Jesus e o Reino de Deus

maio 25, 2011 por Testemunha de Cristo

O assunto sobre o Reino de Deus no ensino de Cristo tem sido alvo de diversos estudos e apresentações, desde as mais conservadoras às mais liberais. Nossa leitura nesse estudo reflete uma visão introdutória ao assunto, levantando considerações sobre as diferentes interpretações do assunto, a visão judaica e do período interbíblico do Reino de Deus e a mensagem de Cristo sobre ele em Seu contexto.

A. O Reino de Deus no Antigo Testamento

A primeira observação que fazemos pode parecer polêmica, mas não na verdade não o é: A expressão Reino de Deus não acontece em nenhum lugar no Antigo Testamento, muito embora esteja presente conceitualmente em quase todas a extensão da revelação. Vamos observar algumas das designações de Deus no Antigo Testamento:

  1. O Senhor é Rei: Uma característica evidente de Deus (YHWH) no Antigo Testamento é o fato de que ele é o Rei, sendo isso atestado diversas vezes. Ele é chamado de Deus de Israel:  “o SENHOR, Rei de Israel, seu Redentor, o SENHOR dos Exércitos” (Is.44.6; cf.1Sm.12.12); Rei da Glória: “Quem é esse Rei da Glória? O SENHOR dos Exércitos, ele é o Rei da Glória”; Juiz, Legislador, Rei e Salvador (Is.33.22). A característica fundamental de YHWH como Rei é claramente apresentada nas escrituras, com designações diferenciadas: “O SENHOR reinará por todo o sempre” (Ex.15.18)
  2. O Senhor é Rei de Israel: YHWH é Rei de Israel: “O Rei de Israel, o SENHOR, está no meio de ti;” (Zc.3.15; cf. Nm.23.21) “E o SENHOR se tornou rei ao seu povo amado” (Dt.33.5) “Eu sou o SENHOR, o vosso Santo, o Criador de Israel, o vosso Rei”.
  3. O Senhor é Rei de toda terra: “Ó SENHOR, Deus de Israel, que habitas entre os querubins, tu mesmo, só tu és Deus de todos os reinos da terra; tu fizeste os céus e a terra” (2Rs.19.15); “O SENHOR preside aos dilúvios; como rei, o SENHOR presidirá para sempre” (Sl.29.10); “Pois o SENHOR Altíssimo é tremendo, é o grande rei de toda a terra” (Sl.47.2); “Dizei entre as nações: Reina o SENHOR. Ele firmou o mundo para que não se abale e julga os povos com equidade” (Sl.96.10).
  4. O Senhor tem um trono real: “porque sustentas o meu direito e a minha causa; no trono te assentas e julgas retamente” (Sl.9.4); “O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre; cetro de eqüidade é o cetro do teu reino” (Sl.45.6); “No ano da morte do rei Uzias, eu vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono, e as abas de suas vestes enchiam o templo”
  5. Seu reinado é eterno: “O SENHOR é Rei eterno; da sua terra serão desarraigados os gentios” (Sl.10.16); “O SENHOR reina para sempre; o teu Deus, ó Sião, reina de geração em geração” (Sl.146.10); “O teu reino é o de todos os séculos, e o teu domínio subsiste por todas as gerações” (Sl.145.13).

Como vimos, a visão do Antigo Testamento de YHWH como Rei é clara, e segundo observamos, Ele é Rei de Israel, da Terra com trono real e Seu Reinado é Eterno. Entretanto, o Antigo Testamento também apresenta a YHWH como um Rei que há de vir, observe: “A lua se envergonhará, e o sol se confundirá quando o SENHOR dos Exércitos reinar no monte Sião e em Jerusalém; perante os seus anciãos haverá glória” (Is.24.23); “O SENHOR será Rei sobre toda a terra; naquele dia, um só será o SENHOR, e um só será o seu nome” (Zc.14.9); “Mas, nos dias desses reis, o Deus do céu levantará um reino que não será jamais destruído; e este reino não passará a outro povo” (Dn.2.44).

