensino do evangelho o Deus Unigênito, o Verbo é reconhecido ainda no princípio com Deus antes de ser nascido”(v.24)

Pouco à frente, Hilário demonstra que sua compreensão do Verbo como Deus é inegociável, pois é sustentada pelas escrituras:

“Ele [Senhor Jesus Cristo], Seu Filho Unigênito, Deus acima de todas as cosias, gerado do Pai, Deus de Deus, todo Deus do todo Deus, único do único, perfeito Deus do perfeito Deus, Rei do Rei, Senhor do Senhor, o Verbo, a Sabedoria, a Vida, a Verdadeira Luz, o Verdadeiro Caminho, a Ressurreição, o Pastor, a Porta, incapaz de mudar ou alterar, a não variável imagem da essência, poder e glória do Deus Pai, o Primogênito de toda a Criação, que estava no princípio com Deus, o Verbo de Deus, de acordo com o que é dito no evangelho ‘e o Verbo era Deus’ por meio de quem todas as coisas vieram a existir, em quem todas as coisas subsistem”(cap.XII,12; cf. XXVII, 70)

Hipólito nessa sentença demonstra suas credenciais ortodoxas de tal modo que não ousa apresentar Jesus Cristo como à parte de Deus, verdade anuncia desde os apóstolos. E, de modo bem interessante ele fundamenta sua opinião em Jo.1.1, que os arianos modernos insistem em afirmar uma leitura contrária à aquela estabelecida pelo autor. Hipólito está em acordo como os outros Pais de tradição latina de que o ensino apostólico é assim anunciado e deveria ser assim compreendido.

Sobre a Trindade

Uma das características interessantes de Hilário era seu apreço pelas Escrituras, no início de sua Obra intitulada “Sobre a Trindade” ele diz: “Eu mantenho uma firme convicção e devota lealdade à verdade concernente a Deus” (Livro 1, 10). A sua preocupação, como a dos ortodoxos, era defender o que as escrituras ensinavam, especialmente no que fosse referente a Deus. Por essa razão, Hilário demonstrava seu apreço ao Velho e Novo Testamento, como sendo a expressão verbal de Deus. E sobre isso e em referência à Pessoa de Cristo, Hilário diz pouco à frente: “Em adição ao conhecimento e dos ensinos da Lei e dos Profetas, aprende-se as verdades ensinadas pelo Apóstolo no evangelho: ‘No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. Ele mesmo estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por meio Dele e sem Ele nada foi feito”.

Não diferente de outros Pais da Igreja, Hilário também comenta sobre a questão da criação. No quarto livro dessa obra, Hilário descreve a criação e demonstra que Cristo é o instrumento de Deus para a Criação:

Por que todas as coisas, diz o Profeta, vieram a existência do nada; não foi uma transformação de coisas existentes, mas a criação em uma perfeita forma a partir do não-existente. Por meio de quem? Ouça o Evangelista: todas as coisas foram feitas por meio Dele. Se você pergunta QUEM é esse, o mesmo evangelista poderá te dizer: ‘No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus e todas as coisas foram feitas por meio Dele” (Livro 4, 16)

Como exegeta, Hilário além de apresentar suas idéias, ele também se esmera por demonstrar a correta compreensão do texto que está a ler. Considerando isso, veja como responde a uma suposta leitura de Jo.1.1:

“Mesmo o seu ouvido sem prática falha em compreender a primeira clausula ‘No princípio era o Verbo’, por que sofrer com a próxima: ‘e o Verbo estava com Deus’? Foi isso que você ouviu ‘e o Verbo estava em Deus’ –uma afirmação de uma profunda filosofia? Ou será que o seu dialeto provincial não consegue distinguir entre ‘em’ e ‘com’? A leitura certa é que Aquele que estava no princípio estava com, não estava no, Outro. Mas, não vou discutir do início da sentença, pois a seqüência pode cuidar disso sozinha. Ouça agora o status e o nome do Verbo: ‘e o Verbo era Deus’. Sua acusação de que o Verbo é o som de uma voz, a profundidade de um raciocínio cai por terra. Pois o Verbo é Real, não um som, um Ser, não uma fala, Deus, não uma entidade sem importância” (Livro 2, 15)

Falando um pouco mais sobre a sentença “estava no princípio com Deus”, Hilário acresce:

“Ele continua: ‘Ele estava no princípio com Deus’. O fato de que Ele estava no princípio remove os limites do tempo e a palavra ‘Deus’ demonstra que ele é mais que uma voz. Que Ele estava com Deus prova que ele não ultrapassa nem é ultrapassado, pois sua identidade não é engolida pelo Outro, e Ele é claramente apresentado como presente com o Único não gerado Deus, como Deus, o único Unigênito de Deus”(Livro 2, 16)

Para Hilário o conceito auferido pelo verbo no passado na primeira sentença de Jo.1.1 também é sem definição temporal. Aliás, ele entende que o Filho é Filho desde sempre, e o raciocínio para isso é simples:

Uma vez que o Filho é o Verbo, e o verbo foi feito carne, era Deus e estava no princípio com Deus, então o Verbo era Filho desde antes da fundação do mundo” (Livro 3, 16)

Mas, a mais interessante citação de Hilário é encontrada no Livro 7, capítulo 11. Nessa sitação ele praticamente responde uma das afirmações arianas modernas sobre Cristo. Observe:

