Por que os cristãos usam a cruz como representação de sua fé?

Como se sentiria se um amigo seu muito prezado fosse executado à base de acusações falsas? Faria uma réplica do instrumento de execução? Será que o prezaria, ou, antes, o evitaria? – Raciocínios, pp.102

Muitas pessoas se perguntam se a CRUZ deve ser de fato um símbolo cristão, afinal não parece adequado fazer uma réplica do instrumento de execução de um amigo e guardá-lo de lembrança. Outras pessoas diriam que também não é apropriado fazê-lo até por que a CRUZ nem é o instrumento no qual Cristo teria sido morto.

Os autores do livro Raciocínios, demonstram com algumas citações que a origem de tal instrumento de tortura é pagã e portanto deve ser evitada. Observe algumas das citações que fazem:

“É um fato estranho, contudo inquestionável, que nas eras muito anteriores ao nascimento de Cristo, e desde então, em terras intatas aos ensinos da Igreja, a Cruz tem sido usada como símbolo sagrado. . . . O Baco grego, o Tamuz tírio, o Bel caldeu e o Odin nórdico foram todos simbolizados pelos seus devotos por um instrumento cruciforme.” — The Cross in Ritual, Architecture, and Art (Londres, 1900), G. S. Tyack, p. 1.

“Encontraram-se diversos objetos, datando de períodos muito anteriores à era cristã, marcados com cruzes de feitios diferentes, em quase cada parte do mundo antigo. A Índia, a Síria, a Pérsia e o Egito produziram todos inúmeros exemplos . . . O uso da cruz como símbolo religioso em tempos pré-cristãos e entre povos não-cristãos pode provavelmente ser considerado como quase universal, e em muitíssimos casos ligava-se a alguma forma de culto da natureza.” — Encyclopædia Britannica (1946), Vol. 6, p. 753.

“Usavam-se essas cruzes como símbolos do deus-sol babilônico,  , e são vistas pela primeira vez numa moeda de Júlio César, 100-44 A.C., e daí numa moeda cunhada pelo herdeiro de César (Augusto), em 20 A.C. Nas moedas de Constantino, o símbolo mais freqüente é  ; mas, o mesmo símbolo é usado sem o círculo ao redor, e com os quatro braços iguais, verticais e horizontais; e este era o símbolo especialmente venerado como a ‘Roda Solar’. Deve-se declarar que Constantino era um adorador do deus-sol, e não quis entrar na ‘Igreja’ senão cerca de um quarto de século depois da lenda de ter visto tal cruz nos céus.” — The Companion Bible, Apêndice N.° 162

Como vemos nessas citações, os autores recorrem a fontes não cristãs para demonstrar que a CRUZ tem sua origem muito antes do período de Cristo e que tal instrumento também era usado como instrumento de adoração, com diferentes tipos de significados em diferentes culturas. Todavia, o que parece certo, a partir dessas citações, é que também não parece adequado usar a CRUZ como símbolo, ou representação do cristianismo, quanto menos adorá-lo.

Mas, devemos nos perguntar uma coisa aqui: Isso significa que Jesus não morreu numa cruz? Certamente não. O que essas citações nos dizem até aqui é que a cruz como instrumento de tortura e veneração já era conhecido muito antes da morte de Cristo, mas nada fala sobre o fato de ter sido ele, ou não, morto em uma cruz.

De acordo com o testemunho das escrituras, sabemos que qualquer tipo de adoração que não seja direcionada a Deus é um ato de idolatria e portanto, nem precisamos recorrer a fontes não cristãs para nos informar como as antigas religiões se portavam com relação à cruz. Essa é uma informação clara.

Contudo, ainda outra pergunta merece nossa atenção: Isso significa que não devemos ter a cruz como símbolo do cristianismo? A resposta a essa pergunta é agora menos evidente, mas acho que podemos discorrer sobre o assunto.

O primeiro detalhe que devemos nos lembrar é que os símbolos não tem um significado único, mas conforme o tempo e a época, carregam um significado particular. Um exemplo disto é a flor de Lótus, que é normalmente associadoa ao budismo, mas já foi usada  por chineses, egípcios e hindus antigos, e em cada um desses credo tem um significado diferente. Com isso, estamos dizendo que  apesar de sua variedade de significados, os símbolos sempre representam uma idéia central de determinado pensamento. E o cristianismo histórico não foi uma exceção a esse fato.