Desse modo, a visão do Antigo Testamento sobre o Reinado de Deus é vista sob dois pontos de vista: o imediato, no sentido que YHWH é Deus de Israel e de toda terra, afinal é criador, legislador do universo; entretanto, YWHW também é visto como Rei no futuro, ou seja, “embora Deus seja Rei, ele deve tornar-se Rei, ou seja, deve manifestar sua soberania real no mundo dos homens e das nações”.  (LADD, George Eldon, Teologia do Novo Testamento, Hagnos, 2001, pp.58).

E expectativa judaica geral começou a girar em torno da chegada de um Rei da linhagem de Davi que seria um político terreno. Segundo a expectativa apresentada no Antigo Testamento esse Rei seria:

  1. Será Rei constituído por Yahweh: Uma das verdades sobre esse Messias-Rei é que Ele seria constituído como tal por Yahweh: “Eu, porém, constituí o meu Rei sobre o meu santo monte Sião”( Sl.2.6). A expressão usada pelo salmista aqui demonstra claramente essa dupla função do Ungido Esperado como Messias e Rei O termo “constituí” foi traduzido em outras versões como “ungi”, “consagrei”, duas designações comuns para se falar do Messias. Entretanto, aqui ele é Ungido como Rei. (cf. Sl.18.50)
  2. Seu Reino será Eterno: Uma das características desse Reino do descendente de Davi é que seria Eterno. Desde que a promessa divina foi dada a Davi esse aspecto ficou claro: “Quando teus dias se cumprirem e descansares com teus pais, então, farei levantar depois de ti o teu descendente, que procederá de ti, e estabelecerei o seu reino. Este edificará uma casa ao meu nome, e eu estabelecerei para sempre o trono do seu reino” (2Sm.7.12-13). Assim, Yahweh ao apresentar a ideia de um Rei descendente de Davi, prometeu um reino eterno, conceito que foi expandido pelos profetas (cf. 2Pe.1.11; Dn.2.44; 7.14)
  3. Seu Reino será Justo: O Messias-Rei prometido exercerá a justiça e o juízo durante seu Reinado eterno. Essa verdade é atestada em outros lugares na escritura: “Eis aí está que reinará um rei com justiça, e em retidão governarão príncipes” (Is.32.1). A idéia de um Rei Justo que viria é parte da expectativa judaica sobre o Messias (Zc.9.9; Mt.21.5; Sl99.4; Ez.37.24)
  4. Será Rei Digno de Adoração: Um dos detalhes que merece atenção é a promessa de Yahweh de que o Seu Ungido será adorado, por causa do amor de Yahweh: “Assim diz o SENHOR, o Redentor e Santo de Israel, ao que é desprezado, ao aborrecido das nações, ao servo dos tiranos: Os reis o verão, e os príncipes se levantarão; e eles te adorarão por amor do SENHOR, que é fiel, e do Santo de Israel, que te escolheu“ (Is.49.7).
  5. Será Rei Eterno:  O Reino de Yahweh é Eterno, do mesmo modo que o Reino do Messias-Rei prometido. E por isso que o Messias é chamado nesse verso de Yahweh: “Dias sobre dias acrescentas ao rei; duram os seus anos gerações após gerações” (Sl.61.6; cf. Gn.21.33; Sl10.16; Jr.10.10; Ex15.25; Sl29.10; Zc.14.9; Mq.5.2).

Observando os conceitos presentes e futuros da visão teocrática de YHWH com Israel, Darrell Bock atesta:

“Quando Israel foi conquistado pelas nações, houve um desejo de que um dia Deus reestabelecesse seu governo em favor de seu povo e mostrasse sua abrangência soberana a toda a humanidade. Afinal de contas, Deus havia se comprometido com Davi a respeito de uma dinastia duradoura (2Sm.7.13). É aqui que a esperança de um Reino futuro de Deus, feito não com mãos, veio a ser contrastado com reinos humanos em Daniel 2 e 7 (…) O que era esperado era alguma coisa que havia existido no passado, mas somente como um mero vislumbre do que fora prometido: um governo futuro envolvendo total paz para o povo de Deus”.  (BOCK, Darrell, Jesus segundo as escrituras, Shedd, 2006, pp.539-40).

