Cruz ou Estaca? O que diz a Sociedade Torre da Vigia?

Depois de considerar todas as evidências acima [nos posts anteriores], podemos responder à argumentação da Torre de Vigia, sociedade que publica os livros das Testemunhas de Jeová. Como já foi dito, as Testemunhas de Jeová argumentam que a cruz em algum ponto da história cristã, foi recebida como símbolo religioso, oriundo do paganismo. Para eles, o instrumento de tortura era uma estaca ou poste ereto.

Para defender esta posição geralmente argumentam sobre o significado das palavras usadas para descrever o instrumento de punição. Como já vimos no tópico sobre as evidências lingüísticas, as palavras crux, stauros e xulon eram usadas para este fim, geralmente indicando um instrumento de duas traves de madeira. No entanto, em publicações da Torre de Vigia, algumas citações são fornecidas de modo a mostrar que estas palavras significavam apenas um poste ereto, e que estas palavras não poderiam indicar nada diferente disto. Encontramos esta argumentação no livro Raciocínios à base das Escrituras, página 99.

A primeira citação é de The Imperial Bible-Dictionary, onde é dito:

No grego clássico, esta palavra significava meramente uma estaca reta, ou poste. Mais tarde, veio também a ser usada para uma estaca de execução com uma peça transversal. The Imperial Bible-Dictionary reconhece isso, dizendo: “A palavra grega para cruz, [stau-rós], devidamente significava uma estaca, um poste reto, ou pedaço de ripa, em que algo podia ser pendurado, ou que poderia se usado para estaquear [cercar] um pedaço de terreno…. Até mesmo entre os romanos a crux (da qual se deriva nossa cruz) parece ter sido originalmente um poste reto.”

Deve-se notar que aqui, a Torre de Vigia concorda que a cruz como conhecemos, foi usada como instrumento de execução, apesar de dizer que no grego clássico stauros significava apenas uma estaca. Resta definir melhor a que período de tempo eles querem dizer com “mais tarde”. Qualquer leitor desinformado acreditaria aqui que seria muito depois da crucificação de Cristo. Como já vimos este não é o caso. No entanto, nem precisamos recorrer ao que já foi dito acima, para responder este argumento. A Bíblia não foi escrita em grego clássico, e sim, em grego Koiné, que surgiu no ano de 300 A.C. Se a palavra em grego clássico teria mais tarde agregado o significado de cruz, quando o grego Koiné passou a ser usado, stauros já indicava um instrumento com duas traves. Como vimos antes, 300 A.C. é o ano que começamos a ver em escritos, referências à crucificação romana. Estranhamente, no apêndice da Tradução do Novo mundo com referências, a questão do grego clássico e do grego koiné é melhor explicada.

Além disto, a citação acima não parece estar completa. A citação completa do The Imperial Bible-Dictionary é:

A palavra grega para cruz, (stauros), significava propriamente uma estaca, um poste reto, ou pedaço de madeira, em que algo podia ser pendurado, ou que poderia se usado para estaquear (cercar) um pedaço de terreno. Mas uma modificação foi introduzida enquanto os próprios domínios e usos de Roma se estenderam às nações de fala grega. Até mesmo entre os romanos a crux (da qual se deriva nossa cruz) parece ter sido originalmente um poste reto. Mas do tempo que ele começou a ser usado como instrumento de punição, uma trave transversal era comumente adicionada… Cerca do período do Evangelho, a crucificação era normalmente executada suspendendo o criminoso em um pedaço de madeira em cruz.

Apesar de mencionar que stauros significaria cruz, a Torre de Vigia deixa de fora as partes da citação que comprovam isto. Em um lugar mencionam as diferenças entre o grego clássico e o koiné, em outro não. Tudo leva a crer que a sociedade Torre de Vigia elaborou estes artigos sem o menor rigor.

No mesmo livro, para fixar sua idéia sobre a tradução como estaca, citam o Greek-English Lexicon, de Liddell e Scott, comentando sobre a palavra xulon:

É digno de nota que a Bíblia emprega também a palavra xý-lon para identificar o instrumento usado. A Greek-English Lexicon, de Liddell e Scott, define isto como significando: “Madeira cortada e pronta para uso, lenha, madeiro, etc…. pedaço de pau, tora, viga, poste… porrete, cacete… estaca em que os crimisosos eram pregados… de madeira verde, árvore.” Diz também “no NT, da cruz”, e cita Atos 5:30 e 10:39 como exemplos.

Segundo a própria citação feita pela Torre de Vigia, xulon no Novo Testamento significa também cruz. Além disto, pelo dicionário percebemos que o termo xulon não define a forma, mas o material, que é a madeira. Este dicionário, no mesmo verbete, diz que xulon era empregado também para colares de madeira, colocados no pescoço de prisioneiros. Como exemplo, ele cita Atos 16:24. Por que isto não foi mencionado também? Talvez pelos mesmos motivos da citação anterior. Além disto, deixou-se de fora um comentário importante, que serviria para mostrar que xulon não define a forma do instrumento, apenas o material.

No apêndice da Tradução do Novo Mundo de 1950, declara-se que a palavra latina crux significava apenas estaca nos dias do historiador romano Livy (59 A.C.- 17 D.C.), segundo está citado abaixo:

“O fato que stauros era traduzido por crux nas versões latinas não fornece nenhum argumento contra [a doutrina da estaca de tortura]… Uma cruz é somente um significado posterior de crux. Mesmo nos dias de Livy, um historiador romano do primeiro século A.E.C., crux significava uma mera estaca” (pg. 770).

A Despertai de 22 de Junho de 1984 da mesma forma destaca:

“A palavra latina usada para o instrumento onde Cristo morreu era crux que, de acordo com Livy, um famoso historiador do primeiro século D.C. significava meramente uma estaca” (pg. 17). Finalmente a versão da Tradução do Novo Mundo publicada no mesmo ano diz: “Nos escritos de Livy, um historiador romano do primeiro século A.E.C., crux é uma mera estaca. ‘Cruz’ é um significado tardio de crux” (pg. 1577).

Note que a Torre de Vigia nunca cita nenhum texto de Livy para comprovar suas declarações. Mas uma análise cuidadosa das citações de Livy nos mostra que o historiador nunca usa a palavra crux da forma que a Sociedade diz. De acordo com a Concordância de Livy, feita por Packard, a palavra crux aparece, contando todas as suas formas, apenas 6 vezes em seus escritos (pg. 1011). Estas ocorrências são citadas abaixo em seu contexto:

“Assim ele chicoteou o guia, e para aterrorizar os outros, o crucificou (crucem sublato), e indo para o campo atrás das trincheiras, despachou Maharbal com a cavalaria” (22.13.9).

“Cinco e vinte escravos foram crucificados (crucem acti) acusados de terem conspirado no Campus Martius”(22.33.2).

“Ele imediatamente após isto… ordenou eles [oficiais de alto escalão] a serem castigados e crucificados(cruci adfigi). Então ele cruzou em seus navios para a ilha de Pityusa” (28.37.3).

“Os desertores foram tratados mais severamente que escravos rebeldes, cidadãos latinos sendo decapitados, romanos crucificados (crucem sublati)” (30.43.13).

“Alguns, que foram instigadores da revolta, ele castigou e crucificou (crucibus adfixit), outros ele os entregou para seus mestres.” (33.36.3).

“Nisto eu de minha parte deveria confiar minha própria causa mesmo que eu estivesse pleiteando, não ante o romano, mas ante o senado cartaginense, onde se diz que os comandantes são crucificados (crucem tolli) se eles conduzirem uma campanha vitoriosa mas uma política falha” (38.48.13).

Cada uma destas referências são diretas e desprovidas de detalhes sobre a forma de execução, nenhuma das afirmações indica a forma do instrumento usado. Quando Livy se refere à crux simplex, ele usa a palavra palus: “Presos a uma estaca (deligati ad palum) eles foram castigados e decapitados” (28.29.11; cf. também 26.13.15). Assim, este clamor não é verdadeiro.

Comumente a Torre de Vigia faz uma relação da cruz como um símbolo pagão. Assim, sugere-se que a cruz usada hoje é na verdade uma herança do paganismo. Para isto, citam livros como o dicionário de Vine, que será melhor analisado. A citação diz:

“A forma da [cruz de duas vigas] teve sua origem na antiga Caldéia e foi usada como símbolo do deus Tammuz (tendo a forma do Tau místico, a letra inicial do seu nome) naquele país e em terras adjacentes, inclusive no Egito. Por volta dos meados do 3º. Séc. A.D.,as igrejas ou se haviam apartado ou tinham arremedado certas doutrinas da fé cristã. A fim de aumentar o prestígio do sistema eclesiástico apóstata, aceitavam-se pagãos nas igrejas, à parte de uma regeneração pela fé, e permitia-se-lhes em grande parte reter seus sinais e símbolos pagãos. Assim se tornou o Tau ou T, na sua forma mais freqüente, com a peça transversal abaixada um pouco, para representar a cruz de Cristo.” – Na Expository Dictionary of New Testament Words (Londres, 1962), W. E. Vine, p. 256.

O grande problema na argumentação de Vine, é que a letra Tau que seria a letra inicial do nome de Tammuz, é uma letra grega, e Tammuz é um deus babilônico. A escrita é totalmente diferente, como pode ser visto na figura. O nome do deus Tammuz se divide em três partes: A primeira, que é a que mais se parece com uma cruz, na verdade apenas indica que o nome a seguir é um nome divino. Não é a primeira letra do nome de Tammuz. As outras duas partes é que são. A primeira letra, que seria a segunda parte, se pronuncia dumu, e a parte final se pronuncia zi. Também não foi encontrada referências à tal festividade mencionada por Vine. Assim, falta a comprovação daquilo que Vine diz em seu dicionário.

Neste ponto, Vine parece se basear na obra publicada em 1853, chamada “The two Babilons”, de Alexander Hislop. Ele foi um bispo anglicano, que escreveu este livro para estabelecer um vínculo entre o culto católico-romano, e cultos da antiga Babilônia. No entanto, ao fazer isto, Hislop comete algumas gafes, como não indicar referências, não se basear em estudos arqueológicos e fazer citações fora de contexto. Por isto, seu livro é muito criticado hoje, mas foi a base para qualquer pessoa que quisesse estabelecer um vínculo entre Roma e cultos pagãos. A Sociedade Torre de Vigia já citou muito este livro, no entanto, não tem o mais citado desde 1976. Hislop é o único escritor sobre o assunto, que descreve o “Tau místico”, sendo a letra inicial de seu nome.

Outra referência é o livro The Cross in Ritual, Architecture, and Art. A citação diz:

“É um fato estranho, contudo inquestionável, que nas eras muito anteriores ao nascimento de Cristo, e desde então, em terras intatas aos ensinos da Igreja, a Cruz tem sido usada como símbolo sagrado…. O Baco grego, o Tamuz tírio, o Bel caldeu e o Odin nórdico foram todos simbolizados pelos seus devotos por um instrumento cruciforme.” – The Cross in Ritual, Architecture, and Art (Londres, 1900), G. S. Tyack, p. 1.

Nota-se que o texto não diz que a cruz no cristianismo surgiu por causa destas influências, apenas estabeleceu semelhanças. Isto por si só não é o suficiente para provar nada. O mesmo diz a referência à Enciclopaedia Britannica, que diz:

“Encontraram-se diversos objetos, datando de períodos muito anteriores à era cristã, marcados com cruzes de feitios diferentes, em quase cada parte do mundo antigo. A Índia, a Síria, a Pérsia e o Egito produziram todos inúmeros exemplos… O uso da cruz como símbolo religioso em tempos pré-cristãos e entre povos não-cristãos pode provavelmente ser considerado como quase universal, e em muitíssimos casos ligava-se a alguma forma de culto da natureza.” – Enciclopaedia Britannica (1946), Vol. 6, p. 753.

Nas referências acima, não se estabelece uma relação entre os costumes cristãos e os costumes pagãos. Tudo que se mostra é que eram parecidos. Dizer que cristãos e pagãos possuem costumes iguais não prova que houve um empréstimo de costumes, como a Torre de Vigia quer mostrar. Para isto, eles devem mostrar que a cruz foi realmente um poste horizontal, e que com o tempo, cristãos mudaram sua forma. No entanto, baseando-se nas evidências fornecidas acima, rejeitamos este “empréstimo” como falso. O costume romano sempre foi de crucificar seus prisioneiros em uma crux compacta, composta de duas traves.

Tenta-se ainda relacionar o símbolo da cruz ansada à cruz usada por cristãos. Duas referências são dadas:

“A cruz na forma de ‘Cruz Ansada’ … era carregada nas mãos dos sacerdotes e reis-pontífices egípcios como símbolo de sua autoridade como sacerdotes do deus-Sol e era chamada ‘o Sinal da Vida’.” – The Worship of the Dead (Londres, 1904) Coronel J. Garnier, p. 226;

“Diversas gravuras de cruzes se acham em toda a parte nos monumentos e túmulos egípcios, e são consideradas por muitas autoridades símbolo ou do falo [uma representação do órgão sexual masculino] ou do coito…. Nos túmulos egípcios, a cruz ansada [cruz com um círculo ou uma asa em cima] se acha lado a lado com o falo.” – A Short History of Sex-Worship (Londres, 1940), H. Cutner, pp. 16, 17; veja também The Non-Chistian Cross, p. 183.

Note que as citações nem citam a cruz cristã. A cruz ansada tinha um formato muito diferente da cruz romana, e nunca foi usada como instrumento de tortura.

Outra citação interessante é a citação da Companion Bible:

“Usavam-se essas cruzes como símbolos do deus-sol babilônico, e são vistas pela primeira vez numa moeda de Júlio César, 100-44 A.C., e daí numa moeda cunhada pelo herdeiro de César (Augusto), em 20 A.C. Nas moedas de Constantino, o símbolo mais freqüente é ; mas o mesmo símbolo é usado sem o círculo ao redor, e com os quatro braços iguais, verticais e horizontais; e este era o símbolo especialmente venerado como a ‘Roda Solar’. Deve-se declarar que Constantino era um adorador de deus-sol, e não quis entrar na ‘Igreja’ senão cerca de um quarto de século depois da lenda de ter visto tal cruz nos céus.” – The Companion Bible, Apêndice No. 162; veja também The Non-Christian Cross, pp. 133-141.

A obra The Companion Bible possui vários erros, o que nos impede de tomar este trabalho como sério. Entre seus erros, podemos citar o que ela diz sobre a palavra xulon:

O xulon, que geralmente denota um pedaço de pau ou madeira morta, ou lenha, para combustível ou qualquer outro propósito. Não é como dredon, que é usado para uma árvore viva ou verde, como em Mateus 21:8; Apocalipse 7:1,3; 8:7; 9:4, etc.

O autor não demonstra ter conhecimento sobre as palavras que tenta explicar, já que xulon é usada para uma árvore viva ou verde, nos seguintes textos:

(Lc 23:31)  Porque, se isto se faz no lenho verde, que se fará no seco?

(Ap 2:7) Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas. Ao que vencer, dar-lhe-ei a comer da árvore da vida, que está no paraíso de Deus.

(Ap 22:2) No meio da sua praça, e de ambos os lados do rio, estava a árvore da vida, que produz doze frutos, dando seu fruto de mês em mês; e as folhas da árvore são para a cura das nações.

