Quem é o “deus unigênito”?

Em João 1.18 nós encontramos um daqueles textos que divide opiniões. A diferença de opiniões na leitura desse verso não trata apenas da teologia que aparenta apresentar, mas à forma de como esse texto deve ter sido escrito. Note que em diferentes traduções bíblicas apresentam diferentes versões do texto:

“Nenhum homem jamais viu a Deus, o deus unigênito, que está [na posição] junto ao seio do Pai, é quem o tem explicado” (Tradução do Novo Mundo)

“Ninguém jamais viu a Deus: O Filho Unigênito que está no seio do Pai, este o deu a conhecer” (Bíblia de Jerusalém)

“Ninguém nunca viu a Deus. Somente o Filho único, que é Deus e está ao lado do Pai, foi quem nos mostrou” (Nova Tradução na Linguagem de Hoje)

“No one has ever seen God, but God the One and Only, who is at the Father’s side, has made him known” (New International Version)

“No one has ever seen God. The only one, himself God, who is in the presence of the Father, has made God known” (New English Translation)

Para entendermos corretamente o que esse texto ensina, vamos responder a três perguntas básicas: (1) Qual dessas versões traz a leitura correta do texto?; (2) Sobre quem o texto está falando? e (3) Quais são as implicações desse entendimento do texto?

 

1. Qual dessas versões traz a leitura correta do texto?

Gostaria de chamar sua atenção para o fato que, apesar de serem cinco as diferentes possibilidades de leitura desse texto, em última análise as diferentes versões flutuam entre a leitura que diz trazem Filho Unigênito ou deus unigênito, como a TNM e BJ. A NTLH é na verdade a junção dessas duas idéias e provavelmente é a leitura mais tardia e equivocada de todas. Já a NIV e a NET, em inglês, optaram não apenas pela leitura com deus unigênito, mas também por apresentar sua interpretação do texto.

Note também que apesar de a TNM, NIV e NET optarem pelo mesmo texto a ser traduzido, elas atribuem diferentes nuances ao texto ao verterem o termo deus ou em maíuscula ou em minúscula. Entretanto, nossa preocupação a princípio não entender por que isso aconteceu, mas verificar se devemos ler o texto com o termo Filho Unigênito ou deus unigênito. Em outras palavras, queremos saber como podemos ter certeza que a TNM está correta na sua forma textual.

Em primeiro lugar, devemos dizer que a diferença entre a BJ e a TNM é resultado da alteração de uma simples letra no grego koine. O que acontece é que muitos manuscritos antigos eram escritos apenas com letras maiúsculas, e são conhecidos como Unciais, e nesses manuscritos eles usavam uma forma abreviada dos termos filho e deus, conhecidos como nomina sacra. A forma abreviada de filho, quando usada em referência a Cristo, era descrita do seguinte modo: US – em referência ao termo filho em grego uiós. Já a forma abreviada do termo deus era: QS – em referência ao termo grego theós. Ou seja, para a tradução mudar de filho para deus, ou vice-versa, uma simples troca de letra seria suficiente.

Em segundo lugar, devemos nos perguntar como essa alteração aconteceu: O que veio primeiro: Deus ou Filho? Na análise das evidências, podemos notar que as evidências apontam que a leitura da TNM é mais antiga, e muitos eruditos entendem que isso é uma clara evidência de que a leitura da TNM é a leitura correta. Bruce Metzger afirma: “Com a aquisição de P66 [≈200 d.C] e P75 [início do terceiro século], ambos leem θεός , o suporte externo a essa leitura foi notavelmente fortalecida” (METZGER, Bruce, A textual Commentary on the Greek New Testament. pp.198.). Kostenberger and Swain demonstram mesma opinião: “Com a aquisição de P66 e P75, em que ambas lêem μονογενς θες, a preponderancia da evidência agora nos leva em direção da última leitura [μονογενς θες]” (Kostenberger, Swain, Father, Son and Spirit. pp.78 IN: WRITE, Brian, Jesus as Theós (God): A textual examinaition. (Bible.org). Quanto falamos de uma leitura textual, a data tem papel fundamental, e o testemunho do Papiro 66 a evidência externa a favor da TNM foi fortemente favorecida.