Em resumo, a visão do Antigo Testamento sobre o Reino de Deus inclui uma verdade presente e absoluta, (YHWH é Rei) e que ao mesmo tempo aceita a ideia de que o Senhor será Rei em algum momento no futuro. Também atesta a expectativa de que o Messias prometido seria Rei de Israel, também no futuro, de modo a implementar esse Reino de Deus plenamente em Israel diante de todo o mundo. Essa expectativa tornou-se o modelo máximo das considerações judaicas no período interbíblico, de modo que tal expectativa se consolidou na mentalidade judaica a ponto de remontar o pano de fundo da mensagem de Cristo sobre o Reino.

B. O Reino de Deus no período Interbíblico

A expectativa da chegada do Reino de Deus na pessoa do Messias Prometido permeou a visão dos judeus de modo que no período interbíblico essa expectativa tomou conta de grande parte de seus escritos. Entretanto, devemos notar que embora o Reino estivesse normalmente ligado a chegada do Messias, no período interbíblico ela sempre indicava o juízo divino sobre as nações e a restituição dos santos.

A visão passa por uma apresentação geral do Reino de Deus, como o faz o apócrifo de Enoque:

“Senhor dos Senhores, Deus dos deuses, Rei dos reis e Deus de todos os tempos. O trono da tua gloria vai até todas as gerações e eras, e Teu nome é santo, glorioso e bendito em todas as eras. Tu fazes todas as coisas, e manifesta seu poder sobre elas, e todas as coisas estão descobertas e patentes ante a Teus olhos e vês todas as coisas e nada pode esconder-se de Ti” (1Enoque 9.4-6; IN: CHARLES, R.H, The apocrypha and pseudoepigrapha of the Old Testament. Clarendon Press).

Nesse livro encontramos ainda algumas vezes a ideia de que YHWH é Rei de todas as era (12.3), o único santo Senhor da Glória e Rei Eterno (25.3, 5, 7; 27.3) e é o Grande Rei de Glória Eterna (81.2).  Ele é Rei que exerce seu julgamento, o Grande Julgamento (16.1; 19.1; 22.4) como exercício de sua vingança (25.4) sobre todos os homens (1.7, 9) em um grande dia em que lançará ao fogo (10.7) os pecadores (22.10) e esse será o dia da consumação deles (10.12).

Entretanto, também havia a expectativa de que YHWH livraria seu povo dos seus inimigos, seja do ponto de vista físico como espiritual. Por exemplo, no livro Assunção de Moisés  lemos que ele removeria a influência de Satanás do mundo, observe:

“E então, o Seu reino em toda Sua criação aparecerá, e então, Satanás não mais existirá e a tristeza com ele partirá. Então as mãos dos anjos deverão ser preenchidas e aquele que foi nomeado chefe irá vingá-los imediatamente de seus inimigos. Então o Único, o celestial, manifestar-se-á de Seu trono Real e sairá de sua santa morada” (Assunção de Moisés 10).

No manuscrito 1Qs encontrado entre os manuscritos de Quran, também encontramos a expectativa de que esse juízo divino traria a derrota das forças do mal, como o Anjo das Trevas, observe:

“O Anjo das Trevas extravia todos os filhos da justiça, e até seu fim, todos os seus pecados, iniquidades, maldades e todas as suas ações contrárias à lei são causadas por seu domínio em acordo com o mistério de Deus (…) Mas o Deus de Israel e Seu Anjo da Verdade virão socorrer todos os filhos da luz, pois Ele mesmo criou os espíritos da luz e das trevas” (1QS 3-4; IN: VERMES, Géza, The Dead Sea Scrolls in english,  Penguin Books, 1995, pp. 73).