(Ap 22:14) Bem-aventurados aqueles que lavam as suas vestes [no sangue do Cordeiro] para que tenham direito à arvore da vida, e possam entrar na cidade pelas portas.

Assim como o autor acima cometeu este erro, ele comete mais um: desconhece todas as referências à crucificação no mundo antigo. Tanto que ele afirma depois que:

Ela [stauros] nunca significou dois pedaços de madeira pregados cruzados em qualquer ângulo, mas sempre um pedaço apenas. Conseqüentemente o uso da palavra xulon (Número 2 acima) em conexão com a forma da morte de nosso Senhor, e traduzida por “árvore” em Atos 5:30; 10:39; 13:29; Gálatas 3:13; 1 Pedro 2:24. Isto é preservado no nosso velho Inglês rood, ou rod. Veja a  Enciclopédia Britânica, 11th (Camb.) ed., volume 7, página 505d.

No entanto, vimos acima que existem várias referências usando stauros, onde o autor indica o uso de mais de um pedaço de madeira. Este apêndice parece se basear na obra de John Denham Parsons, que comentaremos adiante. Inclusive, parece que há cópias de partes desta obra. O texto abaixo é o texto original da Companion Bible:

“Our English word ‘cross’ is the translation of the Latin crux; but the Greek stauros no more means a crux than the word ‘stick’ means a ‘crutch’. Homer uses the word stauros of an ordinary pole or stake, or a single piece of timber.  And this is the meaning and usage of the word throughout the Greek classics…. It should be noted, however, that these five references of the Bible to the execution of Jesus as having been carried out by his suspension upon either a tree or a piece of timber set in the ground, in no wise convey the impression that two pieces of wood nailed together in the form of a cross is what is referred to. Moreover, there is not, even in the Greek text of the Gospels, a single intimation in the Bible to the effect that the instrument actually used in the case of Jesus was cross-shaped” (Companion Bible, Appendix #162).

A seguir, um trecho do primeiro capítulo do livro de John Denham Parsons, The non-Christian Cross, no texto original:

“Now the Greek word which in Latin versions of the New Testament is translated as crux, and in English versions is rendered as cross, i.e., the word stauros, seems to have, at the beginning of our era, no more meant a cross than the English word stick means a crutch. It is true that a stick may be in the shape of a crutch, and that the stauros to which Jesus was affixed may have been in the shape of a cross. But just as the former is not necessarily a crutch, so the latter was not necessarily a cross. What the ancients used to signify when they used the word stauros, can easily be seen by referring to either the Iliad or the Odyssey. It will there be found to clearly signify an ordinary pole or stake without any cross-bar. And it is as thus signifying a single piece of wood that the word in question is used throughout the old Greek classics….It never means two pieces of timber placed across one another at any angle, but always of one piece alone….There is nothing in the Greek of the New Testament even to imply two pieces of timber” (Parsons, The Non-Christian Cross, from chapter 1, “Was the Stauros of Jesus Cross-Shaped?”).

O trabalho de Parsons é interessante em muitos aspectos. A Sociedade Torre de Vigia o cita várias vezes. Parece que ele é a fonte para o clamor que Livy define o formato da cruz. No livro de Parsons, encontramos o seguinte:

“É portanto notável que mesmo esta palavra latina ‘crux’, de onde derivamos nossa palavra cruz e crucificar não necessariamente em dias antigos indicava algo em forma de cruz, e parece ter tido pouca diferença de significado do que seu significado original. Uma referência, por exemplo, aos escritos de Livy, mostrarão que em sua época a palavra crux, seja o que poderia significar, significava um simples pedaço de madeira ou pau, ele o usa neste sentido”. (Parsons, The Non-Christian Cross, do capítulo 2, “A evidência de Minucius Felix”).

No entanto, a referência fornecida por Parsons é de “Livy, xxviii. 29”. Este texto é o mesmo citado acima, que usa a palavra palus, não crux: “Presos a uma estaca (deligati ad palum) eles foram castigados e decapitados”. Portanto, Parsons cita Livy mas desconhece qual a palavra usada por este autor.

Parsons também cita Luciano:

“A luz lateral jogada sobre a questão por Luciano vale a pena ser lembrada. Este escritor, se referindo a Jesus, alude a ‘Aquele sofista deles que foi preso a um skolops’, cuja palavra significa um simples pedaço de madeira, não dois pedaços juntos.”

Esta é uma citação de De Morte Peregrini, e Parsons não se dá conta de que o verbo citado aqui por ele é o mesmo usado em Lis Consonantium, 12, para se referir a um instrumento formado por dois pedaços de madeira.

Parsons, apesar de fazer uma análise de todo o testemunho patrístico, deixa muito a desejar em sua análise. Qualquer citação dos pais da igreja, ele pré-determina que são reflexos da influência pagã. Para isto, ele aponta o fato de que os pais se concentravam mais na figura da cruz do que no que a morte de Cristo significava, o que indicaria uma idolatria. Parsons parece se esquecer, que os pais antes de Constantino, escreviam obras apologéticas. Elas visavam a defesa do cristianismo, portanto, se os pais da Igreja defendessem o uso da cruz na morte de Cristo, e os romanos realmente não usassem cruzes em suas crucificações, então estes pais da Igreja seriam ridicularizados perante todo o império.

Parsons ainda reconhece que Ireneu estava próximo dos apóstolos. No entanto, cita um trecho de Contra Heresias para demonstrar que Ireneu não tinha muita informação sobre a morte de Cristo:

“O que Ireneu diz a respeito de Jesus é:

‘Eis por que passou por todas as idades, tornando-se criança com as crianças… da mesma forma se tornou velho entre os velhos, para ser em tudo o mestre perfeito, não somente quanto à exposição da verdade, mas também quanto à idade, santificando ao mesmo tempo os velhos e tornando-se também modelo para eles. E chegou até a morte… dos quarenta aos cinqüenta declina na senilidade. Era nesta idade que nosso Senhor ensinava, como o atesta o Evangelho e todos os presbíteros da Ásia que se reuníram em volta de João, o discípulo do Senhor, que ficou com eles até os tempos de Trajano, afirmam que João lhes trasmitiu esta tradição. Alguns destes presbíteros que viram não somente João, mas também outros apóstolos e os ouviram dizer as mesmas coisas, testemunham isso tudo. Em quem mais devemos acreditar: nesses presbíteros ou em Ptolomeu, que nunca viu os apóstolos e sequer em sonhos seguiu algum deles?’

O leitor deve decidir por si mesmo se Ireneu acreditou que Jesus nunca foi executado; ou se ele foi executado e sobreviveu; ou se ele nasceu quando supomos, mas executado trinta ou mais anos depois do que supomos; ou então, que apesar de ser executado quando supomos, era um homem velho, e nasceu não no começo, meio ou fim do ano 1 D.C, ou 4 A.C, ou qualquer outra data ortodoxa, mas trinta anos ou mais antes do que chamamos nossa era. De qualquer forma, ele não menciona nem cruz nem execução, e aqui parece assumir que Jesus morreu de morte natural. E em qualquer caso o fato se mantém, que por mais errado que possa estar, Ireneu diz que Jesus chegou à velhice, e disse enfaticamente.

Mesmo admitindo que Ireneu possa estar errado, sua evidência não afeta em nada um dos mais importantes pontos debatidos neste trabalho. Pois está claro que mesmo que ele soubesse um pouco sobre a execução de Jesus, os detalhes desta execução não podem ser particularmente conhecidos; e a afirmação que o stauros que Jesus foi afixado tinha uma barra horizontal pregada nele não está fundamentada em fatos, e pode ter surgido de um desejo de ligar Jesus com um bem conhecido e largamente venerado símbolo da vida, a cruz pré-cristã.”

Assim, Parsons tenta demonstrar que Ireneu desconhecia os detalhes da morte de Cristo. Isto é falso, e já vimos uma citação de Ireneu acima, onde ele deixa bem claro que o instrumento de morte usado por Cristo é composto de uma barra horizontal.

Além disto, a citação de Parsons está incompleta. A citação completa mostra outra realidade:

Eis por que passou por todas as idades, tornando-se criança com as crianças, santificando as crianças; com os adolescentes se fez adolescente, santificando os que tinham esta mesma idade e tornando-se ao mesmo tempo para eles o modelo de piedade, de justiça e de submissão. Jovem com os jovens, tornou-se seu modelo e os santificou para o Senhor; da mesma forma se tornou adulto entre os adultos, para ser em tudo o mestre perfeito, não somente quanto à exposição da verdade, mas também quanto à idade, santificando ao mesmo tempo os adultos e tornando-se também modelo para eles. E chegou até a morte para ser o primogênito entre os mortos e ter a primazia em tudo, o iniciador da vida, anterior a todos e precedendo a todos.

… Quando foi receber o batismo ainda não completara trinta anos, tinha apenas entrado nos trinta – Lucas, de fato, indica a idade do Senhor com estas palavras: “Jesus estava quase começando os trinta anos quando foi ao batismo” –  e depois do batismo pregou somente durante um ano, completando os trinta anos sofreu a paixão, quando ainda era homem jovem e não tinha ainda atingido uma idade avançada. Todos estão de acordo que trinta anos é a idade de homem ainda jovem, idade que se estende até os quarenta; dos quarenta aos cinqüenta declina na senilidade. Era nesta idade que nosso Senhor ensinava, como o atesta o Evangelho e todos os presbíteros da Ásia que se reuníram em volta de João, o discípulo do Senhor, que ficou com eles até os tempos de Trajano, afirmam que João lhes trasmitiu esta tradição. Alguns destes presbíteros que viram não somente João, mas também outros apóstolos e os ouviram dizer as mesmas coisas, testemunham isso tudo. Em quem mais devemos acreditar: nesses presbíteros ou em Ptolomeu, que nunca viu os apóstolos e sequer em sonhos seguiu algum deles?”

Como vimos, Ireneu de fato afirma que Jesus morreu jovem, e Parsons esconde isto. Os detalhes são conhecidos sim, e como Ireneu atesta, a cruz com dois postes de madeira foi usada no caso de Jesus.

Voltando a discutir as referências feitas pela Sociedade Torre de Vigia, temos mais citações de seu livro “Raciocínios à base das escrituras”:

No antigo Israel, os judeus infiéis choravam a morte do falso deus Tamuz. Jeová falou a respeito do que faziam como sendo ‘coisa detestável’. (Eze. 8:13, 14) Segundo a história, Tamuz era um deus babilônio, e a cruz era usada como símbolo dele. Babilônia, desde seu início, nos dias de Ninrode, era contra Jeová e inimiga da adoração verdadeira. (Gên. 10:8-10; Jer. 50:29) Portanto, quando alguém preza a cruz, está honrando um símbolo de adoração que é contra o verdadeiro Deus.

Dizem ainda:

Conforme declarado em Ezequiel 8:17, os judeus apóstatas também ‘estenderam o rebento ao nariz de Jeová’. Isto lhe era ‘detestável’ e ‘ofensivo’. Por quê? Este “rebento”, segundo explicam alguns comentaristas, era uma representação do órgão sexual masculino, usado na adoração fálica.

Vimos acima, que o relacionamento do culto a Tamuz e a cruz não está provado. Grande parte dos textos não relacionam os símbolos de cruzes de povos pagãos, e os que fazem sequer apresentam uma evidência conclusiva. Tanto estes autores quanto a Torre de Vigia ignoram os escritos apresentados no início deste texto, a respeito da crucificação. A tentativa de relacionar paganismo com o formato da cruz usado pelos cristãos é uma tentativa de preencher a falta de evidências que comprovem que a cruz usada no caso de Cristo seria uma crux simplex. Sobre o simbolismo pagão da cruz, vamos citar finalmente um texto bíblico, que a grande maioria das Testemunhas de Jeová desconhecem:

E disse-lhe o SENHOR: Passa pelo meio da cidade, pelo meio de Jerusalém, e marca com um sinal as testas dos homens que suspiram e que gemem por causa de todas as abominações que se cometem no meio dela. E aos outros disse ele, ouvindo eu: Passai pela cidade após ele, e feri; não poupe o vosso olho, nem vos compadeçais. Matai velhos, jovens, virgens, meninos e mulheres, até exterminá-los; mas a todo o homem que tiver o sinal não vos chegueis; e começai pelo meu santuário. E começaram pelos homens mais velhos que estavam diante da casa. – Ezequiel 9.4-6

O sinal dito em negrito é, no hebraico, a letra Taw, que no hebraico antigo, tinha a forma de cruz, e que Vine acima diz que era símbolo de Tammuz. Assim, neste texto, os verdadeiros adoradores são marcados com um Taw, fato que Tertuliano no século 3 D.C. chama a atenção. Este texto mostra que para os autores bíblicos, o Taw ou o símbolo da cruz não possui esta carga de paganismo que a Torre de Vigia tenta mostrar, e que Vine tenta defender.

Depois de tantos argumentos comparando a cruz com cultos pagãos, será que a Torre de Vigia está disposta a viver aquilo que prega?

Entre os deuses cananeus, existia uma deusa chamada de Asherat. A palavra asherat também indicava postes ou árvores sagradas colocadas perto de altares para venerar a deusa mãe Asherah. Na Bíblia, Deus faz grande oposição a estes postes, mandando serem cortados. Alguns exemplos:

(Ex 34:13)  Mas os seus altares derrubareis, e as suas colunas quebrareis, e os seus aserins cortareis.

(De 7:5)  Mas assim lhes fareis: Derrubareis os seus altares, quebrareis as suas colunas, cortareis os seus aserins, e queimareis a fogo as suas imagens esculpidas.

(De 12:3)  e derrubareis os seus altares, quebrareis as suas colunas, queimareis a fogo os seus aserins, abatereis as imagens esculpidas dos seus deuses e apagareis o seu nome daquele lugar.

(De 16:21)  Não plantarás nenhuma árvore como asera, ao pé do altar do Senhor teu Deus, que fizeres,

(Jz 3:7)  Assim os filhos de Israel fizeram o que era mau aos olhos do Senhor, esquecendo-se do Senhor seu Deus e servindo aos baalins e às aserotes.

(Jz 6:25)  Naquela mesma noite, disse o Senhor a Gidão: Toma um dos bois de teu pai, a saber, o segundo boi de sete anos, e derriba o altar de Baal, que é de teu pai, e corta a asera que está ao pé dele.

(Jz 6:26)  Edifica ao Senhor teu Deus um altar no cume deste lugar forte, na forma devida; toma o segundo boi, e o oferece em holocausto, com a lenha da asera que cortares

(1 Re 16:33)  também fez uma asera. De maneira que Acabe fez muito mais para provocar à ira o Senhor Deus de Israel do que todos os reis de Israel que o antecederam.

(2 Re 17:10)  Levantaram para si colunas e aserins em todos os altos outeiros, e debaixo de todas as árvores frondosas;

E o que Tertuliano disse no passado, é escutado hoje:

“Se alguns de vós pensais que rendemos adoração supersticiosa à cruz, nessa adoração estais compartilhando conosco. Se dais homenagem a uma peça de madeira, importa pouco qual ela seja, porque a substância é a mesma: a forma é diferente, se nela tendes, de fato, o corpo de Deus. Entretanto, quão diferente é do madeiro da cruz Palas Atenas ou Ceres, quando levantadas para venda numa simples estaca bruta, peça de madeira sem forma!? Cada estaca fixada em posição vertical é um pedaço da cruz. Nós rendemos nossa adoração, se quereis assim, a um Deus inteiro e completo.” Apologia, 16.