Em terceiro lugar, é importante saber em que lugares do mundo antigo essas versões eram conhecidas: conhecer essa evidência nos ajuda a entender qual era a leitura mais conhecida e utilizada no mundo antigo, e isso sugere qual versão era mais aceita. Embora algumas pessoas pensem que a leitura da TNM seja exclusivamente alexandrina, ou seja, confinada à forma de texto do Norte do Egito, Gordon Fee um erudito da área da crítica textual, após analisar as evidências do Sinaítico em comparação com outros documentos, chegou a seguinte conclusão: “O Códice Sinaítico é um grande representante grego da tradição textual Ocidental em João 1.1-8.38” (FEE, Gordon, Studies in the Theory and Method of New Testament Textual Criticism. pp.243). Se Fee está correto em sua análise, o Códice Sinaítico é o mais antigo representante da tradição Ocidental no dilema de Jo.1.18. Isso significa que, é possível que a leitura da TNM represente o arquétipo Ocidental.  Outro fato que nos surpreende na análise das evidências disponíveis é que a Peshita (syrp), que é reconhecida como favorável à tradição bizantina nos evangelhos, apóia a leitura da TNM. A versão Georgiana, que normalmente é reconhecida como representante da tradição Cesareana, também concorda com Peshita. O mesmo acontece com as versões copta. Ou seja, as mais antigas versões do NT concordam com a TNM em Jo.1.18.

Em quarto lugar, devemos olhar para o próprio texto do evangelho de João para encontrar alguma evidência que indique qual texto deve ser favorecido. Note que no Evangelho de João, ele usa a expressão Filho Unigênito algumas vezes (Jo.1.14; 3.16, 18; cf 1Jo.4.19), mas nunca usa a expressão deus unigênito. Outro detalhe também deve ser lembrado é que a expressão deus unigênito não é encontrada em nenhum lugar nas escrituras. Embora muitas pessoas possam concluir dessas evidências que a TNM deve estar equivocada, na verdade esses fatos reforçam a idéia de que ela está correta, afinal era muito mais fácil que alguém tentasse adaptar o texto de João para que ele ficasse mais parecido consigo mesmo e assim mais neutro, do que alterá-lo para uma versão desconhecida em toda a literatura de João e do Novo Testamento. Aliás, se observado com atenção veremos dois detalhes no prólogo do Evangelho de João que indicam que essa é a leitura correta: (1) Em Jo.1.1 João usa o termo deus sem artigo ao falar sobre a Palavra; (2) Em Jo.1.14 João chama o verbo de únigênito, também sem utilizar de artigo. Ao que tudo indica, no término do prólogo, João juntou as duas idéias e apresentou a Palavra como deus unigênito, dando perfeita simetria ao seu texto. Ou seja, do ponto de vista do próprio texto, a TNM é favorecida em sua leitura textual.

Ou seja, após uma análise mais abrangente das evidências, podemos ter certeza que a leitura da TNM em Jo.1.18 representa com mais fidelidade o texto original, em comparação com a BJ.

Agora, a pergunta que nos cabe, é sobre quem esse texto está falando, afinal, se a TNM está correta em sua leitura, isso não significa que o texto seja entendido por si só, mas, indica que é necessário entender o que o texto está nos ensinando.

 

2. Sobre quem o texto está falando?

Para entendermos sobre quem o texto está falando, vamos lê-lo com atenção:

“Nenhum homem jamais viu a Deus, o deus unigênito, que está [na posição] junto ao seio do Pai, é quem o tem explicado” (Tradução do Novo Mundo)

Note que o texto começa com a afirmação de que ninguém jamais viu a Deus, mas que aquele que está na posição junto ao seio do Pai é quem o tem explicado. Mas, quem é esse que está no seio do Pai? Para responder a essa pergunta recorremos ao testemunho de Jesus Cristo que afirmou: “Não que alguém tenha visto o Pai, salvo aquele que vem de Deus; este o tem visto” (Jo.6.46). Jesus é sempre reconhecido nos textos apostólicos como Aquele que veio de Deus (Jo.3.13) e como o único que pode conhecer a Deus de fato.