Entretanto, em outros escritos esses inimigos eram identificados como inimigos físicos (romanos) como encontramos no Salmo de Salomão 17:

“Mas nós confiamos no nosso Deus Salvador, pois a força de nosso Deus é eterna com misericórdia, e o reino de nosso Deus é para sempre sobre as nações em julgamento (…)O ímpio despojou-nos de habitantes; destruíram o jovem, o ancião e a criança ao mesmo tempo. Na sua bela ira ele os expulsou para o oeste, e expôs os governadores da terra ao opróbrio, e não teve misericórdia. O inimigo arrogantemente e com indiferença agiu, e seu coração era indiferente com relação ao nosso Deus.  Assim ele fez em Jerusalém todas as coisas que os gentios fizeram nas cidades de seus domínios (…) E ele ajuntará um povo santo, a quem dirigirá em justiça. E ele julgará as tribos do povo santificado pelo Senhor Deus deles. Ele não permitirá que permaneça injustiça no meio deles, e todo o homem que conhece a perversidade não viverá com eles. Por que ele os conhecerá todos como filhos do Deus deles (…) E ele terá nações gentílicas servindo-o debaixo de seu jugo, e ele glorificará o Senhor num lugar visível a partir de toda a terra. E ele purificará Jerusalém com consagração, como no início. Virão as nações dos confins da terra para ver sua glória, trazendo como dádivas seus filhos que tornaram-se totalmente debilitados, e para ver a glória do Senhor com a qual o Senhor a glorificou. E ele será um rei justo sobre eles, instruído por Deus. Não haverá injustiça no meio deles nos seus dias, pois todos serão santos, e seu rei será ungido do Senhor.” (Salmos de Salomão 17. 3, 11-14; 26-27; 30-32; cf. 2Baruque 36-40).

Nesse texto também vemos a mais clara expectativa do Messias na mentalidade judaica interbíblica, de modo que o Reino de Deus tal como apresentado no Antigo Testamento teria imprimido na consciência religiosa da nação uma clara visão da futura intervenção divina, na qual o Messias seria a manifestação mais clara dessa expectativa. Entrentanto, é importante dizer que nesse período nem sempre a visão do Reino de Deus estava atrelada a pessoa do Messias, que segundo Darrell Bock, também é “visto em termos muito terrenos”, como vimos na citação acima, embora em algumas ocasiões tenha sido apresentado com o poder mais transcendente (1Enoque 37-71), ou até como uma mistura dos dois (2Esdras 7.28, 29; 12.32-34; 13.26). Com isso notamos que o assunto do Reino de Deus nesse período apresenta  diversos subtemas, sem que haja uma organização de tais ideias. E, tendo observado isso, Darrell Bock conclui:

“No judaísmo, não havia uma visão unificada do Reino além da esperança da poderosa vinda e vindicação de Deus. É importante entender que foi diante desse pano de fundo um pouco confuso que Jesus pregou essa esperança”.  (BOCK, Darrell, Jesus segundo as escrituras, Shedd, 2006, pp.540)

Contudo, devemos notar um detalhe interessante apresentado por Ladd:

“O judaísmo apocalíptico também possuía diversos tipos de esperança. Alguns escritores enfatizaram o aspecto terreno, histórico do Reino (Enoque 1-36; Salmos de Salomão 17-18), ao passo que outros sempre enfatizam os aspectos mais trancedentais. Entretanto, a ênfase é sempre escatológica”.  (LADD, George Eldon, Teologia do Novo Testamento, Hagnos, 2001, pp.59)

Diante disso, entendemos que a literatura judaica do período intertestamental não consolidou uma visão específica sobre o Reino de Deus, exceto que a expectativa de uma intervenção histórica de Deus fosse patente em todas essas diferentes nuances apresentadas. Seja de um ponto mais físico ou espiritual, a manifestação do Reino de Deus seria um ato futuro do próprio Deus, que poderia usar agentes humanos na sua execução, para salvar Israel e punir seus inimigos. Essa visão política certamente foi o arcabouço da expectativa messiânica dos judeus no período de Cristo, e é nesse contexto que Cristo ensinou sobre o Reino de Deus.