Bem, demonstrado a existência de adoração a postes, inclusive com referências bíblicas contra isto, perguntamos: adotar a estaca como instrumento de punição para Cristo não seria o mesmo que adotar a cruz? Será que a Torre de Vigia estaria disposta a abandonar este formato para o stauros por causa desta relação com cultos pagãos?

Ainda existem comentários sobre os costumes dos primeiros séculos. Eles são:

É de interesse o seguinte comentário na New Catholic Encyclopedia: “A representação da morte redentora de Cristo no Gólgota não ocorre na arte simbólica dos primeiros séculos cristãos. Os cristãos primitivos, influenciados pela proibição de imagens esculpidas do Velho Testamento, relutavam em representar até mesmo o instrumento da Paixão do Senhor.” – (1967), Vol. IV, p. 486.; e: Concernente aos cristãos do primeiro século, a obra History of the Christian Church diz: “Não se usava o crucifixo e nenhuma representação material da cruz.” – (Nova Iorque, 1897), J. F. Hurst, Vol. I, p366.

Devemos lembrar, que mesmo não tendo o costume de representar o instrumento da morte de Cristo, ninguém negava que o instrumento era composto de duas vigas, fato este demonstrado nos escritos dos primeiros cristãos, e que estão citados acima.

Outro argumento usado também é apelar para o lado emotivo da pessoa. É dito que:

Como se sentiria se um amigo seu muito prezado fosse executado à base de acusações falsas? Faria uma réplica do instrumento de execução? Será que o prezaria, ou, antes, o evitaria?

Provavelmente qualquer um vai concordar com a Torre de Vigia, que não faz sentido prezar o instrumento usado para matar um ente querido. No entanto, o assunto principal não é fazer uma réplica do instrumento, mas qual seria o instrumento. Se pensarmos pelo nosso lado, tudo faria sentido. No entanto, também faria sentido abandonar a Ceia do Senhor, pois é uma comemoração da morte de Cristo. Quem comemoraria a morte de um ente querido? Se devemos rejeitar assim o instrumento usado na morte de Cristo, por que Paulo diz:

(1Co 1:18)  Porque a palavra da cruz é deveras loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus.

(Gal 6:14)  Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo.

Por que Paulo se gloria na cruz de Cristo, enquanto a sociedade Torre de Vigia incentiva seus fiéis a evitá-la? Certamente, há alguma coisa errada no ensino deles.

Sobre a passagem de Jo 21:18,19, a Torre de Vigia fez um comentário. Na Sentinela de 15 de Dezembro de 1971, o seguinte texto foi publicado nas “Questões dos leitores”:

“O antigo historiador Eusébio reportou que Pedro ‘foi crucificado de cabeça para baixo, pedindo para sofrer desta forma.’ Contudo, a profecia de Jesus não foi tão específica. Diz A Catholic Commentary on Holy Scripture: ‘Como a extensão das mãos é colocada antes de cingir e ser levado, é difícil discernir como foi concebido. Se a ordem é parte da profecia, nós devemos supor que o prisioneiro é preso ao patibulum antes de ser cingido e ser levado para a execução’.

Então, se não fosse pela tradição escrita por Eusébio, a declaração de Jesus não seria interpretada como uma morte por crucificação ou impalamento. Vendo as palavras de João 21:18, 19 sem a tradição, nós tiraríamos a seguinte conclusão: em sua juventude Pedro era capaz de se cingir à vontade para qualquer coisa que quisesse fazer. Ele tinha a liberdade de ir onde queria. Mas em sua vida posterior isto mudaria. Ele teria que estender suas mãos, talvez em submissão a alguma pessoa. Outra pessoa teria controle sobre ele, cingindo Pedro (ou o prendendo ou o preparando para algo porvir) e o levando para um lugar que ele não queria ir, evidentemente o lugar de sua execução. Assim a profecia de Jesus sobre Pedro realmente indicava a morte como mártir, mas a maneira não é implicada.” (p. 768)

No entanto, a citação acima está incompleta. O que o Catholic Commentary on Holy Scripture diz, é:

“As palavras tem algo da misteriosa obscuridade da profecia. Em contraste com a liberdade da juventude de Pedro (se cingindo e andando onde queria), é definido este futuro evento misterioso na velhice de Pedro. Se a contrapartida contém apenas dois termos, a saber, cingir-se por outros, como um velho é ajudado a se vestir, e ser levado a um lugar não naturalmente desejado (um lugar de execução), a profecia prevê somente uma morte violenta, não o modo de morte por crucificação. A extensão das mãos deve ser portanto o termo especificamente correspondente à crucificação, mas como a extensão das mãos é colocada antes de cingir e ser levado, é difícil discernir como foi concebido. Se a ordem é parte da profecia, nós devemos supor que o prisioneiro é preso ao patibulum antes de ser cingido e ser levado para a execução. João escrevendo depois da morte de Pedro nota que Jesus disse isto ‘significando por que tipo de morte ele iria glorificar a Deus’.”

Como vimos, o comentário na verdade diz que o “estender das mãos”, aquela velha e conhecida expressão, é que define o tipo de morte a qual Jesus estava se referindo. Ao contrário do que a Torre de Vigia quer provar, o comentário define sim o tipo de morte.

Sobre o testemunho patrístico, o que se sabe é que a Sociedade o discutiu apenas uma vez. É na Despertai de 22 de novembro de 1976:

“Mas escritores do início da Era cristã não clamam que Jesus morreu em uma cruz? Por exemplo, Justino Mártir (114-167 C.E.) descreveu nesta forma o que ele achava ser o tipo de estaca onde Jesus morreu: ‘Pelo que uma trave é colocada ereta, de onde a extremidade mais alta é erguida como um chifre, quando a outra trave é encaixado nele, e as pontas aparecem em ambos os lados como chifres juntos no outro chifre.’ Isto indica que Justino mesmo achava que Jesus morreu em uma cruz.

Contudo, Justino não foi inspirado por Deus, como os escritores da Bíblia. Ele nasceu mais de oitenta anos depois da morte de Jesus, e não foi uma testemunha ocular do evento. Acredita-se que ao descrever a cruz, Justino seguiu um escrito anterior conhecido como “A carta de Barnabé”. Esta carta não-bíblica clama que a Bíblia descreve Abraão como tendo circuncidado trezentos e dezoito homens de sua casa. Então ele deriva significado especial de uma cifra de letras gregas para 318, a saber, IHT. O escritor deste trabalho apócrifo clama que IH representa as duas primeiras letras para Jesus em grego. O T é visto como o formato da estaca de morte de Jesus.

Sobre esta passagem, M’Clintock and Strong’s Cyclopaedia diz:

‘O escritor evidentemente desconhecia as Escrituras Hebraicas, e também cometeu o erro de supor que Abraão estava familiarizado com o alfabeto grego alguns séculos antes dele existir.’ Um tradutor desta carta de Barnabé para o inglês apontou que ela ‘possui inúmeros erros, interpretações frívolas e absurdas das Escrituras’ e ‘tolas bazofias de conhecimento superior que o escritor tolera’. Você confiaria em tal escritor, ou pessoas que o seguiram, para prover informação sobre a estaca onde Jesus morreu? (p. 27).”

O argumento é que tais escritores não são inspirados. Mas será que os escritores que a sociedade Torre de Vigia cita para dar suporte à sua doutrina da estaca de tortura são autores inspirados? Justino Mártir  nasceu oitenta anos depois da morte de Cristo, os autores citados por eles nasceram mais de 1800 anos depois.

Em momento algum considera-se estes escritores como inspirados. Estes autores são citados para demonstrar qual era o sentido da palavra stauros naquela época, e como o stauros era. Eles fazem parte da evidência histórica, portanto, não se discute aqui a validade da interpretação alegórica da carta de Barnabé, por exemplo. O que se discute é que esta carta, escrita pouco tempo depois da morte de Cristo, afirma que o instrumento usado é uma cruz, quando a sociedade Torre de Vigia nega isto.

Dificilmente há uma ligação entre Justino e a carta de Barnabé. Os tipos usados pelos dois são diferentes, sendo um os chifres e o outro a circuncisão.

 

Conclusão

Chegamos ao final da análise das argumentações relacionadas com a crucificação, e se o instrumento usado era uma crux simplex ou uma crux compacta. Acreditamos então que, devido a tantas evidências disponíveis, o instrumento de punição usada para nosso Senhor Jesus Cristo foi um instrumento composto de duas traves de madeira, assim como sempre se creu.

Provavelmente com o intuito de diferenciar-se de outras denominações cristãs, a Sociedade Torre de Vigia adotou algumas práticas bastante diferentes. Entre elas, a mudança do formato do stauros. Assim, podem alegar com mais facilidade que estão separados do mundo.

No entanto, separar do mundo é não se deixar envolver pelo mundo. Estas pessoas demonstram não estar realmente separadas do mundo, pois falharam em seguir os ensinamentos de Cristo, e agora criam doutrinas que o mundo não seguiria. É desta forma que acabam sendo únicos.

É muito curioso que nas representações da cruz, os católicos geralmente a representam com Cristo crucificado. Isto para eles simboliza os sofrimentos que Cristo passou por todos nós. Os protestantes costumam representá-la como uma cruz vazia, simbolizando a ressurreição de Cristo. Testemunhas de Jeová representam ela com uma trave apenas, talvez simbolizando a obra incompleta de Cristo, que eles ainda tem que completar, observando ordenanças do tipo “não creiais que Cristo morreu em uma cruz”.

 

Esse post provém de parte do artigo de Gustavo Souteras Barbosa, publicado no e-cristianismo sob o título: Com quantos paus se faz uma stauros? – O artigo foi gentilmente cedido pelo autor para ser publicado neste blog. Algumas alterações de forma foram feitas ao original, mas o conteúdo mantém-se o mesmo.

 

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Cruz ou estaca? O que dizem os Pais da Igreja?

Finalmente, vamos ver como o instrumento de punição de Cristo era retratado pelos próprios escritores cristãos. É importante tratar deste assunto, para verificarmos como os cristãos até o ano de 325 D.C. entendiam ser o formato da cruz. Assim, demonstramos que alguns que tentam indicar Constantino como o criador do formato atual da cruz estão errados.

Cronologicamente, o primeiro escrito cristão sobre a cruz é a carta de Pseudo-Barnabé. Esta carta foi escrita entre 70 D.C e 135 D.C. Ali, encontramos as primeiras tentativas de interpretar as Escrituras Hebraicas como apontando para Cristo, fora da Bíblia. Assim, vemos as citações:

“Filhos do amor, aprendei mais particularmente estas coisas: Abraão, praticando por primeiro a circuncisão, circuncidava porque o Espírito dirigia profeticamente seu olhar para Jesus, dando-lhe o conhecimento das três letras. Com efeito, ele diz: “E Abraão circuncidou entre os homens de sua casa trezentos e dezoito homens.” Qual é, portanto, o conhecimento que lhe foi dado? Notai que ele menciona em primeiro lugar os dezoito e depois, fazendo distinção, os trezentos. Dezoito se escreve: I, que vale dez, e H, que representa oito. Tens aí: IH(sous) = Jesus. E como a cruz (ho stauros) em forma de T devia trazer a graça, ele menciona também trezentos (= T). Portanto, ele designa claramente Jesus pelas duas primeiras letras e a cruz (ton stauron) pela terceira. Quem depositou em nós o dom do seu ensinamento sabe bem disto: Ninguém recebeu de mim ensinamento mais digno de fé. Sei, porém, que vós sois dignos.” (Barnabé 9:7-8)

Na citação acima, o escritor da carta de Barnabé claramente atribui o formato do stauros à letra grega tau (T). Deixando de lado a interpretação alegórica do texto, vemos que o autor naquela época concorda com outros autores já vistos: que a palavra stauros indica um instrumento composto de duas traves. Da mesma forma, em outro lugar, o mesmo autor escreve:

“Da mesma forma, é sobre a cruz (tou staurou) que ele fala por meio de outro profeta… Ele ainda fala a Moisés, quando Israel é atacado pelos povos estrangeiros, para lembrar-lhes, nesse combate, que era pelos pecados deles que estavam sendo entregues à morte. Falando ao coração de Moisés, o Espírito lhe fez representar a figura da cruz (tupon stauron) e de quem sofreria, pois, diz ele, se não esperarem nele, serão eternamente atacados. Então Moisés amontoou as armas no meio do combate e, de pé, no lugar mais alto de todos, estendeu os braços (exeteinen tas kheiras), e assim Israel venceu novamente. Em seguida, cada vez. que os abaixava, os israelitas sucumbiam outra vez.” (Barnabé 12:1-2)

 

“Por meio de outro profeta, ele diz ainda: “O dia inteiro estendi meus braços (exepetasa tas kheiras) para um povo desobediente e que se opõe ao meu justo caminho.” Outra vez ainda, no momento em que Israel sucumbia, Moisés fez prefiguração de Jesus (tupon tou Iésou), mostrando que ele devia sofrer, e justamente aquele que acreditavam estar morto na cruz, haveria de dar a vida.” (Barnabé 12:4-5)

Percebe-se o uso da expressão “estender as mãos”, para simbolizar o formato da cruz, e também a forma que os homens eram fixados a ela. Aqui também vemos uma demonstração de como o formato da cruz era entendido pelos cristãos antigos. Este escritor viveu em uma época que a crucificação ainda existia. Se a cruz não tivesse o formato que ele alega ter, estas passagens acima perdem seu valor.

Depois de pseudo-Barnabé, temos o escritor cristão Justino Mártir. Ele viveu entre os anos de 148 a 161 D.C. Sobre a crucificação, em seus escritos, encontramos:

“Como Cristo depois de seu nascimento viveu oculto de outros homens até crescer e se tornar um adulto, como também aconteceu, escutem as predições que se referem a isto. Aqui está: ‘Uma criança nos nasceu, e um jovem nos é dado, e o governo estará sobre seus ombros’ testificando o poder do stauros, que quando crucificado levou sobre os ombros, que será mostrado mais claramente à medida que o argumento avançar. De novo, o mesmo profeta Isaías, inspirado pelo Espírito profético, disse: ‘eu estendi as mãos para um povo desobediente e contraditório’… Mas Jesus estendeu as mãos quando foi crucificado pelos judeus, que o contradiziam e negavam que ele era o Cristo”. (Primeira Apologia, 35)

Vemos duas coisas interessantes acima. Primeiro, uma alusão ao costume de carregar o patibulum. Jamais o poste horizontal poderia ser carregado sobre os ombros, como se carregaria o patibulum. Depois, vemos novamente o uso da expressão “estender as mãos”, muito comumente aplicado à crucificação, não somente por cristãos, mas por vários escritores. Provavelmente era uma expressão comum. Ainda temos mais textos de Justino:

“Mas a crucificação nunca foi imitada pelos chamados filhos de Zeus, pois eles não a entendiam, como era explicada, já que tudo dito sobre ela foi expressamente simbólico. Mas, como o profeta previu, o stauros é o grande símbolo de seu poder e autoridade, como [pode] ser mostrado de coisas que você pode ver. Reflita sobre todas as coisas no universo [e considere] se eles poderiam ser governados ou mantidos unidos sem esta figura. Pois o mar não pode ser atravessado sem o sinal da vitória, que eles chamam de vela, que permanece fixo no navio, a terra não é arada sem ele, de forma similar escavadores e artífices não fazem seu trabalho sem ferramentas com sua forma. A figura humana difere dos animais irracionais exatamente por que o homem pode se levantar e estender as mãos, e tem na sua face, estendido de sua testa, o que é chamado nariz, por onde vai a respiração para o ser vivo, e exibe precisamente a figura de um stauros”. (Primeira Apoligia, 55).