A linguagem de alguns textos favorecem a idéia de que Jesus apenas Jesus Cristo conhece a Deus, o Pai de fato, observe: “Ninguém sabe quem é o Filho, senão o Pai; e também ninguém sabe quem é o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Lucas 10.22). Não é à toa que alguns escribas tenham trocado o termo deus por Filho em João 1.18, afinal, é comum no Novo Testamento encontrarmos a afirmação de que Jesus, o Filho, é quem está com o Pai e que o conhece a ponto de poder explicá-lo a outras pessoas, ou revelá-lo a quem quiser.

Diante do próprio testemunho do prólogo do Evangelho de João devemos admitir que o deus unigênito é o nosso senhor Jesus Cristo, afinal, em João.1.1 lemos que a Palavra é quem está com Deus, do mesmo modo que o deus unigênito está no seio do Pai. No mesmo prólogo também encontramos evidências de que Jesus é o único habilitado a explicar quem é o Pai, afinal ele é a verdadeira luz que ilumina todo homem e sua glória foi vista pelos homens como glória do unigênito do Pai.

Todas essas evidências favorecem a idéia de que Jesus é o deus unigênito: É certamente esse o motivo de o termo deus ter sido substituído por Filho, para deixar o texto mais claro, contudo, não precisamos dessa adaptação para entender o que João está a nos ensinar, pois o texto inspirado pelo Senhor já nos ensina com clareza em sua forma original.

Com isso, devemos nos perguntar com sinceridade: O que significa ser Jesus o deus unigênito?

 

3. Quais são as implicações disso?

Em primeiro lugar, devemos entender o significado da expressão “deus unigênito” é compreender o sentido de “unigênito”. No livro Estudo Perspicaz, Vol.3 página 755 somos assim instruídos:

“A palavra grega mo‧no‧ge‧nés é definida pelos lexicógrafos como “único de sua espécie, ímpar”, ou “o único membro de uma parentela ou espécie”. (Greek-English Lexicon of the New Testament [Léxico Grego-Inglês do Novo Testamento], de Thayer, 1889, p. 417; Greek English Lexicon [Léxico Grego-Inglês], de Liddell e Scott, Oxford, 1968, p. 1144) Este termo é usado para descrever a relação tanto de filhos como de filhas com seus pais”

É importante que tenhamos aqui a clara visão do significado do termo, caso contrário corremos o risco de afirmar o que as escrituras não afirmam sobre Jesus Cristo, como fazem muitos dos que se chamam seguidores Dele. Segundo a pesquisa apresentada em seus resultados na frase acima, entendemos que o sentido do termo “unigênito” não é primeiramente “único gerado”, mas único em espécie, ímpar, singular. Veja, por exemplo, esse verso:

“Pela fé Abraão, quando provado, a bem dizer ofereceu Isaque, e o homem que recebera de bom grado as promessas, tentou oferecer [seu] unigênito” – Hebreus 11.17

Nesse caso, Isaque não era o único filho gerado de Abraão, pois sabemos ele também teve a Ismael com Agar, bem como diversos filhos com Quetura. (Gên 16:15; 25:1, 2; 1Cr 1:28, 32). Ou seja, o sentido do termo não é, como muitos chamados cristão entendem, como único gerado, mas como único em Espécie. Nesse caso, a ênfase recai sobre não sobre a questão numérica, como se Isaque fosse o único filho, mas no sentido de que ele é singular e especial. Aliás, é assim que vemos Jeová se referir a Abraão: “Toma, por favor, teu filho, teu único filho a quem tanto amas, Isaque, e faze uma viagem à terra de Moriá e oferece-o ali como oferta queimada num dos montes que te designarei”.

Em segundo lugar, devemos entender nos perguntar: O que significa chamar Jesus de deus único?