C. O Reino de Deus na mensagem de Cristo

George Eldon Ladd, iniciando seu tratamento do assunto nos evangelhos sinóticos, afirma:

“A erudição moderna revela quase que uma unanimidade ao afirmar que o Reino de Deus constitui-se na mensagem central de Jesus. Marcos introduz a missão de Cristo com as palavras: ‘Ora, depois que João foi entregue, veio Jesus para a Galiléia, pregando o evangelho de Deus, e dizendo: O tempo está cumprido e é chegado o Reino de Deus. Arrependei-vos e crede no evangelho’ (Marcos 1.14-15). Mateus sumariza seu ministério com as palavras: ‘E percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do Reino’ (Mateus 4.23). A cena introdutória de Lucas não menciona o Reino, mas, por outro lado, cita a profecia de Isaías a respeito da vinda do Reino e depois relata a afirmação de Jesus: ‘Hoje se cumpriu esta escritura aos vossos ouvidos’(Lucas 4.21)”.  (LADD, George Eldon, Teologia do Novo Testamento, Hagnos, 2001, pp.55)

Considerando as palavras de Ladd, de que o Reino de Deus é parte central da mensagem de Cristo, vamos observar que a visão que Ele apresenta sobre o Reino de Deus tem diferentes nuances, que pretendemos respeitar antes de se levantar uma conclusão sobre o modo como ele usa a expressão.

a.       O Reino de Deus é espiritual e presente

Como já demonstramos, havia nos tempos de Jesus uma clara expectativa da vinda do Messias-Rei como libertador político. A expectativa judaica era que o Messias-Rei viria de Jerusalém (Mt.5.35), como o magos do oriente já tinham demonstrado (Mt.2.2), fato não negado pelo próprio Cristo (Mt.27.11; Jo.18.37), mas ironizado por aqueles que o crucificaram (Mt.27.27, 37, 42).

De modo interessante, os judeus tinham certa resistência com esse fato, pois não o viam como o Filho de Davi, Messias-Rei libertador de Israel. Note que é exatamente essa uma das acusações contra Jesus Cristo: “E ali passaram a acusá-lo, dizendo: Encontramos este homem pervertendo a nossa nação, vedando pagar tributo a César e afirmando ser ele o Cristo, o Rei” (Lc.23.2). Isso é importante ser ressaltado, pois nesse sentido Jesus foi uma decepção para aqueles que o esperavam, pois não viam nele um Rei Valente, um líder político que vira para libertar a Israel.

Essa frustração não veio sem evidências, pois o próprio Jesus em algumas ocasiões rejeitou a ideia de ser feito rei entre eles: “Sabendo, pois, Jesus que estavam para vir com o intuito de arrebatá-lo para o proclamarem rei, retirou-se novamente, sozinho, para o monte” (Jo.6.15). Além disso, Ele mesmo testificava que seu Reino não era desse mundo: “O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui” (Jo.18.36).

A verdade é que o Reino de Deus, segundo ensinado por Ele mesmo, na ocasião da sua encarnação não era estritamente um Reino Físico: “Interrogado pelos fariseus sobre quando viria o reino de Deus, Jesus lhes respondeu: Não vem o reino de Deus com visível aparência. Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Lá está! Porque o reino de Deus está dentro de vós” (Lc.17.20-21). Esse reino apresentado por Cristo não era o Reino que os judeus pareciam esperar, apesar de ser o Reino Prometido.