Aqui, como no escrito de  Artemidorus Daldianu, o formato da cruz é comparado com um dos componentes do navio. Ainda há comparações com outros formatos de objetos.

“Na discussão da natureza do Filho de Deus, Timaeus de Platão, quando diz, “Ele o colocou como um X no universo”, isto foi de forma similar emprestado de Moisés. Pois está escrito nas Escrituras de Moisés que… Moisés pegou bronze e fez a forma do stauros… Platão lendo isto e não entendendo claramente, não se dando conta que era a forma do stauros, mas achando que era [a letra] Chi, disse que o poder próximo a Deus se assentou em forma de Chi no universo.” (Primeira Apologia, 60)

O texto acima estabelece uma relação explícita entre o stauros e a letra grega Chi (X). Novamente define-se o stauros como um instrumento composto de duas traves, não uma. Seguindo com suas citações temos ainda:

“O próprio Moisés, estendendo ambas as mãos, orou a Deus por ajuda. Agora Hur e Aarão sustentam suas mãos todo o dia, para ele não se cansar e não deixa-las cair ao seu lado. Por que se Moisés deixasse de mostrar este sinal, que é uma figura do stauros, as pessoas seriam derrotadas (como Moisés atesta), mas enquanto se mantinha naquela posição Amaleque foi derrotado, e o forte derivou sua força do stauros… enquanto o nome de Jesus estava na frente de batalha (em Josué), Moisés formava o sinal do stauros”. (Diálogo com Trifo, 90).

Aqui, temos mais uma vez a expressão “estender as mãos” aplicada à crucificação. Finalmente, de Justino, temos a citação:

“E Deus por Moisés mostrou de outra forma a força do mistério da cruz, quando Ele disse na bênção com que José foi abençoado, ‘Bendita do SENHOR seja a sua terra, com o mais excelente dos céus, com o orvalho e com o abismo que jaz abaixo. E com os mais excelentes frutos do sol, e com as mais excelentes produções das luas, e com o mais excelente dos montes antigos, e com o mais excelente dos outeiros eternos. E com o mais excelente da terra, e da sua plenitude, e com a benevolência daquele que habitava na sarça, venha sobre a cabeça de José, e sobre o alto da cabeça daquele que foi separado de seus irmãos. Ele tem a glória do primogênito do seu touro, e os seus chifres são chifres de rinoceronte; com eles rechaçará todos os povos até às extremidades da terra; estes pois são os dez milhares de Efraim, e estes são os milhares de Manassés.’(Dt 33:13-17) Agora, ninguém poderia dizer ou provar que os chifres de um rinoceronte representam nenhum outro fato ou figura que o tipo que retrata a cruz. Pelo que uma trave é colocada ereta, de onde a extremidade mais alta é erguida como um chifre, quando a outra trave é encaixado nele, e as pontas aparecem em ambos os lados como chifres juntos no outro chifre. E a parte que é fixa no centro, onde são suspensos os crucificados, também sobressai como um chifre, e ele parece como um chifre unido e fixado com os outros chifres.” (Diálogo com Trifo, 91)

Aqui, Justino dá uma explicação detalhada de como o stauros era composto. Somado à sua comparação com a letra Chi acima, e com os vários usos da expressão “estender as mãos”, podemos ver que Justino usava a palavra stauros aplicando-a a um instrumento de duas traves de madeira.

Depois de Justino, podemos ver os escritos de Ireneu, bispo da cidade de Lião, que viveu entre 115 D.C e 198 D.C. Sua maior obra é o livro Contra Heresias (escrito entre 175 e 198 DC), além de alguns fragmentos de seus escritos e do livro Demonstração da Pregação Apostólica. No capítulo 24 de Contra Heresias, parágrafo 4, Ireneu estava discutindo sobre a forma que os gnósticos usavam números citados na Bíblia para defender suas doutrinas. Como exemplo, eles usavam a idade de Cristo no início de seu ministério, 30 anos, para defender a doutrina que haviam 30 eóns, uma espécie de deuses. Para refutá-los, ele escolheu o número cinco, e listou todas as ocorrências do número 5 nas Escrituras. Se a interpretação gnóstica fosse correta o número cinco deveria representar algo também, com tantas ocorrências. Entre estes exemplos, ele cita: “A estrutura da cruz tem cinco extremidades, duas no comprimento, duas na largura e uma ao centro em que se apóia o crucificado”. É muito interessante que Ireneu descreve a cruz com 5 pontas, incluindo o patibulum e o sedile.

Em sua obra Demonstração da pregação apostólica, Ireneu também faz alguns comentários sobre o formato da cruz. Entre ele, temos, no capítulo 34:

“Então pela obediência, onde ele obedeceu até a morte, pendurado em um madeiro, Ele desfez da velha desobediência lavrando-o no madeiro. E por que Ele é a própria Palavra do Deus Todo-poderoso, que de forma invisível nos impregna universalmente em todo o mundo, e envolve tanto em comprimento e largura, altura e profundidade (Efésios 3:17, 18), pois pela Palavra de Deus tudo é administrado, o Filho de Deus também foi crucificado nisto, imprimindo a forma da cruz no universo”.

Ainda Ireneu faz comentários sobre algumas passagens já vistas aqui, como: “…e Ele também nos livra de Amaleque estendendo suas mãos.” (36), “…mas as palavras cujo governo é colocado sobre seus ombros significam alegoricamente a cruz, que ele manteve suas costas ao ser crucificado” (56), finalmente, “...de novo, a respeito de sua cruz, Isaías diz como segue: ‘Eu estendi minhas mãos todos os dias para um povo orgulhoso e contraditório’, pois isto é uma figura da cruz.” (79). Desta forma vemos que Ireneu não possui um entendimento diferente de outros cristãos já vistos aqui, chegando a usar as mesmas expressões e os mesmos textos.

Já Tertuliano, que viveu entre 190 e 220 D.C., é um exemplo de escritor latino. Ele também escreve sobre o formato do stauros, como podemos ver:

“Você pendura cristãos em cruzes (crucibus) e estacas (stipitibus), que ídolo existe que primeiro é moldado em barro, depois pendurado em uma cruz e estaca (cruci et stipiti)? É em um patibulum que primeiramente o corpo de seu deus é dedicado.” (Apologia 12.3).

Em outro livro, Contra Marcião, Tertuliano escreve também:

“Não era certamente intenção de ser um rinoceronte com um chifre ou um minotauro com dois chifres, mas nele Cristo está indicado, um touro de acordo com as duas narrativas, para algumas pessoas austero como um juiz, para outros gentil como um salvador, cujos chifres devem ser extremidades da cruz. Pois na antenna, que é parte da cruz (quae crucis pars est), as extremidades são chamadas de chifres, e o unicórnio é o poste vertical do meio (medius stipitis palus).” (Contra Marcião, livro 3, capítulo 18)

No mesmo capítulo, Tertuliano diz:

“De novo, por que Moisés na ocasião onde Josué estava lutando contra Amaleque, sentou para orar e com as mãos estendidas (expansis manibus)? … Evidentemente por que naquela ocasião,… a forma da cruz (crucis) era essencial.”

No capítulo 23 do mesmo livro, Tertuliano comenta: “pois esta mesma letra TAU dos Gregos, que é nosso ‘T’, tem a aparência da cruz(crucis)”. Finalmente, Tertuliano diz:

“Se você quer ser discípulo do Senhor, você deve tomar sua cruz e seguir o Senhor, ou seja, você deve tomar suas limitações e torturas em seu próprio corpo, que é na forma de uma cruz”. (Sobre a Idolatria, 12).

Assim, Tertuliano faz o mesmo tipo de afirmações que outros escritores cristãos fizeram. Ele compara a cruz com a letra Tau grega, além de dizer que o corpo humano tem o formato de uma cruz. Isto já indica que o formato que ele tem em mente também é o formato composto de dois postes de madeira. Além disto, vemos mais uma vez a expressão “estender as mãos”. Tertuliano também escreveu em seu livro, Ad Nationes, capítulo 12, o seguinte: “Todo pedaço de madeira que é fixado no chão em uma posição ereta é uma parte de uma cruz, e de fato a maior porção de sua massa. Mas uma cruz inteira é atribuída a nós, com sua trave transversal, claro, e seu assento projetado.” Neste caso, Tertuliano descreve com mais detalhes como a cruz era composta naquela época.

Outro escritor latino foi Minucius Felix, que escreveu por volta do ano 200 D.C. o seguinte texto:

“Novamente, não adoramos nem depositamos fé em cruzes. Vocês que santificam deuses de madeira bem provavelmente adoram cruzes de madeira como porções de seus deuses. Pois o que são seus estandartes, bandeiras, e sinais senão cruzes adornadas e decoradas? Seus troféus de vitória não mostram apenas a figura da cruz (simplicis crucis), mas também de um crucificado. Bem verdade que vemos o sinal da cruz naturalmente desenhado no navio que navega pelo mar, ou impulsionado por remos estendidos, ou um jugo (iugum) é colocado, é o sinal da cruz, e o mesmo faz um homem com as mãos estendidas (homo porrectis manibus) devotando oferendas de adoração a Deus. Assim, o sistema da natureza se apóia no sinal da cruz, ou sua religião é moldada conforme ela.” (Octavius, 29.6)

Este escritor faz novamente comparações entre o formato da cruz, e partes de um navio, além de usar mais uma vez a expressão “estender as mãos”.

Depois de 325 D.C, outros escritores cristãos escreveram sobre a cruz e seu formato, confirmando o que já tinha sido dito antes. Entre estes escritores, podemos citar Firmicius (346 D.C),

“O que são estes chifres que ele vangloria possuir? … Os chifres significam nada mais que o venerável sinal da cruz. Por um chifre deste sinal, aquele alongado e vertical, o universo é mantido acima e a terra mantida firme; e pela junção dos dois chifres que aparecem ao lado o leste é tocado e o oeste é suportado… Você, Ó Cristo, que suportou com mãos estendidas o universo, a terra e o Reino dos Céus… Para conquistar Amaleque, Moisés estendeu suas mãos e imitou estes chifres.” (Erros da Religião Pagã, 21.3-6);

Rufino (404 D.C.),

“Estas palavras, a altura e largura e profundidade, são a descrição da cruz. A porção dela que é fixada na terra ele chama de profundidade. Por altura ele quer dizer a parte que se estende sobre a terra para cima, e por largura as partes que estendem pelos lados direito e esquerdo… Seus (de Cristo) braços abertos, além disto, segundo o profeta inspirado, ele manteve o dia inteiro pelos habitantes da terra, testemunhando para os descrentes e dando as boas vindas para os fiéis.” (Comentário do Credo Apostólico, 14);

Jerônimo (347-420 D.C.);

“’O dia inteiro Eu estendo minhas mãos a um povo descrente e contraditório.’ As mãos do Senhor levantadas para o céu não estavam pedindo por ajuda, mas nos abrigando, miseráveis criaturas.” (Homílias 68) , “O que o indigno disse? ‘Isto deveria ser vendido por trezendos denários’, pois aquele que seria ungido foi crucificado. Ele leu em Gênesis que a arca construída de Noé tinha trezentos cúbitos de largura, trezentos cúbitos de comprimento e trezentos cúbitos de altura. Notem o significado místico dos números… Trezentos contém o símbolo da crucificação. A letra T é o símbolo de trezentos.” (Homílias 84);

Agostinho (412-414 D.C.),

“Então, ‘sendo enraizados e fundados no amor’, nós seremos capazes de ‘compreender com todos os santos o que é o comprimento, a largura, a altura e a profundidade’, que é a cruz do Senhor. Sua largura signfica o poste transversal onde as mãos são estendidas, o comprimento do chão até este poste é onde todo o corpo é preso, a altura do poste vertical para cima é o que está próximo à cabeça, a profundidade é o que fica escondido, dentro do chão.” (De Doctrina Christiana, 2.41); “A figura da cruz aparece neste mistério. Pois, aquele que morreu por que quis, morreu como ele quis. Não sem razão, pois ele escolheu esta forma de morte, pois não escolheria morrer assim, exceto se ele não se tornasse mestre de sua largura, comprimento, altura e profundidade. Pois, há largura no poste vertical, que é pregado acima, que se referem às boas obras, pois as mãos são estendidas ali. Há comprimento na parte que sai desta primeira e desce ao chão… A altura existe na parte que estende acima do poste vertical, e aponta para cima, ou seja, para a cabeça do crucificado… e agora, de fato, a parte que não aparece, que é enterrada e escondida, a partir de onde todo o resto se ergue, significando a profundidade da graça dada gratuitamente.” (Epístola 26).

Todos estes escritores concordam basicamente com os primeiros escritores citados, ao dizerem que a cruz era composta de duas traves, não apenas de uma.

É muito interessante como nenhum escritor cristão fez algum paralelo envolvendo a crux simplex, mesmo levando-se em conta que a crux simplex podia ser usada em alguns casos. Isto mostra não só que a crux compacta era o padrão de crucificação na época, como também mostra que todo o cristianismo sempre adotou a crux compacta como o instrumento usado na morte de nosso Senhor. Não se pode demonstrar uma mudança de costumes, como se alega a Torre de Vigia e alguns autores antigos. Por que a crux compacta era o padrão? Bem, o uso do sedile para prolongar o sofrimento do réu indica que os romanos preferiam uma morte lenta. Assim sendo, o artigo a seguir talvez lance mais uma luz sobre o formato da cruz adotada.

Esse post provém de parte do artigo de Gustavo Souteras Barbosa, publicado no e-cristianismo sob o título: Com quantos paus se faz uma stauros? – O artigo foi gentilmente cedido pelo autor para ser publicado neste blog. Algumas alterações de forma foram feitas ao original, mas o conteúdo mantém-se o mesmo.

Cruz ou estaca? O que diz a Bíblia?

Os relatos evangélicos de Mateus, Marcos, Lucas e João usam a palavra grega stau‧ros′ quando se referem ao instrumento de execução em que Jesus morreu. (Mateus 27:40; Marcos 15:30; Lucas 23:26) Essa palavra se refere a um poste, uma estaca ou um mastro. O livro The Non-Christian Cross (A Cruz Não-Cristã), de J. D. Parsons, explica: “Não existe uma única sentença em nenhum dos inúmeros escritos que formam o Novo Testamento que, no grego original, forneça sequer evidência indireta no sentido de que o stauros usado no caso de Jesus fosse diferente do stauros comum; muito menos no sentido de que consistisse, não em um só pedaço de madeira, mas em dois pedaços pregados juntos em forma de uma cruz.” – Despertai, Abril de 2006, pp.12-13

Será que as escrituras não deixam alguma evidência diferente do que supõe essa revista? Vamos olhar algumas afirmações bíblicas:

As evidências bíblicas sobre o formato da cruz utilizada na morte de Cristo não são explícitas. No entanto, várias referências à crucificação indicam que a cruz usada foi uma crux compacta.