Nos primeiros momentos da história do cristianismo, os cristãos adotaram o peixe como símbolo do cristianismo. Atualmente, alguns adesivos colados em carros, casas ainda levam esse símbolo. Mas qual é a razão da escolha desse símbolo? Trata-se de um acróstico: “ICHTHUS”, que é a palavra grega para peixe foi assim demonstrada: “Iesus Christou Theou Uios Soter”, que significa Jesus Cristo Filho de Deus Salvador. A idéia é excelente, mas poucas pessoas poderiam compreende facilmente essa idéia, e provavelmente por isso, esse símbolo não foi usado por muito tempo.

Deve ser por isso que os símbolo mais conhecido do cristianismo e que o representa facilmente é a CRUZ. Contudo, “a escolha que os cristãos fizeram da cruz como símbolo de sua fé é tanto mais supreendente quando nos lembramos do horror com que era tida a crucificação no mundo antigo”, diz John Stott em seu livro A Cruz de Cristo (pp.17). A crucificação sempre foi vista com horror pelo mundo antigo. Os gregos e romanos adotaram a crucificação, como pena capital, dos bárbaros que eram caprichosamente cruéis em suas formas de execução. Para os romanos, a crucificação era aplicada somente a criminosos extremamente desumanos, para que pudessem sofrer muito antes de sua morte. Com a crucificação, era possível fazer com que o criminoso sofresse durante dias, e isso servia de ilustração para outros que tentassem trilhar mesmo caminho. Então,

Por que razão o cristianismo escolheu a cruz?

Como já foi dito anteriormente, o símbolo é a expressão gráfica do cerne de uma idéia. E dessa forma, não haveria para o cristianismo outro símbolo tão apropriado quanto a cruz. A cruz em si, como acontecimento comum no antigo mundo romano, era deveras cruel. Era um símbolo de repulsa, medo, sofrimento, e desprezo. Mas para o cristianismo é símbolo de vida e liberdade, pois representa a morte de Cristo. Com isso não negamos a crueldade com que foi executada, mas afirmamos o resultado obtido por essa morte.

A Cruz, como evento histórico necessário, marco o ponto mais alto da História da Redenção, e tem lugar especial na vida do cristão. Observe alguns aspectos referentes a morte de Jesus:

  • É na morte que a Obra Messiânica é encerrada (Jo.19.30)
  • É o cumprimento do Antigo Testamento (1Co.15.3)
  • A morte de Cristo é a garantia da pureza do cristão, bem como de suas obras (Tt.2.14)
  • É na morte que ocorre o derramamento de sangue necessário para o perdão dos pecados (Hb.9.15; cf. Mt.26.28; Ef.1.7; Cl.1.14
  • É por meio do sangue de Cristo que temos Eterna Redenção (Hb.9.12)
  • É através da morte de Cristo que temos acesso a redenção (Rm.3.24)
  • Em nome de Cristo deveria ser pregada a redenção de pecados a todas as nações (Lc.24.27)

De acordo com essas evidências, não podemos deixar de reconhecer a centralidade da Cruz na vida e na expectativa cristã. De fato, é impossível ser cristão sem render-se à Cruz de Cristo. Alias, cristianismo sem cruz (no sentido como demonstrado acima) é mera ideologia ética sem valor. Portanto, o verdadeiro cristianismo depende intrinsecamente da cruz, pos esta é o cerne de suas ideologia e fé. É por isso que o símbolo que deveria representar tal idéia deve ser compatível a tal colocação, segue-se que a Cruz é a representação gráfica ideal par o Cristianismo. Afinal, é a morte de Cristo o tema central da mensagem dos apóstolos no Novo Testamento e das boas novas do evangelho.

E o que significa essa cruz senão nossa liberdade?! Nossa redenção?! A remissão dos nossos pecados?! Comunhão com Deus?! É por meio dela que nós somos completamente libertos de nossa medíocre vida sem significado e passamos a participar da Vida Eterna que Deus nos concede por meio de jesus Cristo. Por essa razão o cristianismo escolheu a cruz.

Se Constantino o fez com más intenções, o sentido que intencionou colocar sobre tal símbolo já não é mais o mesmo, até por que são muitos os cristãos que hoje quem desconhecem suas intenções e os significados conhecidos na história pregressa. Por isso, quando um cristão tem a cruz como símbolo (representação gráfica de uma idéia), e não como veneração, deve tê-lo em reconhecimento da morte de Cristo e dos benefícios que recebemos dela. Ou seja, não temos a cruz como instrumento de morte e tortura, mas de vida e liberdade, pois por meio da morte de Cristo, fomos abençoados com sua vida e liberdade. É com esse sentido que temos a cruz como representação do cristianismo.

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