“Quando eu escuto as palavras ‘e o Verbo era Deus’ elas não meramente me contam que o Filho é chamado Deus; elas revelam ao meu entendimento que Ele é Deus. E naquelas ocasiões anteriores, quando Moisés é chamado deus e outros são caracterizados deuses, ali há uma mera adição de um nome como um título. Entretanto, aqui uma verdade essencial é afirmada: O Verbo era Deus. Isso indica que isso não era um título, mas uma eterna realidade, elemento permanente de Sua Existência que é inerente ao Seu caráter e natureza”

Não é necessário que se demonstre mais do pensamento de Hilário: Ele é um ortodoxo (cf. Livro 2, 23 e Livro 7, 9). Mas, o mais interessante é que já em sua época e lugar, existiam os que queriam destruir o sentido do texto de Jo.1.1. Muito embora, essas tentativas seguiam algumas leituras claramente equivocadas, como a confusão entre ‘em’ e ‘com’, nós também encontramos a idéia de que era possível que a sentença ‘e o Verbo era Deus’ trata-se mais de um título que uma verdade. O que se quer com isso é destronar o Senhor e Criador de todas as coisas da Sua posição exaltada, conforme João a apresenta.

Contudo, é significativo que até aqui, não vimos, nem nos hereges, a tentativa de nominá-lo um deus à parte do Deus Pai. Novamente, nota-se que, muito embora fosse pertinente às heresias combatidas por Hilário, os hereges a quem responde não teriam entendido o texto assim.

B. Irineu

Irineu é mais um daqueles Pais da Igreja cujas informações não apresentada em suas obras são, quando não escassas, conflitantes. Sobre seu nascimento não existe consenso: 115, 125, 130, 140 d.C. Diz-se que em sua juventude ouviu o Bispo Policarpo em Esmirna. Entretanto, sabe-se com certeza que durante a perseguição de Marcos Aurélio, Irineu era pastor da Igreja de Lion. Tornou-se Segundo Bispo da mesma cidade após o martírio de Pothinus. Durante o período de paz religiosa, focou seu trabalho entre as atividades pastorais, missionárias e apologéticas. O maior grupo de informações que temos a seu respeito, entretanto, são suas obras apologéticas, em geral direcionadas contra o gnosticismo. É famoso pela obra Contra Heresias. Irineu teria morrido por volta do ano 202 d.C., mas não se tem certeza sobre essa data.

Irineu faz duas citações de Jo.1.1, ambas na obra Contra Heresias. Em uma delas, ele tece alguns insights sobre a trindade:

“O Pai é sem dúvidas, sobre todos, e Ele é o Cabeça de Cristo; mas o Verbo é mediante todas as coisas, e Ele mesmo é o Cabeça da Igreja; enquanto o Espírito está em todos nós, e Ele é a água viva, que o Senhor garante àqueles que corretamente crêem Nele, e o amam, e sabem que há um Pai, que é sobre todos, por meio de todos e em todos” (Contra Heresias, Livro 1, cap.18, 2)

No entendimento de Irineu, na Trindade existe uma relação hierárquica do ponto de vista da funcionalidade de cada um. Fato comprovado pelas escrituras que o ensinam. Entretanto, para ele, a prova para a parte referente a Cristo como Deus é vista em Jo.1.1: “E sobre essas coisas, João o discípulo do Senhor, também testemunha quando nos fala no evangelho: ‘No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus’.”

Além de Irineu ter a clara visão da divindade de Cristo, me é interessante o fato de que em uma citação tão curta, tantos nomes lhe tenha sido atribuído. Note que Jesus é chamado de Cristo, Verbo, Cabeça e Senhor. Diante disso, é evidente que, na mente de Irineu Jesus Cristo é Deus. Talvez essa afirmação soe um pouco sem fundamento, para tanto, observe que ele diz no capítulo 8, verso 5 da mesma obra:

“E ele se expressa assim: No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus, e a Palavra era Deus; o mesmo estava no princípio com Deus (…) Tendo primeiro de tudo distinguido esses três – Deus, o princípio e a Palavra – ele novamente os une, de modo que ele apresenta a produção de cada um deles, isto é,  do Filho, a Palavra, e ao mesmo tempo demonstra sua união um com o outro com o Pai.. No princípio ele está no Pai, ao mesmo tempo que a Palavra está no princípio e além do princípio. Apropriadamente, então, ele diz: ‘No princípio era a Palavra’ por que Ele estava no Filho; “e a Palavra estava com Deus’ por que Ele estava no princípio; ‘e a palavra era Deus’ claro, por que aquele é gerado de Deus é Deus

Para Irineu, o defensor da ortodoxia cristã contra as investidas gnósticas, Jesus Cristo era Deus e Jo.1.1 era evidência desse fato. O fato de ler e escrever em grego e não encontrar a indefinição no substantivo anartro “Θεὸς” é mais uma evidência de que o texto não deveria ser lido assim. É verdade que alguém poderia dizer que ele era um herege e que lia o que intencionava ler nesse verso. Entretanto, para que isso fosse verdadeiro, teríamos de chamar todos os outros pais da igreja de tradição grega não apenas de hereges, mas analfabetos.

Ou seja, diante da opinião desses dois autores cristãos primitivos, Jesus não é, e nem deve ser considerado como um deus.


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