Se o sentido do termo, tal como apresentado acima está correto, devemos entender que Jesus é Deus como ninguém mais é, especial e singular. É bem verdade que parece ser esse o sentido, mas as publicações da Sociedade Torre da Vigia sempre preferem evitar esse fato e chamar a atenção dos seus leitores para sua agenda teológica. Por exemplo, quando ela define o termo Filho Unigênito, sempre chama a atenção dos seus leitores para o que eles consideram fatos teológicos, como a criação do Filho por Deus como primeira criatura. Ou seja, para a Sociedade Torre da Vigia o que torna Jesus único é sua posição de primeira criatura. Logo, além de cronologia e tempo de existência, nada de especial parece ser atribuído a Ele. Entretanto, nenhumas dessas considerações se encontram no entendimento do termo: Na verdade essa é mais uma das ocasiões em que a Sociedade Torre da Vigia leva seus leitores a crer na sua agenda teológica e não nas escrituras.

Como é evidente, até mesmo nas publicações da STV, o sentido do termo “unigênito” não se refere à geração, mas a singularidade (veja: Estudo Perspicaz, Vol.3 pp.755-6; Vol.2, pp.535; A Sentinela de Dezembro de 2008, pp.12). A confusão entre esses dois sentidos, nesse caso está numa antiga versão do Novo Testamento em Latim chamada Vulgata. Nela seu autor, Jerônimo (340-420) resolveu alterar o termo latino unicius para unigenetus que literalmente significa único gerado. Deve-se dizer que sua intenção era proteger a fé aos avanços da heresia ariana que dizia que Jesus havia sido criado, ao passo que Jerônimo entendia que Jesus havia sido “eternamente gerado”. Entretanto, o segundo termo não faz jus ao termo grego mo.no.ge.nes, que deveria ser traduzido, prioritariamente como único, como as antigas versões latinas faziam.

O que estou tentando demonstrar aqui é que João declara Jesus ser o único, o exclusivo Filho de Deus, com o termo Filho Unigênito.Ou seja, João pretende dizer que Jesus é o único de sua classe. Outros podem tornar-se filhos de Deus, mas a filiação de Jesus permanece distinta.Portanto, devemos entender que essa expressão, quando aplicada a Jesus indica sua singularidade; Ele é ‘o Filho’ no sentido absoluto

Ou seja, o termo mo.no.ge.nes descreve a absoluta e única relação entre Pai e Filho em sua natureza divina. Ou seja, quando João usa a expressão Deus Unigênito, essa expressão apresenta a íntima relação entre o Logos (Jesus) e o Pai (Jeová). Ou seja, Jesus sendo tão Deus quanto Deus o é (Jo.1.1), Ele é chamado de Deus singular, único, o que só pode ser possível se Eles forem de fato um (Jo.10.30). Essa conclusão é completamente fundamentada nas escrituras, e não na agenda teológica de uma instituição.

Observe que Jesus é chamado de Lo.gos (i.e. A Palavra, O Verbo) no início do capítulo do Evangelho de João. Esse Lo.gos estava desde o princípio com Deus é chamado de tão Deus quanto Deus, com o substantivo the.ós. Pouco à frente é dito que esse Lo.gos se fez carne (Jo.1.14) e habitou entre nós. Nesse mesmo verso vemos o Lo.gos ser chamado de mo.no.ge.nessem qualquer adendo. Ele é apenas “O Único”, e João nos diz que vimos a glória do Único que vem do e pertence ao Pai. É interessante que no verso 18 João associa as duas idéias chamando a Jesus de Deus e Único, e essa expressão, a saber Deus Unigênito (Gr. the.ós mo.no.ge.nes), deve ser entendida com a aplicação de dois conceitos já apresentados no mesmo texto. Ou seja, Jesus é Deus como ninguém o é, Ele é Deus singular, tão Deus quanto o Deus Pai.

Em outras palavras, estamos dizendo que apesar de a leitura da TNM estar correta, ela esconde a verdade ensinada por João ao usar letras minúsculas para o termo Deus e conduz seus leitores à sua teologia e não ao ensino do texto de João. Ou seja, a TNM está correta em sua forma e deturparda e herética em seus ensino. Por isso, devemos ignorar o ensino da STV nesse verso, e ouvirmos em primeiro lugar o ensino da palavra de Deus, de Jesus Cristo, o Deus único, como o único que pode nos ensinar corretamente sobre Deus, pois está com Ele desde sempre.

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