O Reino apresentado por Cristo, era um Reino dos céus (Mt.3.2; 4.17), uma forma mais aceitável de se apresentar o Reino de Deus a um Judeu. É evidente que o Reino dos céus apresentado por Cristo no Evangelho de Mateus é o Reino de Yahweh, mas que por zelo ao uso do nome do Senhor, foi apresentado como Reino dos céus. Uma rápida observação nos evangelhos sinóticos irá revelar esse fato. Reforça essa ideia o eventual uso do termo céu (Gr. ouranós) como alusão ao próprio Deus em Mateus (Mt.21.25; cf. Mt.5.16; 5.34; 5.45; 6.9; 16.1; 23.22).

Esse Reino dos céus estava próximo e essa era a mensagem pregada por Cristo (Mt.3.2; 9.35; Lc.4.43; 8.1; 10.9) e ensinada aos seus seguidores (Mt.10.7; Lc.9.2, 60), a quem revelaria os mistérios desse reino (Mt.13.11). Esse reino seria visto por seus seguidores antes que viessem a morrer (Mt.16.28), o que reforça a ideia de um Reino espiritual e não físico. A participação nesse Reino exigia arrependimento (Mc.1.15), ser como uma criança (Mt.18.3-4; 19.14; Mc.10.14; Lc.12.32; 18.16-17), nascer de novo (Jo.3.3-5; 8), ser desapegado ao dinheiro (Mt.19.24; Lc.6.20), ser humilde de espírito (Mt.5.3), persistente no trabalho do Reino (Lc.9.62), perseguido por causa da justiça (Mt.5.10), ou seja, manter uma ética adequada ao Reino (Mt.5.20; 19.12; Mc.9.47). Entretanto, não são as obras que determinam a entrada nesse Reino, nem mesmo as riquezas do homem (Mc.10.23-25; Lc.18.24-25), mas a graça de Deus (Mt.21.31). Em outras palavras, era necessário exercer a fé centrada no Messias-Rei como Salvador e Senhor (At.2.36; Rm.10.9). Não é à toa que os judeus não aceitavam sua mensagem, e que o acusavam de usurpar das escrituras um direito que não era dele (Lc.23.2).

Ele é manifesto na pessoa de Cristo na demonstração de seu poder-autoridade com o mundo espiritual (Mt.12.28; Lc.11.20),  na restituição graciosa do Rei (Mt.20.1) e não na falsa religião defendida pelos doutores da lei (Mt.23.13). Na sua infinda graça, Jesus Cristo é quem dá a conhecer o Reino de Deus a quem ele quer (Mc.4.11; Lc.8.10).

O Reino de Deus também deveria ser buscado com sua justiça (Mt.6.33; Lc.12.31), com esforço apodera-se dele (Mt.11.12; Lc.16.16) e com abnegação dele participa (Lc.18.29).  Ele é o alvo da oração dos seguidores de Cristo, que clamam para que o Reino venha até nós (Lc.11.2) e nesse sentido  ele não tem aparência externa, mas está dentro de nós (Lc.17.20-21). E por fim, esse Reino é confiado, destinado aos seguidores de Cristo (Lc.22.29), que fazem do reino sua mensagem (At.8.12; 14.22; 19.8; 20.25; 28.23; 31). Nesse sentido, o Reino de Deus pregado por Cristo era primariamente espiritual e, por conseguinte presente. Era uma mensagem para o já, para o agora.

b.      O Reino de Deus é histórico e futuro

Como já vimos, parece claro que existe na mensagem de Cristo um claro teor de espiritualidade no Reino prometido. Contudo, devemos lembrar que desde cedo no Ministério Público de Jesus, os seus seguidores o reconheceram como Messias e Rei. Natanael assim que o conheceu testemunhou: “Então, exclamou Natanael: Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel!” (Jo.1.49). Ao que tudo indica, a força da expectativa messiânica real acompanhou a Jesus Cristo de modo que podemos ver no início do ministério de Cristo uma oração com esse teor: “ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e o seu reinado não terá fim” (Lc.1.33). Essa mesma expectativa é a mesma que sempre acompanhou os discípulos de Cristo, e eles também esperavam pela concretização desse reino durante todo o tempo de ministério de Jesus entre eles. A curiosidade deles era tanta que gostariam de saber quem seria o que se assentaria ao seu lado no Reino (Mt.20.21), ou quem seria o maior nele (Mt.18.1). De modo interessante, Jesus também ensinou sobre ser maior ou menos no Reino dos céus (Mt.5.17-19), o que sugere que este não seria apenas espiritual.

