Os Milagres de Cristo

 “Os evangelhos registram 35 milagres feitos por Jesus. Mateus menciona 20 deles; Marcos 18; Lucas 20; e João 7. Estes não são, todavia, todos os milagres do Senhor” (Charles Ryrie)

No que se referem aos seguidores de Cristo, os milagres operados por Cristo são componentes importantes de sua crença, ainda que nos ambientes mais acadêmicos essa crença tenha sido rejeitada. Há, entre os acadêmicos quem creia que os milagres operados por Cristo nada testemunhem a seu respeito. Por exemplo, Kümmel, quando fala em ações sobrenaturais de Cristo nos evangelhos observa que, ora os relatos miraculosos nada falam sobre Cristo ou seu ensino, ora deixam evidências de sua pessoa e doutrina (KÜMMEL, Werner Georg, Síntese Teológica no Novo Testamento. Pp.85). Isso o leva a concluir que os relatos narrados sobre Cristo são divergentes em caráter.

Entretanto, esse não é o parecer mais comum sobre eles. Até mesmo Bultmann, aquele que rejeita ‘mitologia’ do Novo Testamento, confere significado aos atos miraculosos de Jesus quando estuda o quarto evangelho. Para ele os milagres de Cristo revelam sua glória (Jo.2.11), as obras de Deus (Jo.9.3) e sua autenticação como Filho de Deus (11.4). Muito embora ele os considere como figura ou símbolo, Bultmann diz que os milagres  “revelam a glória de Jesus, não como a do milagreiro, e sim a daquele através do qual são concedidas a graça e a verdade” (BULTMANN, Rudolf, Teologia do Novo Testamento. Pp.475-6).

Mas, o que podemos dizer sobre papel dos milagres de Cristo no entendimento da Cristologia do Novo Testamento? Se tomarmos por base que os milagres atestam Sua divindade, temos que elevar ao mesmo patamar os apóstolos após ele, por que também são registrados milagres operados por Deus mediados por eles. Por outro lado, não podemos descartar essa possibilidade, visto que em alguns dos registros que temos testemunha exatamente esse fato. Por isso, vamos observar as palavras que descrevem os atos milagrosos de Cristo, qualificá-los e então apontarmos sua contribuição.

Os Termos usados para descrever os milagres de Cristo

São basicamente três os termos usados para descrever ações sobrenaturais no Novo Testamento:

  • Téras: O uso neo-testamentário segue a LXX, onde é usado como um sinal divino que admoesta ou encoraja (Ex.7.3; Dt.4.34). Poderia ser traduzido como milagre. No NT o termo é normalmente traduzido como “prodígio” e não é exclusivo à uma ação sobrenatural operada pelo próprio Deus. Esse termo também descreve a ação de falsos profetas que também realizariam obras miraculosas (Mt.24.24; Mc.13.22) e á própria obra de Satanás (2Ts.2.9). Entretanto, o uso mais normal do termo descreve uma ação realizada por Deus por meio de alguém (At.2.22; 4.30 – Cristo; 5.12; 6.8 – Apóstolos) que causa o maravilhamento dos expectadores. Eventualmente expressa uma confirmação da pessoa por meio de quem o milagre é realizado (At.14.3; 15.12; 2Co.12.12). É somente usada no plural no NT e normalmente acompanhada da palavra grega para sinais (gr. semeion).
  • Semeion: Na LXX o termo semeion é usado para descrever todo acontecimento que aponta para Deus e sua disposição de auxiliar (Ex.7.3; 10.2; Nm.14.11; Dt.6.22; Sl.86.17). Eventualmente descrevem uma ação de autenticação profética da parte do Deus Todo-Poderoso (Ex.4.8-9; Sl.74.9; Is.8.18). No NT o termo descreve um milagre de origem divina, executado por Deus mesmo (At.2.19), por Cristo (Jo.2.11) ou por um homem de Deus (At.2.43). É um sinal que normalmente aponta para Deus ou ao Seu Filho. É o termos empregado por João para descrever as ações sobrenaturais do Filho de Deus como comprovação de sua Divindade.
  • Dunamis: Esse termo é de uso bem variado. Na LXX encontramos o termo com os seguintes significados: habilidade, capacidade (Dt.8.17), força (Dt.6.5), realização (Gn.21.22),  ato poderoso (Dt.3.24). De outro modo, também pode significar uma hoste, grupo de pessoas, exército (Ex.7.4; Nm1.3, 24). Esse mesmo termo é usado para descrever os milagres operados por Cristo nos sinóticos. É bem provável que o sentido esteja associado ao poder derivado do termo (Mt.24.30; 5.30; Mc.12.24) e autoridade dele decorrente (Lc.4.36). O exercício de poder de Cristo maravilhava as pessoas (Mt.13.54; Mc.6.2, 14; Lc.6.16) mas não era um modo de convencer as pessoas (Mt.13.58), pois, assim como seu ensino, suas ações estavam sujeitas ao entendimento das pessoas que, mesmo que testemunhassem o poder de Deus, não o entendiam como da parte de Deus (Mt.11.20-24).

Ao observarmos essas colocações podemos concordar com Goppelt quando diz: “Assim, os milagres são compreendidos como exteriorizações do poder de Deus, que provoca salvação na história e que conduz a salvação” (GOPPELT, Leonard, Teologia do Novo Testamento. Pp.168). Considerada a questão etimológica, passo a classificar os Milagres de Cristo

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