Mateus 27:37

E por cima da sua cabeça (epanó tés kephalés autou) puseram escrita a sua acusação: ESTE É JESUS, O REI DOS JUDEUS.

Este texto é reconhecido como sugerindo uma cruz formada de dois postes. Se a crux simplex fosse usada no caso de Jesus, o mais natural aqui seria descrever o uso do titulus (um pedaço de madeira preso ao stauros, dizendo o crime do réu, como é dito por Cassius Dio, Historae Romanae 54.3.7-8 referido acima) acima das mãos, onde poderia ser visto.

É digno de nota, que apesar da Torre de Vigia argumentar que stauros significava simplesmente uma estaca, vemos através deste versículo que o instrumento que foi usado na morte de Cristo não era composto apenas de um poste vertical. A menção do titulus aqui indica que era sim um instrumento composto de mais de uma peça de madeira, e mesmo assim foi definido como stauros e xulon pelos escritores bíblicos.

João 19:17

E, levando ele às costas a sua cruz (bastazón hautó ton stauron), saiu para o lugar chamado Caveira, que em hebraico se chama Gólgota,

Este talvez seja o texto mais importante. Aqui, temos uma referência clara ao costume romano de se levar o patibulum. Note o uso do verbo bastazón para carregar, o mesmo verbo usado por Chariton e Artemidorus para se referir à mesma prática. Artemidorus é claro ao dizer que a vítima deste tipo de morte é pendurada em uma cruz de duas traves. Escritores latinos claramente distinguem o patibulum do poste vertical, e que era o patibulum que era carregado.

Nunca nos escritos antigos, um escravo é descrito carregando o poste vertical, tal prática não tem sequer relação com a velha prática romana de carregar o patibulum pela cidade. Os evangelhos sinóticos também falam a respeito de carregar a cruz, dizendo ainda que Simão de Cirene carregou a cruz de Cristo. A versão original de Marcos 15:31 diz que Simão levantou a cruz de Cristo (aré ton staurou autou), mas a versão de Lucas é mais detalhada: “E quando o iam levando, tomaram um certo Simão, cireneu, que vinha do campo, e puseram-lhe a cruz às costas(epethékan autó ton stauron), para que a levasse(pherein) após Jesus.” O verbo pherein também foi usado por Chariton e Plutarco, para se referir ao “carregar a cruz”, e o verbo epethékan, “colocado sobre”, é bem sugestivo  sobre  carregar o  patibulum nas costas da vítima, conforme Plutarco, ou cruzando o peito e ombros, conforme Dionysius de Halicarnassus. Compare o uso do verbo com com Lucas 15:5, descrevendo um pastor colocando a ovelha perdida sobre os ombros (epitithésin epi tous ómous), ou com Mateus 27:29 e João 19:2, onde soldados romanos colocam a cruz de espinhos sobre a cabeça de Cristo, ou até mesmo Mateus 21:7, onde as pessoas colocaram suas vestimentas sobre o jumento para que Cristo se assentasse.

João 20:25

Disseram-lhe, pois, os outros discípulos: Vimos o Senhor. Mas ele disse-lhes: Se eu não vir o sinal dos cravos(hélón) em suas mãos (en tais khersin), e não puser o dedo no lugar dos cravos(hélón), e não puser a minha mão no seu lado, de maneira nenhuma o crerei.

Esta importante declaração de Tomé não deixa espaço para a noção de que o instrumento usado na morte de Cristo foi uma crux simplex. O plural sugere o uso de dois pregos para fixar as mãos de Cristo, um para cada mão.

Pode-se recordar que Plautus que descreve o mesmo fato anteriormente (Mostellaria, 55-57), fala de uma forma mais severa onde “são pregados duplamente os pés, duplamente as mãos”. Talvez a interpretação mais aceita seja que usualmente se pregava mãos e pés com um prego, e quando se requeria uma forma mais severa, aplicava-se mais um prego em cada membro. O texto é um pouco ambíguo, mas o uso de dois pregos para uma mesma mão não combina com a palavra marca, lugar (tupos), que foi usado por João no singular.

Pode-se também objetar, como faz a sociedade Torre de Vigia, que os pregos estão no plural, por que Tomé está incluindo os pregos usados nos pés de Cristo:

“Alguns concluíram de João 20:25 que dois pregos foram usados, um para cada mão. Mas o uso do plural (cravos) por Tomé tem que ser entendido como uma descrição precisa indicando que cada mão de Jesus foi atravessada por um prego separado? Em Lucas 24:39 o Jesus ressuscitado diz: ‘Vede minhas mãos e meus pés, que sou eu mesmo’. Isto sugere que os pés de Cristo também foram pregados. Desde que Tomé não fez menção ao sinal dos pregos nos pés de Jesus, seu uso do plural pregos pode ter sido uma referência geral aos pregos usados para pregar Jesus. Assim, não é possível neste ponto definir com certeza quantos pregos foram usados.” (Sentinela 1984, pg 31)

No entanto, a dúvida é respondida pelo próprio Tomé, ao dizer que gostaria de ver as mãos, e o sinal dos cravos nas mãos de Cristo. Mais adiante no mesmo capítulo, Cristo mostra para Tomé as mãos e o lado, não seus pés. Apesar dos pés de Cristo terem sido pregados, Tomé estava se referindo às suas mãos quando usou pregos no plural, o que descarta os pés.

João 21:18,19

Na verdade, na verdade te digo que, quando eras mais moço, te cingias a ti mesmo, e andavas por onde querias; mas, quando já fores velho, estenderás as tuas mãos(ekteneis tas kheiras sou), e outro te cingirá, e te levará para onde tu não queiras. E disse isto, significando com que morte (poió thanató) havia ele de glorificar a Deus. E, dito isto, disse-lhe: Segue-me.

Aqui vemos uma expressão muito conhecida, o “estender as mãos”. Este mesmo verbo é usado por Epictetus (Dissertationes, 3.26.22) e Artemidorus (Oneirocritica, 1.76) . Vemos a mesma expressão em Lucian, Plautus, e Seneca.

Apesar da clareza do texto, exitem três interpretações aqui. A primeira é que o texto é na verdade uma adição posterior, feita para refletir a crucificação (Bernard, p. 709). O texto original deveria simplesmente mostrar a velhice como carente de ajuda. Mesmo que esta teoria esteja certa, a interpolação deveria ser muito cedo, no segundo século, o que demonstraria que a idéia de crucificação já estava presente.

A segunda interpretação trata o versículo como referente à crucificação e nada mais. Bernard aponta que o uso de cingir no grego clássico e na Septuaginta está relacionado ao cingir de roupas, o que nunca foi usado no sentido de prender um criminoso, que seria o sentido usado pelo Senhor se relacionando ao martírio de Cristo. Outra dificuldade apontada seria o uso de ekteneis ao invés de ektasis neste texto.

A última indica estender para os lados, e a primeira, para frente, como vemos em Lucas 5:13. A maior evidência que este texto se refere a outra coisa que não a crucificação, é a ordem dos eventos. Como diz D. W. O’Connor:

“Se há uma referência aqui da crucificação, não se esperaria que cingir viesse antes, seguido de carregar  e por último o estender das mãos?” (Peter in Rome: The Literary, Liturgical, and Archaeological Evidence, 1969, p. 62).

A terceira explicação combina o melhor das duas anteriores. Como sugerido por Bultmann e outros eruditos, o texto de João 21:18,19 pode refletir um antigo provérbio: “Na juventude pode-se ir livremente para onde quer ir, na velhice ele deve permitir ser levado mesmo que ele não queira”. (O’Connor, p. 62). Este provérbio foi adaptado para se referir à crucificação de Pedro, como explica Barnabas Lindars: “Ele foi colocado na segunda pessoa e alterado os tempos verbais de um presente, para passado e futuro. Também o expandiu com detalhes simbólicos… A linguagem é preservada para manter a imagem do velho carente.” (Lindars, The Gospel of John, 1980, pp. 636-637). Isto explica por que zónumi e ekteneis foi usado ao invés de uma forma mais apropriada, e por que a ordem dos eventos aparece diferente. Sobre o uso de ekteneis, deve-se lembrar que Epictetus já o havia usado para se referir à crucificação, o que não implica necessariamente que os braços eram estendidos para frente, o que impediria qualquer tipo de crucificação. Lindars também dá uma explicação boa sobre a sequência dos eventos: “A sequência intencionada poderia ser (a) estendendo as mãos pela trave horizontal, (b) ter suas mãos amarradas a ela com cordas, (c) ser levantado para a estaca.” (Lindars, p. 637).

É muito interessante também a crítica à tradição escrita por Eusébio, pois se não fosse a tradição escrita por alguns escritores modernos, não haveria dúvidas sobre o instrumento de penalidade de Cristo ser uma cruz. Não só Eusébio, mas outros escritos atestam o uso da expressão “estender as mãos” aplicada à crucificação. Portanto, esta interpretação deve-se muito mais ao registro histórico do que à tradição.

Esse post provém de parte do artigo de Gustavo Souteras Barbosa, publicado no e-cristianismo sob o título: Com quantos paus se faz uma stauros? – O artigo foi gentilmente cedido pelo autor para ser publicado neste blog. Algumas alterações de forma foram feitas ao original, mas o conteúdo mantém-se o mesmo.

Cruz ou estaca? O que diz a lingüística?

Stau‧rós, tanto no grego clássico como no coiné, não transmite a idéia de “cruz” feita de duas barras de madeira. Significa apenas uma estaca reta, um pau, uma trave ou um poste reto, como do tipo que poderia ser usado para cerca, estacada ou paliçada. Diz O Novo Dicionário da Bíblia, de Douglas, de 1966, sob “Cruz”, página 379: “O vocábulo grego para ‘cruz’ (stauros, verbo stauroo . . .) significa primariamente um poste reto ou uma trave, e, secundariamente, um poste usado como instrumento de castigo e execução.” – Estudo Perspicaz, Vol.3, pp.309

Segundo lemos aqui, o termo grego “stauros” não transmite a idéia de cruz, embora na mesma citação vemos que o sentido secundário do termo é esse.  Para deixar ainda mais claro o fato de que tal termo não deve ser traduzido por cruz, o mesmo artigo acresce, citando J.D. Parsons no livro The Non-Christian Cross:

Não existe uma única sentença, em quaisquer dos numerosos escritos que compõem o Novo Testamento, que, no grego original, forneça até mesmo evidência indireta no sentido de que o stauros usado no caso de Jesus não fosse um stauros comum; muito menos no sentido de que consistia, não de uma única peça de madeira, mas de duas peças pregadas juntas na forma de cruz

Mas, devemos considerar isso como fato? Vamos investigar um pouco o assunto:

A. O que dizer do termo latino crux?

Sobre a descrição da cruz em escritos antigos, temos vários exemplos que mostram qual a forma mais comum, e que foram reunídos pela forista Leiolaia. Aqui faço a tradução dos escritos que ela reuniu, e comento o que está escrito, adaptando os comentários que ela mesma fez destas passagens.

Primeiramente, vamos analisar o uso da palavra latina crux, já que é em Roma que a crucificação com dois postes de madeira, como vimos, se origina. As citações a seguir são de Plautus, Sêneca e Tacitus. Elas mostram que a crux incluia um patibulum ou furca, e que o patibulum era pregado ao poste horizontal. As vítimas carregavam o patibulum antes de sua crucificação e as vítimas estendiam seus braços na crux ou  patibulum.

1. Titus Maccius Plautus

Titus Maccius Plautus foi um dramaturgo romano. Acredita-se que nasceu em Sarsina (uma cidade em Úmbria) em 254 A.C., devido a uma notícia de Cícero (Brutus, 60), e morrendo em 184 A.C. Seus escritos são os mais antigos da literatura latina. Suas 21 obras se preservam até os dias atuais, e datam entre 205 A.C e 184 A.C. Ele escreve

“Frateor, manus vobis do. Et post dabis sub furcis. Abi intro–in crucem. – Eu o admito, eu levanto minhas mãos. E depois vocês as prenderão na furca. Prosseguindo para a crux.” (Persa, 295)

Aqui vemos o poste horizontal chamado de furca, que é relacionado com a palavra crux. Em outra obra, o escritor diz:

“Credo ego istoc extemplo tibi esse eundum actutum extra portam, dispessis manibus, patibulum quom habebis. – Eu suspeito que vocês estejam condenados a morrer do lado de fora do portão, naquela posição: mãos estendidas e presas no patibulum.” (Miles Gloriosus, 359-360).

Aqui, Plautus usa a palavra patibulum para se referir ao poste horizontal. A palavra é usada também quando ele escreve

“O carnuficium cribum, quod credo fore, ita te forabunt patibulatum per vias stimulis carnufices, si huc reveniat senex. – Oh, eu aposto que os suspensores te farão parecer uma peneira humana, da forma que eles te espetarão para ficar cheio de furos enquanto te levam pelas ruas com suas mãos presas ao patibulum, assim que o velho voltar” (Mostellaria, 55-57).

Esta última citação mostra o costume de se carregar o patibulum pelas ruas da cidade, antes da crucificação. Plautus ainda cita o patibulum relacionado à crux na seguinte passagem:

“Patibulum ferat per urbem, deinde adfigatur cruci. – Deixe-o levar o patibulum pela cidade, depois o deixe ser pregado à cruz.” (Carbonaria, fr. 2).

Ainda sobre a palavra crux, Plautus diz

“Ego dabo ei talentum, primus qui in crucem excucurrerit; sed ea lege, ut offigantur bis pedes, bis brachia. – Eu darei duzentas moedas para o primeiro homem que carregar minha crux e a levar – na condição que suas mãos e pernas sejam pregadas duplamente”. (Mostellaria, 359-360).

Aqui, é a crux que é carregada. Todas estas palavras foram escritas cerca de 200 anos antes da crucificação de Jesus, e demonstra como os costumes relacionados com a crucificação, que mencionamos antes, já eram praticados.

2. Lucius Annaeus Seneca

Lucius Annaeus Seneca foi um filósofo estóico romano. Nasceu em Córdova, no ano 4 D.C,  e morreu em Roma, em 65 D.C. Em seus escritos, encontramos uma descrição da crux composta de duas partes: o suporte (stipitibus) ou poste horizontal, e o patibulum. Ele diz:

“Cum refigere se crucibus conentur, in quas unusquisque vestrum clavos suos ipse adigit, ad supplicium tamen acti stipitibus singulis pendent; hi, qui in se ipsi animum advertunt, quot cupiditatibus tot crucibus distrahuntur. At maledici et in alienam contumeliam venusti sunt. Crederem illis hoc vacare, nisi quidam ex patibulo suo spectatores conspuerent! – Apesar de tentarem se livrar de suas cruzes – aquelas cruzes que cada um de vocês os pregam por suas próprias mãos – ainda eles, quando trazidos para a punição penduram cada um em um simples suporte, mas estes outros que trazem a si mesmos sua própria condenação são esticados por quantas cruzes eles desejarem. Mesmo assim são caluniadores e geniais em amontoar insultos para outros. Eu talvez ache que eles são livres para fazer isto, alguns deles não cuspem de seu próprio patibulum” (De Vita Beata, 19.3).

