Trindade no Novo Testamento?

Na cena do batismo de Cristo, vemos uma situação interessante: “Batizado Jesus, saiu logo da água, e eis que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba, vindo sobre ele. E eis uma voz dos céus, que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt.3.16-17). Aquele que saiu da água foi chamado de Filho amado por uma voz que veio do céus quando o Espírito de Deus descia sobre ele. Nessa ocasião não vemos apenas três pessoas envolvidas em uma mesma situação, como as vemos em operações distintas.

Situação semelhante é encontrada na promessa de nascimento de Cristo feita por Gabriel a Maria: “Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso, também o ente santo que há de nascer será chamado Filho de Deus” (Lc.1.35). A palavra gr. para altíssimo (hupsistós) quando não é usada para descrever um local alto, ou um elevado grau de honra, é usado apenas em referência a Deus (Hb.7.1; cf. At.16.17; 7.8; Lc.8.28).

Outra situação que apresenta essa mesma idéia é a ordem de Cristo: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt.28.19). Por que razão Cristo teria exigido que os cristãos que perpetuassem o ministério de Cristo deveriam batizar em nome do Espírito Santo se este não tem qualquer relação com o Pai e o Filho? Por que não apenas em nome do Pai, ou do Filho? Tenho a impressão que se Cristo fosse unicista ele teria dito para batizarem em nome do Espírito Santo, pois esse seria seu novo modo de atuação. Se fosse unitarista, teria dito para batizarem em nome do Deus Pai (Jeová), pois ele é o único Deus. Se fosse advogado da nova escola não teria dito nada, pois não teria a menor importância mesmo. Essa expressão de Cristo nessa ocasião parece bem significativa para a compreensão da Trindade.

No NT a Trindade é bem representada por três termos gregos que podem nos ajudar a visualizar com mais clareza a idéia da Trindade enraizada no modo como os escritores do NT escreviam e ensinavam. A primeira é a palavra “theós” significa Deus e é usada em referência a Deus, o Pai. A palavra “kyriós” significa Senhor e é usada com alguma freqüência em referência a Cristo, o Filho.  A última palavra já uma palavra um pouco mais genérica, mas de grande importância é a palavra “pneuma“, usada em referência ao Espírito Santo. Eventualmente essas três expressões são utilizadas em um mesmo contexto como se falassem de cada uma das pessoas da Trindade. Outro detalhe interessante é que além de retratar de modos diferentes cada uma das pessoas da Trindade, eventualmente representam ações diferentes, o que reforça a idéia trinitária da fé cristã.

Em 1Coríntios 12.4-6 os três termos apresentados são utilizados de modo muito interessante: “Ora, os dons são diversos, mas o Espírito é o mesmo. E também há diversidade nos serviços, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade nas realizações, mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos”. Em 2Coríntios 13.13 vemos um caso similar: “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós”. Em Efésios o mesmo parece acontecer: “há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação, há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos”.

Tal conceituação apresentada pelo NT sugere a distinção entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, sua funcionalidade distinta, ainda que com o mesmo propósito e ainda apresentada pelas escrituras. Entretanto, falou pouco a personalidade de cada um deles e nada falou sobre sua divindade. É possível que tanto Pai, quando o Filho e o Espírito Santo sejam pessoas distintas e divinas ao mesmo tempo?

A primeira implicação em dizer que Pai, Filho e Espírito Santo são pessoas distintas é dizer que o Pai não é o Filho nem o Espírito Santo, nem o Filho o Pai ou o Espírito e nem o Espírito o Pai ou o Filho e isso pode ser demonstrado com relativa facilidade.

No evangelho de João lemos: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo.1.1). Cada uma dessas sentenças pode ser usada como uma demonstração da íntima ligação existente entre o Pai e o Filho, pois Ele é existente desde sempre e é Deus. Entretanto, quando lemos que o Verbo (logos, Cristo) estava com Deus, percebemos que há uma clara distinção entre o Pai e o Filho. Outro detalhe é que entre o Filho e o Pai existe um relacionamento de amor, o que demonstra a distinção pessoal entre eles: “Pai, a minha vontade é que onde eu estou, estejam também comigo os que me deste, para que vejam a minha glória que me conferiste, porque me amaste antes da fundação do mundo” (Jo.17.24). Caso similar é visto em Hebreus 7.25: “Por isso, também pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles“. Ou seja, “afim de interceder por nós perante o Deus Pai, é necessário que Cristo seja uma pessoa distinta do Pai”

É bem importante dizer que essa distinção também é apresentada como unidade no mesmo evangelho: “Eu e o Pai somos um” (Jo.10.30). Aqui vemos que a existência distinta da pessoa do Filho com o Pai não é uma rejeição da sua unidade (que arriscaria de chamar essencial), mas uma declaração da sua igual divindade.

Até aqui fica evidente a pessoalidade do Pai e do Filho, mas, que dizer do Espírito Santo? Ele é de fato uma pessoa? As escrituras ensinam assim?

Um leitura não muito aprofundada no Novo Testamento pode nos mostrar a pessoalidade do Espírito Santo. Algumas atividades são atribuídas a Ele que testificam sua pessoalidade. Por exemplo, em João 16.13 lemos: “quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas que hão de vir”. Nesse texto algumas das características que o Espírito Santo tem são inerentes à Sua pessoalidade.

Mas, por que não entendemos que essas ações do ES são extensões da própria pessoa de Deus? Não seria o poder de Deus ativo na vida das pessoas que daria a impressão de pessoalidade do ES? Não. Em João 14.26, lemos: “mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito”. Nesse texto fica evidente que o Pai não é o enviado e nem mesmo o Filho, pois o Consolador seria enviando em Seu nome. Ou seja, o Consolador (i.e. aquele que consola) além de ser habilitado a ensinar e fazer lembrar tudo o que Cristo teria dito é uma pessoa distinta do Pai e do Filho.

Mas, ainda tem um ponto importante a ser lembrado aqui, pois é uma certa afronta ao ideal TJ da pessoa do ES. São casos onde o Espírito Santo é apresentado como alguém com Poder e não como poder. Em Lucas 4.14 lemos: “Então, Jesus, no poder do Espírito, regressou para a Galiléia, e a sua fama correu por toda a circunvizinhança”. Se o ES é apenas uma força, um poder, como traduziríamos isso? Jesus voltou no poder da força? Em Atos 10.38, vemos algo similar: “como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder, o qual andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele”. Se o ES é apenas o poder de Deus, esses versos não fazem o menor sentido.

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