Esse Reino seria mediado por um povo, tal como já o fora no passado pelo povo judeu. Entretanto, como os judeus rejeitaram o a Cristo como Messias prometido, Jesus atesta que “o reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que lhe produza os respectivos frutos” (Mt.21.43). Essa visão do Reino era completamente nova para os judeus que o ouviam e em função da ofensa que essa mensagem trazia sobre eles, eles o queriam matar (v.45-46). Ou seja, a visão que Cristo apresenta sobre esse reino parece incluir um detalhe histórico importante e inesperado: A Igreja (Mt.16.16-19), como um parêntesis histórico entre a chegada do Messias como Redentor e Seu retorno como Rei. Nesse intervalo profético, os seguidores de Cristo, a igreja do Senhor, é quem encarna os valores do Reino e anuncia sua mensagem espiritual de restauração, sempre na expectativa do dia em que o Próprio Senhor estabelecerá seu Reino.

Essa parece ser a compreensão básica das parábolas do Reino proferidas por Cristo: Apesar da consistente rejeição do Messias feita pelos judeus, o Reino de Deus continua florescendo, afinal sua mensagem favorece uma diversidade de resultados a ela (Mt.13.3-8); também haverá uma mistura entre bem e mal durante o nosso período, antes que uma consumação escatológica definitiva aconteça (Mt.13.24-30; 36-43); a mensagem do reino crescerá muito rapidamente alcançando diferentes grupos de pessoas (Mt.13.31-32) do mesmo modo que o elemento maligno cresça paralelamente à expansão da mensagem do reino (Mt.13.33); e tal mistura entre a expansão da mensagem do reino e o elemento maligno até que o Reino seja finalmente estabelecido e execute a separação final (Mt.13.47-50) (PINTO, Carlos Osvaldo, Foco e Desenvolvimento do Novo Testamento, Hagnos, 2008, pp.51)

Esse Reino contaria com a participação de pessoas de diferentes nacionalidades, mas estariam com os patriarcas no Reino dos céus (Mt.8.11; Lc.13.29), e essa mensagem chegará até os confins da terra (Mt.24.14), precedendo o fim dos tempos. Assim os próprios seguidores de Cristo e propagadores da mensagem do Reino teriam a chance de ensinar de acordo com as escrituras e serem avaliados para o Reino futuro (Mt.5.19). Durante esse período, eles esperarão pelo retorno do Messias, o Rei, reconhecido como o Noivo da Igreja (Mt.25.1ss). Então, todos prestarão contas diante do Rei por suas ações (Mt.18.24) e aqueles que viveram na iniquidade, contrariando a ética e a espiritualidade do Reino presente, no futuro serão ou jogados na fornalha de fogo (não cristãos Mt.13.41-42), ou colocados fora do Reino (maus cristãos Lc.13.28), mas os justos resplandecerão como o Sol no Reino do Deus Pai (Mt.13.43) e serão convidados a participar do Reino de Deus que está preparado desde a fundação do mundo (Mt.25.34), no qual esperamos participar de uma celebração (Lc.22.30; cf. Mt.26.29; Mc.14.25;). Esse aspecto do Reino, segundo Jesus Cristo, também está próximo (Lc.21.31).