Sêneca ainda escreve em outro lugar: “….alium in cruce membra distendere….  – outro que teve seus braços estendidos na crux” (De Ira, 1.2.2). Aqui, ele descreve que os braços são estendidos na crux, expressão que ele repete em “….sive extendendae per patibulum manus – …ou suas mãos serem estendidas em um patibulum.”  (Fragmenta, 124; cf. Lactantius, Divinis Institutionibus, 6.17), mas aplicando ao patibulum, o que mostra que as duas palavras poderiam se referir à mesma parte do instrumento. Observe outra citação:

“Video istic cruces non unius quidem generis sed aliter ab aliis fabricatas: capite quidam conversos in terram suspendere, alii per obscena stipitem egerunt, alii brachia patibulo explicuerunt. – Lá eu vejo cruzes, deveras não de uma forma, mas diferentemente planejadas por diferentes pessoas, alguns penduram suas vítimas com suas cabeças para o chão, alguns impalam suas partes íntimas, outras estendiam seus braços no patibulum.” (De Consolatione, 20.3)

Nessa citação Sêneca nos mostra que a palavra crux tinha uma ampla gama de significados. O mesmo pode ser visto na passagem:

“Cogita hoc loco carcerem et cruces et eculeos et uncum et adactum per medium hominem, qui per os emergeret, stipitem. – Imagine em sua cabeça a prisão, a crux, a tortura, o gancho e a estaca por onde eles passam diretamente por um homem até que ele se projeta em sua garganta.” (Epistle, 14.5).

Observe mais uma:

“Contempissimum putarem, si vivere vellet usque ad crucem….Est tanti vulnus suum premere et patibulo pendere districtum…. Invenitur, qui velit adactus ad illud infelix lignum, iam debilis, iam pravus et in foedum scapularum ac pectoris tuber elisus, cui multae moriendi causae etiam citra crucem fuerant, trahere animam tot tormenta tracturam? – Eu deveria avaliá-lo como mais desprezível se quisesse viver até a hora da crucificação. Vale a pena se deprimir pelos próprios ferimentos de uma pessoa, e ser pendurado empalado em um patibulum? … Pode algum homem se encontrar desejoso de ser preso à árvore amaldiçoada, há muito fraco, já deformado, inchado com vários tumores no peito e ombros e puxar o fôlego de vida em meio a franca agonia? Eu acho que ele teria muitos motivos para morrer antes de subir na crux.” (Epistle, 101.10-14),

Nessa citação temos mais uma relação entre o patibulum e a crux.

3. Publius Cornelius Tacitus

Publius (ou Gaius) Cornelius Tacitus foi um senador e historiador romano. Tacitus nasceu em 56 ou 57 D.C. e morreu em 117 D.C. Entre seus escritos, encontramos:

“Solacio fuit servus Verginii Capitonis, quem proditorem Tarracinensium diximus, patibulo adfixus in isdem anulis quos acceptos a Vitellio gestabat. – Os tarracenos, contudo, acharam conforto no fato de que o escravo de Verginius Capito, que os traiu, foi crucificado (patibulo adfixus) usando os mesmos anéis que ele recebeu de Vitellius.” (Historia, 4.3).

Aqui, encontramos a expressão patibulo adfixus, clara referência à crucificação. Semelhante a esta, temos:

“Rapti qui tributo aderant milites et patibulo adfixi. – Os soldados colocados para supervisionar o tributo foram capturados e pregados ao patibulum.” (Annals, 4.72) Na citação “…sed caedes patibula ignes cruces, tamquam redddituri. – Ele foi rápido com o massacre e o patibulum, com incêndio e crux.” (Annals, 14.33), crux e patibulum são paralelos de massacre e incêndio.

Várias outras referências ainda são encontradas na literatura. Clodius Licinus (primeiro século A.C.) se refere ao carrasco que iria “prender [as vítimas] ao patibulum(ad patibulos); assim atados eles iriam levá-los pelas redondezas e depois prendê-los à cruz (cruci defiguntur)”. (História Romana, 3; citado em TLL, p. 707 para “patibulum“). Plínio o ancião, como já dito antes, se refere a uma crucificação anual de cães perto do templo de Juventas, prendendo-os a uma furca (furca fixi).(Historia Naturalis, 29.14.57).

Outro escritor romano que um pouco mais tarde aludiu ao patibulum ao qual os prisioneiros eram presos foi Lucius Apuleius (DC 123-170), que fez quatro referências ao patibulum em sua obra Asinus Aureus:

(1) Captão Lamarchus enfiou sua mão em um grande buraco de chave para arrombar uma porta mas Chryseros pegou um grande prego e o martelou na mão de Lamarchus, prendendo-o à porta e o deixando “pregado lá como um pobre infeliz no patibulum” (4.10); (2) Ponderando sobre o tipo de execução que dariam a sua prisioneira, um grupo de ladrões discutia se a queimariam, jogariam-na para as feras ou se a pendurariam em um patibulum (patibulo suffigi), de forma que (3) “ela ficasse no patibulum enquanto cães e urubus comiam suas entranhas” (4.32), mas foi decidido que ela “não deveria ser crucificada (cruces) nem queimada nem jogada às feras” (6.31). Este último texto usa crux intercambialmente com patibulum suffigere. Ainda depois, no terceiro século, Historia Augusta relata que quando o Imperador Celsus foi morto por uma mulher chamada Galliena, “sua imagem foi colocada em uma cruz (in crucem)”, de forma que os espectadores olhassem como se Celsus estivesse fixado em um patibulum (patibulo adfixus)” (29.4).

Por fim, a Vulgata Latina traduz os termos Hebreus por “forca” e “pendurar” com patibulum em Ester 2:23, 6:4 (affigi patibulo), 7:10, 9:13 (patibulis suspendantur), e 16:18.

 

B. O que dizer da palavra gregra stauros?

O que dizer da palavra gregra stauros? É verdade que stauros originalmente significou um tipo de estaca usada para construir cercas, como atesta a Odisséia de Homero: “Ele fincou estacas (stauros) por todo este caminho e aquele, grandes estacas, foram colocadas juntas, as quais ele fez rachando um carvalho até o centro negro”. (14.11). Thucydides (Historia, 4.90.2) da mesma forma descreve a construção de uma cerca “fixando estacas (staurous)” por um canal, e stauros também foi usado no sentido de “cerca” ou como “pilha” servindo como fundação”. (ex. Herodotus, Historiarum 5.16; Thucydides, Historia 7.25.6-8). Também foi usado para descrever a estaca usada para empalação (compare com o uso feito por Sêneca acima), apesar do termo mais comum ser skolops, exemplo: “…atirem seus corpos em rochas pontiagudas ou os empalem com uma estaca (skolopsi)” (Euripides, Iphigenia Taurica,1430).

Assim, é verdade que stauros significava originalmente estaca. No entanto, não devemos supor que por isto, a palavra jamais agregou outros significados. Sabemos que a crucificação era praticada por Persas, Fenícios e posteriormente por Romanos. Vimos também que uma palavra poderia se referir a vários formatos de instrumentos (ex. Herodotus, Historiarum 9.120; Plutarco, Artaxerxes 17.5). Certamente, o formato do instrumento não vai ser especificado simplesmente através da palavra usada.

Vimos acima, como os romanos formaram a crux compacta baseando-se em outras punições antigas, já no terceiro século antes de Cristo. Resta saber, qual palavra era usada pelos gregos, para se referir a este instrumento de tortura. Vejamos algumas citações em grego sobre o costume romano:

“Toda bagagem caiu nas mãos dos inimigos, e o próprio Hannibal foi feito prisioneiro. Eles [os soldados romanos] imediatamente o levaram para a cruz (stauron), onde Spendius estava pendurado, e depois da inflição de excelentes torturas, tiraram o corpo do último e prenderam Hannibal, ainda vivo, à sua cruz (stauron) e então massacraram trinta cartaginenses dos mais altos cargos perto do corpo de Spendius”. (Polybius, Historiae 1.86.6; o autor viveu entre 200-118 A.C., este evento aconteceu em 183 A.C.)

 

“Eles encontraram os outros já pendurados em suas cruzes (staurous), e ele já estava subindo em sua cruz (epi bainonta tou staurou). De longe eles gritaram apelos: ‘Misericórdia dele!’ ‘Desça!’ ‘Não o machuque!’. Então o carrasco parou seu trabalho, e Chaereas desceu da cruz (katebaine tou staurou), arrependidamente, pois ele estava feliz por deixar esta vida e infeliz amor.” (Chariton, Chaereas and Callirhoe, 4.3.5-6; escrito no primeiro século AC ou começo do primeiro século DC).

 

“Muitos homens também, que estavam vivos, eles ataram por um pé, prendendo-os pelo tornozelo, e assim eles os arrastaram e os machucaram, pulando sobre eles, planejando infringir neles a morte mais bárbara… arrastando-os por todas as vielas e becos da cidade… as relações e amigos daqueles que foram as reais vítimas foram deixadas para trás na prisão, foram espancados, foram torturados, e depois de todo o tratamento doentio a qual seus corpos vivos poderiam agüentar, acharam a cruz (stauros), o fim de tudo, e a punição da qual eles não poderiam escapar.” (Filo de Alexandria, In Flaccum 70-72; autor viveu entre cerca de 20 A.C. – 50 D.C.).

 

“Mas você vai pregá-lo a uma cruz (eis stauron kathélóseis) ou empalá-lo a uma estaca (skolopi péxeis)? Por que Theodorus se importa se ele apodrecerá acima ou abaixo da terra? (Plutarco, Moralia, Ad Vitiositas 499D; autor viveu entre 45-125 DC).

 

Enquanto os soldados [romanos] estavam cortando sua cabeça, seu tutor [o tutor de Antyllus, filho de Marco Antônio] planejou roubar uma jóia preciosa que ele usava em seu pescoço, e colocá-la em sua bolsa, e depois negou o fato, porém foi condenado e crucificado (anestauróthé)” (Plutarco, Antonius 81.3).

 

“Eles foram chicoteados com varas, e seus corpos foram feitos em pedaços, e foram crucificados (anestaurounto), enquanto ainda estavam vivos e respiravam. Eles também estrangularam aquelas mulheres e seus filhos que eles tinham circuncidado, como o rei apontou, pendurando seus filhos pelos pescoços assim como eles estavam pendurados na cruz (anestaurómenón). E se fosse encontrado algum livro sagrado da Lei, era destruído, e aqueles com quem era encontrado pereciam também miseravelmente.” (Flávio Josefo, Antiquitates Judaicae 12.256-257; autor viveu entre cerca de 37-100 DC, escreveu cerca de 95 DC; o evento narrado ocorreu em 168 A.C.).

 

“Agora, aconteceu nesta luta que um certo judeu foi levado vivo, que pela ordem de Tito, foi crucificado (anastaurósai) diante da muralha, para ver se o resto deles se assustaria, e abatia sua obstinação.” (Josefo, De Bello Judaico 5.289; o evento narrado aconteceu em 66-70 DC).

 

“Nem falhou em sua esperança, pois os mandou montar uma cruz (stauron), como se fosse justamente pendurar Eleazar imediatamente, a visão disto causou um pesaroso sofrimento entre aqueles que estavam na fortaleza, e eles suspiravam veementemente, e choravam por não conseguiriam vê-lo destruído de tal forma.” (Josefo, De Bello Judaico 7.202).

 

“Por que vocês obedecem à ordem de se submeter ao tribunal? Pois se vocês querem ser crucificados (stauróthénai), esperem e a cruz (ho stauros) virá.” (Epictetus, Dissertationes 2.2.20; autor viveu entre 55-135 DC).

 

“Ele era escoltado por multidões e recebendo sua fartura de glória enquanto via o número de seus admiradores, sem saber, pobre infeliz, que aqueles homens no caminho da cruz (stauron) ou preso pelo carrasco tem muito mais nos seus calcanhares… É como um homem que prestes a subir na cruz (epi stauron anabésesthai) deve cuidar dos arranhões no seu dedo.” (Luciano, De Morte Peregrini 34.7, 45.5; autor viveu entre 117-180DC).

 

“Os judeus, de fato, machucaram muito os romanos, mas eles mesmos sofreram muito mais… Estas pessoas Antônio confiou a um certo Herodes o governo, mas Antigonus ele prendeu em uma cruz (stauroi) e o açoitou, uma punição que nenhum outro rei sofreu nas mãos dos romanos, e depois o mataram.” (Cassius Dio, Historae Romanae 49.22.4-6; o autor viveu entre 165-235 DC).

 

“O pai de Capio levou o segundo escravo pelo fórum com uma inscrição deixando conhecida a razão pela qual ele estava sendo colocado para morrer, e depois crucificou (anastaurosantos) ele.” (Cassius Dio, Historae Romanae 54.3.7-8).

 

Nenhuma destas referências dizem nada a respeito do formato do instrumento, mas mostra que “stauros” era a palavra mais comumente usada para designá-lo. Como o uso da cruz com dois postes pelos romanos apareceu por esta época, e que não era um formato incomum como nos atesta Sêneca e outros escritores romanos como vimos antes, vemos que stauros significava muito mais que uma simples estaca na até o primeiro século A.C. A citação de Plutarco acima é interessante, pois ele diferencia crucificação com stauros de empalamento com skolops. Porém não apenas stauros foi aplicado à crucificação. Há evidências literárias que indicam que até skolops era aplicado ao instrumento de tortura:

“Muitos do povo foram com Theron enquanto ele era levado, ele foi crucificado (aneskolopisthe) em frente à tumba de Callirhoe e da cruz (staurou) observava o mar”. (Chariton, Chaereas and Callirhoe, 3.4.18).

 

“Mas este homem não ordenou homens que já pereceram na cruz (stauron) a descer, mas comandou homens vivos a serem crucificados (anaskolopizesthai), homens a quem o próprio tempo deu, senão inteiro perdão, pelo menos uma breve e temporária pausa de sua punição.” (Filo de Alexandria, In Flaccum 84).

 

“Agora traga o produto das cortes, eu quero dizer aqueles que morreram pelo castigo e pela cruz (aneskolopismenous).” (Luciano, Cataplus 6.18-20).

 

“Somente os fantasmas daqueles que morreram com violência andam, por exemplo, se um homem se pendurou, ou se teve sua cabeça cortada, ou foi crucificado (aneskolopisthé).” (Luciano, Philopseudes 29).

 

“Os ladrões de templo não são punidos mas escapam, enquanto homens sem culpa de toda injustiça morrem algumas vezes crucificados (anaskolopizomenous) ou açoitados.” (Luciano, Juppiter Tragoedus, 19).

Note como os dois primeiros textos usam stauros para se referir à crucificação. Veremos adiante que Luciano usa este verbo (anaskolopizoó) ao se referir à crucificação com dois postes.

Como vimos acima, a crucificação romana evoluiu da forma mais primitiva de humilhação, onde o condenado era obrigado a carregar o patibulum. Muito interessante é o fato de que a palavra stauros se referia também ao patibulum, como vemos abaixo:

“Sem mesmo vê-los ou escutando sua defesa ele imediatamente ordenou os dezesseis companheiros de cela a serem crucificados (anastaurósai). Eles foram imediatamente trazidos para fora, acorrentados juntos nos pescoços e pés, cada um carregando sua própria cruz (ton stauron ephere). Os carrascos adicionaram este terrível espetáculo à punição requisitada como um dissuasor a outros que tentarem o mesmo. Agora Chaereas não disse nada enquanto era levado com os outros,  mas pegando sua cruz (ton stauron bastazón), Polycharmus exclamou: ‘É sua culpa, Callirhoe, que nós estamos nesta encrenca!’” (Chariton, Chaereas and Callirhoe, 4.2.6-7; escrito no primeiro século A.C. E começo do primeiro século D.C).

 

“Todo criminoso que é executado deve carregar sua própria cruz (ekpherei ton hautou stauron) nas suas costas.” (Plutarco, Moralia, De Sera Numinus Vindicta 554 A).

 

Pois a cruz (ho stauros) é como a morte e o homem que é pregado deve carregá-la antecipadamente. (proteron bastazei)”(Artemidorus Daldianus, Oneirocritica 2.56; escrito no segundo século D.C.)

É possível que toda a crux compacta seja referida aqui, mas é improvável. Várias fontes indicam que a parte vertical era estacionária, fixada no chão antes da chegada da vítima.  (ex. Cicero, Verrines 5.66; compare possivelmente com Josephus, Bello Judaico 7.202). Além disto, o peso combinado do patibulum com o poste vertical não poderia ser suportado pelas vítimas. No entanto, não se refere a um simples poste também, que não tem precedentes nas práticas romanas. Por exemplo, Artemidorus que vamos nos referir adiante, foi bem explícito ao dizer que a cruz era composta de duas traves.

Algumas descrições da crucificação por escritores gregos são ambíguas, mas assumem a crux compacta. Epictetus (filósofo estóico do primeiro século D.C) descreve aqueles sendo massageados como “estendidos (ekteinas) como homens que foram crucificados (estauromenoi)” (Dissertationes, 3.26.22).  A frase aqui lembra de estender as mãos (dispessis manibus) de Plautus e de estender os braços (membra distendere) e mãos estendidas (extendere manus) de Sêneca, em escritos cristãos posteriores a frase de Epictetus se tornou um clichê para a crucificação na crux compacta. Josefo também dá um relato detalhado do cerco e ataque a Jerusalém em 70 D.C. e menciona que “os soldados por raiva e ódio se divertiam pregando seus prisioneiros com diferentes posturas” (allon allói skhémati, ou “de um estilo a outro”), e seu número era tão grande que espaço não podia ser encontrado para as cruzes (staurois), nem cruzes (stauroi) para os corpos.” (De Bello Judaico 5.451-452). Como poucos tipos de postura são possíveis em uma crux simplex, a passagem é melhor entendida com o uso de uma crux compacta.

Outros escritores são mais explícitos quanto ao formato do stauros. Por exemplo, Artemidorus Daldianu, um profeta pagão que prosperou no segundo século D.C. Cerca de 160 D.C, ele escreveu um manual de  interpretação de sonhos chamado de Oneirocritica, onde como vimos acima clama que pessoas que foram condenadas à crucificação deve carregar seu próprio stauros (patibulum, como os romanos chamavam) antes da execução. Ele também fala que o stauros possui duas traves:

Ser crucificado(staurousthai) é próspero para todos os navegantes. Pois a cruz (ho stauros), como um barco, é feita de madeira e pregos, e o mastro do navio lembra uma cruz. (hé katartios autou homoia esti stauró) – (Artemidorus Daldianus, Oneirocritica 2.53).

Assim como hoje, os mastros dos navios consistiam de um alto poste levantado no centro do convés, cruzando com postes horizontais. Na verdade, a palavra latina para nomear estes postes horizontais, antenna também era usada para se referir ao patibulum (ver Insight, Vol. 1, p. 1191). Entalhes em rochas do período mostram como realmente os mastros daquela época se assemelhavam à cruz.  (cf. alto-relevo de um barco romano de Sidon na obra de Philip Carrington’s The Early Christian Church, 1957, Vol. 1, p. 129). Em outro lugar, Artemidorus (Oneirocritica, 1.76)  menciona que aqueles que são crucificados (staurothesetai) “estendem os braços” (tón cheirón ektasin), uma expressão originada de Epictetus, Seneca e Plautus para se referir ao patibulum.

Outro escritor que se refere explicitamente ao formato do stauros é o satirista Luciano de Samosata, que viveu entre os anos de 120 a 180 DC. Ele escreveu a fábula Julgamento na corte das letras, onde ele relata o julgamento da letra Tau (T). No fim da estória lemos o seguinte:

“Tais são suas ofensas verbais contra o homem; suas ofensas de fato permanecem. Homens choram, e lamentam sua sorte, e amaldiçoam Cadmos com muitas maldições por introduzir Tau na família de letras; eles dizem que foi seu corpo que tiranos pegaram de modelo(somati phasi akolouthésantas), imitaram sua forma(mimésamenous autou to plasma) e moldaram semelhantes pedaços de madeira(skhémati toioutói xula) para crucificar(anaskolopizein) homens nelas, e o vil instrumento até deriva seu nome(eponumian) dele (ex. sTAUros). Agora, com todos estes crimes sobre ele, TAU não merece a morte, senão muitas mortes? De minha parte eu acho que a única coisa a fazer é punir Tau no que é feito com sua própria forma(tó skhemati tó hautou), pois a cruz(ho stauros) deve sua própria existência a Tau, senão o seu nome para os homens (hupo de anthrópón onomazetai) .” – (Lis Consonantium, 12).

Note o uso de anaskolopizoó para se referir à crucificação em uma crux compacta. O texto estabelece, sem sombra de dúvidas, que os termos usados até agora se referiam a este tipo de crucificação.

Finalmente, outra palavra usado para especificar a crucificação é a palavra xulon. Assim como outras palavras já tratadas aqui, xulon aceita uma ampla gama de significados. No grego clássico e koiné, a palavra era usada para se referir a lenha, madeira (Ilíada, 8.507; Thucydides, Historia 7.25.2; Herodotus, Historiarum 1.186), bancos (Demosthenes, 1111.22; Aristophanes, Vespae, 90; Acharnenses, 25), mercado de madeira (Aristophanes, Fragmenta 402-403), e até mesmo como medida de comprimento (Hero, Geometrica 23.4.11). Mas isto não é tudo, pois eventualmente “a palavra passou a significar algo vergonhoso ou desafortunado” (Kittel and Friedrich, Vol. 3, p. 37). Ele passou a denominar vários instrumentos de punição, incluindo pelourinho (Aristophanes, Nubes 592; Lysistrata, 680), tronco onde se prendia os pés e a cabeça do condenado (Herodotus, Historiarum 9.37), uma combinação de ambos (Aristophanes, Equites 367, 1049), e porrete (Herodotus, Historiarum 2.63, 4.180; Plutarch, Lycurgus 30.2). Claramente a palavra significava mais do que um simples pedaço de madeira.

No Novo Testamento, sua variação semântica variava pouco. Foi usada para significar materiais de madeira (1 Coríntios 3:12), árvores (Apocalipse 22:19), instrumento para prender escravos (Atos 16:24), e porretes (Mateus 26:47). Mas muitos escritores cristãos a usaram para definir o instrumento de crucificação romana. Aparentemente há duas razões para isto:

Em épocas pré-republicanas, romanos algumas vezes puniam escravos desobedientes prendendo-os em árvores e os açoitando até a morte (cf. Joseph A. Fitzmyer, CBQ 40: 509, 1978). Ocasionalmente as vítimas eram forçadas a levar o patibulum também. Esta forma de punição foi chamada de arbor infelix ou infelix lignum, e muitos escritores latinos posteriores usaram esta expressão para se referir à crucificação (cf. Livy, Ab Urbe Condita 1.26.10-11; Cicero, Pro Rabirio 4.13; Seneca, Epistle 101.14). Como resultado, a crux compacta se tornou conhecida como arbor ou lignum (ambas palavras latinas se referem à árvore). Isto deve ter influenciado escritores gregos a usarem a palavra xulon para significar o mesmo que stauros.

No entanto, há ainda mais uma explicação. Muitos eruditos acreditam que o uso de xulon no NT e outros escritores judeus contemporâneos surgiu de uma interpretação midráshica de Deuteronômio 21:22-23:

“Se um homem tiver cometido um pecado digno de morte, e for morto, e o tiveres pendurado num madeiro, o seu cadáver não permanecerá toda a noite no madeiro, mas certamente o enterrarás no mesmo dia; porquanto aquele que é pendurado é maldito de Deus. Assim não contaminarás a tua terra, que o Senhor teu Deus te dá em herança.”

É claro que este texto não se refere à crucificação. Mas muitos judeus o acharam relevante quando os romanos introduziram esta forma de punição na Judéia, principalmente tendo os romanos o costume de deixar o corpo apodrecer por dias na cruz (cf. Horace, Epistle 1.16.48; Lucan, Pharsalia 6.543). Assim, isto foi um guia para decidir como a crucificação romana deveria ser entendida legalmente. Significantemente, os Rolos do Mar Morto, datados do primeiro século antes de Cristo, citam Deuteronômio 21:22-23 duas vezes com relação à crucificação romana praticada por judeus helenizados (11QT, 64:6-13; 4QpNah, 3-4:1:1-11; o último texto se refere à crucificação de Alexandre Janneus em 88 A.C., compare com Josefo, Antiquitae 13.14.2, Bello Judaico 1.4.5-6). Similarmente, Paulo aplicou aquela escritura (derivada da LXX que usa xulon para a palavra hebraica “árvore”) à crucificação de Jesus:

“Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro; para que aos gentios viesse a bênção de Abraão em Jesus Cristo, a fim de que nós recebêssemos pela fé a promessa do Espírito”. – Gálatas 3:13,14

De acordo com Max Wilcox, a influência de Deuteronômio pode ser detectada em cada instância que xulon é usada em relação à crucificação. O discurso de Paulo em Atos 13:28-30 tem a aparência de ser uma midrash de Deuteronômio 21:22- 23 (cf. JBL, 96: 92, 1977).  Ainda nos evangelhos, os judeus exigiram que Pilatos retirasse os corpos de Jesus e dos ladrões para prevenir que eles ficassem na cruz durante o sábado (João 19:31; cf. Lucas 23:50-54).  Tudo isto indica que a percepção judaica sobre a crucificação romana envolvia Deuteronômio 21:22-23. Como resultado, vemos o uso de xulon como sinônimo de stauros é quase exclusivamente feito por escritores judeus (cf. Josephus, Antiquitae 11.246-261; Philo, De Somniis 2.213). Vendo tudo isto, e sabendo do amplo significado que xulon poderia ter, percebemos que esta palavra era usada com o mesmo fim que stauros: indicava o instrumento de duas traves, usado na crucificação romana.

 

Esse post provém de parte do artigo de Gustavo Souteras Barbosa, publicado no e-cristianismo sob o título: Com quantos paus se faz uma stauros? – O artigo foi gentilmente cedido pelo autor para ser publicado neste blog. Algumas alterações de forma foram feitas ao original, mas o conteúdo mantém-se o mesmo.

 

Cruz ou estaca? – O que diz a arqueologia?

Sabemos com certeza que as suas mãos ou seus braços não foram simplesmente amarrados, pois Tomé disse mais tarde: “A menos que eu veja nas suas mãos o sinal dos pregos.” (João 20:25) Isto pode ter significado um prego em cada mão, ou o plural “pregos” pode referir-se a marcas de pregos nas ‘suas mãos e nos seus pés’. (Veja Lucas 24:39.) Não temos condições de saber onde precisamente os pregos o perfuraram, embora obviamente tenha sido na área de suas mãos. O relato bíblico simplesmente não provê detalhes exatos, nem há necessidade disso. E, se os eruditos que examinaram diretamente os ossos encontrados perto de Jerusalém, em 1968, nem podem ter certeza como aquele corpo foi posicionado, isto certamente não prova como Jesus foi posicionadoA Sentinela, 15 de Agosto de 1987, pp.29

Nessa Sentinela os autores discorrem sobre um fato interessante: “Arqueólogos israelenses, tendo desenterrado a primeira evidência material duma crucificação, disseram hoje que isto pode indicar que Jesus Cristo talvez tivesse sido crucificado numa posição diferente daquela mostrada na cruz tradicional“.  Entretanto, na avaliação que fazem das evidências apresentadas chegam a conclusão de que tal evidência arqueológica nada poderia falar sobre o modo como Jesus teria sido morto. Mas, é isso mesmo verdadeiro? A Arqueologia nada pode falar sobre o assunto?

Existem poucas descobertas antropológicas relacionadas com a crucificação. Joe Zias, antigo Diretor de Arqueologia/Antropologia pela Autoridade de Antiguidades de Israel, diz que existem duas explicações para isto. A primeira explicação se baseia na forma que os indivíduos eram fixados à cruz. Nem sempre estes criminosos eram fixados com pregos, e muitos eruditos discutiram sobre esta questão. Brandenburger(1969) e Jeremias(1966) defendiam a tese de que a crucificação era uma penalidade sem sangue, onde as pessoas eram amarradas com cordas. Martin Hengel, por outro lado, juntamente com Hewitt(1932), adotaram a visão oposta, dizendo que pregar as mãos e os pés, cada um com um prego, era a regra, e amarrando-os, era a exceção. De fato, Flávio Josefo escreveu que “os soldados por raiva e ódio se divertiam pregando seus prisioneiros com diferentes posturas” (De Bello Judaico 5.11 e 451). Além disto, a forma variava de acordo com a quantidade de pessoas a serem crucificadas. Na crucificação dos 6000 prisioneiros de guerra por Crassus na Via Appia entre Roma e Capua (Bella Civilia I.120), o mais plausível é que tenham sido crucificados usando somente um poste vertical, que seria a forma mais rápida e simples. Assim, tanto este exemplo, como os exemplos em que as vítimas eram amarradas, não haveriam evidências traumáticas nos corpos. A segunda explicação, seria o uso dos pregos de crucificados como poderoso amuleto medicinal, sendo removidos assim que os cadáveres eram retirados.

Apesar disto, em 1968, construtores trabalhando em Giv’at ha-Mivtar, um subúrbio de Jerusalém, acidentalmente descobriu uma tumba judaica datada do primeiro século depois de Cristo. Nesta tumba havia um ossuário cuja inscrição dizia: “Jehohanan, filho de HGQWL”. Eram os restos de um homem por volta de 20 anos, que havia sido crucificado. A evidência se baseia no osso do calcanhar, que tinha um prego de 11.5 cm. Ao que tudo indica, o prego ao entrar na madeira, ficou preso de tal forma aos pés, que foi impossível tirar os pregos na retirada deste corpo. Foi encontrado também entre a cabeça do prego e o osso, um pedaço de madeira de oliva, que pode ter sido usado para aumentar a área da cabeça do prego, e evitar que a vítima solte seus pés.

Joe Zias foi quem reexaminou estes ossos. O seu predecessor, Haas, que publicou um artigo em 1970, havia dito que os pregos tinham 17 a 18 cm, o que foi desmentido por Joe Zias. Outro exame detalhado revela que ao contrário do que Haas havia dito, não havia evidências no osso rádio de que um prego havia estado ali. Por isto, Joe Zias diz que provavelmente Jehohanan foi pregado nos pés, e amarrado pelos braços. De fato, segundo Flávio Josefo (Guerras Judaicas 5:552-553) as tropas romanas tiveram que viajar 10 milhas para encontrar madeira, o que indica que esta estava escassa naquela região. Assim, Joe Zias considera que podia se economizar madeira, usando-se o mesmo poste transversal para várias crucificações.