Entretanto, esse futuro não é algo apenas escatológico, mas algo que está além do presente do autor (Lc.19.11), de modo que o Reino futuro de Deus esteja em funcionamento antes dos seus discípulos originais morressem (Mt.16.28; Mc.9.1; Lc.9.27; Lc.22.16-18), e que os seguidores mais próximos ainda aguardavam ver depois da morte de Cristo (Mc.15.43; Lc.23.51). Nesse quesito, a expectativa futura é apresentada em consonância ao conceito espiritual do Reino.

c.       O Reino de Deus e a expectativa judaica

Após a observação das diferentes nuances do Reino no ensino de Cristo, já pudemos observar alguns aspectos do Reino que ora se adequam a visão judaica corrente, ora a confronta claramente. Essa relação com a expectativa da judaica e a mensagem de Cristo sugerem que muita dessa expectativa não era legítima ante ao plano divino, por outro lado, parte dela parecia em consistente com a mensagem de Cristo. Um desses claros indicativos é a declaração de Cristo que os seus doze discípulos irão julgar as Doze Tribos de Israel (Lc.12.32; 22.28-30). Isso evidencia claramente que Israel ainda não havia saído da visão e preocupação divina.

Outro detalhe que parece contribuir para a essa confluência entre a visão de Cristo e da expectativa judaica sobre o reino são as parábolas dos banquetes contadas por Jesus (Mt.22.1-14; Lc.14.15-24), o fato de que Cristo os ensina a orar pelo Reino futuro (Mt.6.10) e a prefiguração de Isaías 25.69 na cena da última ceia. Também encontramos alguns conceitos escatológicos em conformidade com a expectativa judaica, como por exemplo a ideia de dois diferentes destinos em relação ao Reino futuro (Mc.9.47), do desfrute do Reino como uma herança (Mt.5.20) ou um estado futuro em que se entre (Mt.25.31-46) e a descrição dos acontecimentos que farão parte do dia do juízo (Mt.7.21-23; 25.1-13; Lc.21.31) (BLOMBERG, Craig, Jesus e os evangelhos, Vida Nova, 2009, pp501).

Por outro lado, as questões mais presentes e espirituais do Reino eram inimagináveis na expectativa judaica. A ideia de um reino real e presente no indivíduo parecia uma distorção da mensagem do Reino aos olhos dos judeus. A chamada ao arrependimento, a primazia dos pecadores e o novo nascimento (em todas as suas figuras) pareciam distantes demais da expectativa judaica.

Ao considerarmos essas declarações de Cristo sobre o Reino o que podemos dizer? É o reino futuro? É histórico? É espiritual? É presente? Essa visão aparentemente contraditória da exposição de Cristo, bem como a leitura delas a partir de diferentes pressupostos encontrados no Antigo Testamento, é que levaram a tantas diferenças de opiniões sobre o Reino, como vimo no início dessa seção. Entretanto, é essa mesma apresentação diversa e ampla do Reino de Deus que intrigou os judeus que o ouviam, e por isso mesmo, várias vezes se levantaram contra ele, muito embora, eventualmente Sua mensagem era compatível com as expectativas deles.

Ou seja, partindo da visão judaica no período de Cristo, o Seu ensino sobre o Reino de Deus contém aspectos em conformidade, embora boa parte do seu ensino fosse inovadora e inesperada. É nessa mistura de conceitos, presente e futuro, histórico e espiritual que Cristo apresenta sua mensagem. Observando essas características, Darrell Bock atesta:

“É a justaposição desses vários elementos que mostra quão eclético e sintético, até criativo, é o ensino de Jesus sobre o Reino. Jesus pregou uma esperança que os judeus podiam reconhecer, mas ele também pregou muito mais. Ele acolheu elementos da esperança apocalíptica judaica, mas não repetiu meramente esses temas. O sentido desses tetos, como um todo, é que Jesus atua dentre dessa história e, todavia, a remodelará um dia. Novamente, o ensino nem é esse mundo reorganizado, nem um novo mundo criado, mas ambos em seu tempo certo”. ”.  (BOCK, Darrell, Jesus segundo as escrituras, Shedd, 2006, pp.544) 

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