Além das evidências antropológicas, temos também algumas evidências arqueológicas. Lâmpadas e lamparinas são achados comuns, que evidenciam algumas práticas de vários povos. Um fato interessante é que lâmpadas cristãs eram facilmente identificadas pelos símbolos que elas apresentavam. Entre os símbolos mais comuns em lâmpadas cristãs, estava a cruz.

Uma outra evidência sobre a crucificação foi encontrada no Paedagogium, nas encostas das montanhas Paladinas em Roma. Em 1856, R. Garrucci examinou as paredes deste edifício (talvez uma prisão para escravos), e descobriu uma caricatura de Cristo crucificado. De acordo com Jack Finegan “Este desenho rude mostra um corpo humano com a cabeça de um asno, em uma cruz. À esquerda há uma pequena figura de um garoto ou jovem em atitude de adoração”. (Light From the Ancient Past, 1959, p. 373).

 

ALEXAMENOS SEBETE THEON

ALEXAMENOS SEBETE THEON

 

Abaixo da figura, há a inscrição “ALEXAMENOS SEBETE THEON”, que pode ser traduzida por “Alexamenos adora seu deus”, ou o vocativo, “Alexamenos, adore deus”.

Não há dúvidas de que esta figura blasfema ironizava cristãos. O escritor cristão Tertuliano, escrevendo em sua Apologia, esclarece a figura:

“Juntamente como outros, estais na ilusão de que nosso Deus é uma cabeça de asno. Cornélio Tácito foi o primeiro a divulgar tal noção entre o povo.” – Apologia capítulo 16

Mais adiante, Tertuliano completa:

Mas, ultimamente a nova versão de nosso Deus foi dada a conhecer ao mundo nessa grande cidade: originou-se com um certo homem desprezível que tinha costume de se dedicar a trapacear com feras selvagens, e que exibiu uma pintura com esta inscrição: O Deus dos Cristãos nasceu de um asno. Ele tem orelhas de asno, tem casco num pé, segura um livro e usa uma toga. Tanto o nome como a figura nos provoca risos. – Apologia capítulo 16.

O desenho das montanhas Paladinas é datado do reino do imperador Marcus entre 161-180 D.C, mas alguns o datam mais tarde, no reino de Alexander Severus, 222-235 D.C. Apesar da datação muito posterior, o desenho ainda mostra como os pagãos viam a crucificação de Cristo, e que a crucificação com dois postes de madeira era usado nesta época.

Esse post provém de parte do artigo de Gustavo Souteras Barbosa, publicado no e-cristianismo sob o título: Com quantos paus se faz uma stauros? – O artigo foi gentilmente cedido pelo autor para ser publicado neste blog. Algumas alterações de forma foram feitas ao original, mas o conteúdo mantém-se o mesmo.


 

 

Cruz ou estaca? – O que diz a história?

Portanto, falta totalmente qualquer evidência de que Jesus Cristo tenha sido crucificado em dois pedaços de madeira colocados em ângulo reto. Não queremos acrescentar nada à Palavra escrita de Deus pela inserção nas Escrituras inspiradas do conceito pagão da cruz, mas vertemos stau‧rós e xý‧lon de acordo com o significado mais simples. – Bíblia Tradução do Novo Mundo com referências, Apendice 5C, pp.1515

Com tal citação generalista, os autores das referências da Tradução do Novo Mundo sugerem a seus leitores que não existem qualquer evidência de que o instrumento da morte de Cristo tenha sido uma CRUZ. Mas, será isso verdadeiro? O que dizem os historiadores sobre isso?

Muitos historiadores atribuem a criação da crux compacta, constituída de um poste horizontal e um vertical onde se pregavam os braços, aos romanos, que combinaram práticas locais com a de povos vizinhos. Esta prática no entanto teve vários precedentes, como o impalamento e o penduramento pós-morte. O primeiro foi praticado por assírios, cujo exemplo mais antigo é o de Hamurabi (1700AC). O segundo foi praticado por israelitas(Dt 21:23).

Os persas, no entanto, pregavam seus prisioneiros em árvores e postes. Segundo o The Theological Dictionary of the New Testament, “os persas inventaram ou foram os primeiros a usar este modo de execução. Eles provavelmente faziam assim para não profanar a terra, que era consagrada a Ormuzd, pelo corpo da pessoa executada” (p. 16). Apesar disto, Hengel em sua obra Crucifixion, chama a atenção para o fato que outros povos também possuíam tal prática. O que distinguia a prática persa, do penduramento pós-morte é que os prisioneiros eram fixados vivos. Acredita-se que as menções à forca em Esdras 6:11 e Ester  7:9,10 se refiram à crucificação persa, apesar dos textos não serem específicos. As guerras greco-persas introduziram a prática aos gregos, e Herodotus (Historiarum, 1.128.2, 3.125.3, 3.132.2, 3.159.1, 4.43.2-7, 6.30.1, 7.194) faz inúmeras referências a seu uso pelos persas (ver também Thucydides, Historia 1.110.3, sobre seu uso no Egito neste tempo). Por exemplo, Herotodus menciona um vice-rei chamado Sandoces, filho de Thamasius, que foi levado e crucificado (anestauróse) por Dário, mas Dário então mudou de idéia e libertou Sandoces. A forma do instrumento usado pelos persas também variava muito. Herotodus diz que era composto de “tábuas” (9.120), enquanto Plutarco mostra que até 4 estacas eram usadas para uma vítima (Artaxerxes, 17.5).

Pelo contato com os persas, os gregos incorporaram a crucificação como estratégia militar. Foi usado principalmente por Alexandre o Grande em sua guerra contra os persas (336-323 AC). Depois do cerco de Tiro (332 AC), “dois mil… foram pendurados em estacas por uma longa faixa da praia” (Curtius Rufus, Historia Alexandri 4.4.17; veja também Plutarco, Alexandre 7.2 sobre a crucificação do médico persa de Alexandre). Alguns historiadores também supõem que ele crucificou Callisthenes, seu historiador e biógrafo oficial, depois que Callisthenes se opôs à adoção por Alexandre da cerimônia real Persa de adoração. Depois da morte de Alexandre, os gregos continuaram a usar a crucificação contra seus inimigos (ver Diodorus Siculus, Bibliotheca Historica 16.61.2), apesar de não incorporar a prática em seu sistema legal de punição. Os gregos repeliam tal mostra brutal (ver Herodotus, Historiarum 7.138, 9.78). Como resultado da crucificação em massa de Tiro, os fenícios e cartaginenses adotaram a prática para uso em guerra (cf. Valerius Maximus, Memorabilium 2.7; Silius Italicus, Punica 2.344). Durante as guerras púnicas (264-146 A.C.), os romanos encontraram a versão fenícia da crucificação e se apropriaram dela como meio de punição para escravos, convertendo-o em um meio brutal de tortura. Para isto, eles adicionaram uma trave vertical chamada patibulum, e um sedile, onde a vítima descansaria seu peso. Antes da invenção da crucificação pelos romanos, o patibulum era usado para humilhar condenados que marchavam para sua execução. Dionysius de Halicarnassus (primeiro século A.C.) descreve esta prática:

“Um cidadão romano de posição não obscura, mandando um de seus escravos ser posto para morrer, o entregou a seus companheiros de escravidão para levá-lo, e para que todos pudessem ver sua punição, os direcionou a puxá-lo pelo Fórum e qualquer outra parte mais freqüentada da cidade enquanto o chicoteavam, e que ele deveria ir à frente da procissão à qual os romanos estavam conduzindo na época em honra ao deus. Os homens foram ordenados a levar o escravo a sua punição, tendo seus braços abertos e pregados a um pedaço de madeira (tas kheiras apoteinantes amphoteras kai xuló prosdésantes) o qual estendia-se por suas costas e ombros até seus punhos, seguindo-o, cortando seu corpo nu com chicotes” – (Antiguidades Romanas, 7.69.1-2).

Esta punição do patibulum, onde o escravo era chicoteado e levado pela cidade, foi praticado nos tempos pré-republicanos, e foi o ancestral direto do ritual da crucificação onde a vítima levava a própria cruz. Nem sempre precedia a execução, era mais usada para humilhar. Outras descrições da prática podem ser encontradas em Livy e Plutarco, que descrevem seu uso em tempos pré-republicanos e revelam que a madeira carregada pela vítima também era chamada de furca, “jugo”.

“Nas primeiras horas do dia apontado para os jogos, antes que o espetáculo começasse, um certo chefe de família dirigiu seu escravo, que carregava um jugo (furca), pelo meio do circo, chicoteando o réu enquanto entrava.” – (Livy, História Romana 2.36.1).

 

“Um certo homem entregou um de seus escravos, com ordens de chicoteá-lo pelo fórum, e então colocá-lo para morrer. Enquanto estavam executando suas ordens e atormentando o pobre infeliz, cuja dor e sofrimento o faziam se contorcer e se torcer horrivelmente, a procissão sagrada em honra a Júpiter mudou para aparecer atrás deles… E era uma punição severa para um escravo que cometeu uma falta, se ele fosse obrigado a tomar um pedaço de madeira (xulon), com o qual eles apoiavam a haste de uma carruagem, e o carregar pela vizinhança. Pois aquele que era visto experimentar esta punição não teria mais crédito em sua própria vizinhança familiar. E ele era chamado de furcifer (phourkipher), pois o que os gregos chamam de coluna ou suporte, é chamado de ‘furca’ (phourkan) pelos romanos.” – Plutarco, Coriolanus 24.4-5.

 

É esta velha prática romana de levar o patibulum que mais tarde, se unindo à crucificação fenícia, daria forma à crucificação romana. Muitos eram crucificados no local onde ocorreu o crime, ou em lugares que havia muitas pessoas, como forma de advertir as pessoas. Esta situação pode ser bem exemplificada por Quintilian (35-95 D.C.), que escreveu “sempre que crucificamos o culpado, as ruas mais movimentadas são escolhidas, onde mais pessoas possam ver e serem movidas por este temor. Por que as penalidades se relacionam não tanto com a retribuição do que com seu efeito exemplar” (Decl. 274).

Por se relacionar com criminosos e pessoas de classe baixa, a crucificação foi considerada o modo mais desonroso de morrer. Cidadãos Romanos condenados eram usualmente isentos de crucificação (como nobres feudais de enforcamento) exceto por crimes maiores contra o estado, como alta traição. Os Romanos o usaram durante a rebelião de Spartacus, onde crucificaram 6000 pessoas, durante a Guerra Civil Romana, e a destruição de Jerusalém.

A crucificação, em Roma, era a forma mais humilhante de morrer. As autoridades romanas desenvolveram várias maneiras para deixar as vítimas por vários dias sendo expostas ao público. Assim, a forma de punição não era fixada por lei, mas parecia depender da quantidade de pessoas, da criatividade sádica daqueles que conduziam a crucificação, e o tempo necessário para que este espetáculo tenha o maior efeito. A forma da cruz também poderia variar. A cruz de Santo Antonio, ou cruz Tau, possuia o poste horizontal fixado na ponta do poste vertical, assemelhando-se à um T. Uma variação desta era a cruz latina, onde este poste era fixado um pouco abaixo da ponta. Esta é a cruz mais conhecida. A cruz de Santo André possuía a forma de um X, ou seja, era formada de dois postes na diagonal. Havia também a crux simplex, formada apenas do poste vertical.

Dar um enterro às vítimas de crucificação era muito raro, muitas vezes não era permitido, para que a humilhação continuasse. Assim, ou as vítimas eram jogadas nos montes de lixo das cidades, ou simplesmente deixadas na cruz, onde serviam de alimento para pássaros e animais. Juvenal, por exemplo, escreveu que em Roma “o falcão apressa por gado morto e cães e cruzes para trazer algum dos cadáveres para sua prole” (Sátiras 14.77f). A menção de cães aqui é curiosa, já que Plínio (NH 29.57) escreveu que cães foram também crucificados por não avisarem os romanos sobre o ataque dos gaulenses no monte Capitoline.

Esse post provém de parte do artigo de Gustavo Souteras Barbosa, publicado no e-cristianismo sob o título: Com quantos paus se faz uma stauros? – O artigo foi gentilmente cedido pelo autor para ser publicado neste blog. Algumas alterações de forma foram feitas ao original, mas o conteúdo mantém-se o mesmo.

Cruz ou estaca?

Durante toda a história cristã, a cruz, que em grego se chama “stauros“, é tida como o instrumento de execução de nosso Senhor Jesus Cristo. Instrumento através do qual, Ele consumou Seu plano. Mesmo assim, muitos evitaram representá-la, pois temiam acabar idolatrando a representação, se esquecendo de prestar a devida adoração a Deus.

Esta preocupação mostra o zelo destas pessoas, e é certamente louvável da parte deles. No entanto, muitas vezes o zelo conduz a excessos. Principalmente quando o zelo provoca um asceticismo exagerado. Um exemplo bem conhecido disto, nas próprias Escrituras, são os fariseus. Não somente o Senhor disputou com eles por causa de seu zelo excessivo, mas também os apóstolos. Quem não se lembra da discussão sobre o lavar das mãos? Em Marcos 7:2, vemos claramente que a preocupação dos fariseus era quanto à impur7eza, demonstrando assim suas inclinações ascéticas. Comentando este versículo, John Gill traz uma citação do Zoharim, que diz:

“Aquele que despreza o lavar das mãos, será erradicado do mundo, pois nele está o segredo do decálogo”. – Zoharin Numb fol. 100. 3.

Assim coloca-se o lavar das mãos como uma questão de salvação, o que explica o fato daqueles fariseus repreenderem os discípulos de Cristo. Nosso Senhor então responde que é por tradições humanas como aquelas, que as leis de Deus são deixadas de lado. Respondendo mais ainda, Cristo nos diz:

E, chamando outra vez a multidão, disse-lhes: Ouvi-me vós, todos, e compreendei. Nada há, fora do homem, que, entrando nele, o possa contaminar; mas o que sai dele isso é que contamina o homem. Se alguém tem ouvidos para ouvir, ouça.- Marcos 7:14-16

O que mostra que quem faz o homem impuro é o próprio homem, e não o que ele come ou toca. Tiago, mais tarde, concordaria com esta origem do pecado em sua epístola (Tg 1:14). Se o pecado se origina no próprio homem, então praticar asceticismo não o livra de ser impuro. Mesmo assim, os apóstolos tiveram que enfrentar este asceticismo ainda várias vezes, como deixa claro esta passagem escrita por Paulo:

Ninguém vos domine a seu bel-prazer com pretexto de humildade e culto dos anjos, envolvendo-se em coisas que não viu; estando debalde inchado na sua carnal compreensão, e não ligado à cabeça, da qual todo o corpo, provido e organizado pelas juntas e ligaduras, vai crescendo em aumento de Deus. Se, pois, estais mortos com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, por que vos carregam ainda de ordenanças, como se vivêsseis no mundo, tais como: Não toques, não proves, não manuseies? As quais coisas todas perecem pelo uso, segundo os preceitos e doutrinas dos homens; as quais têm, na verdade, alguma aparência de sabedoria, em devoção voluntária, humildade, e em disciplina do corpo, mas não são de valor algum senão para a satisfação da carne. – Carta aos Colossensses 2:18-23

Este zelo ascético não se limita àquela época. Hoje também enfrentamos situações similares. E no que diz respeito à cruz, não só evitam representá-la, como faziam antigamente. Recentemente, o grupo conhecido por Testemunhas de Jeová chegou até a negar que a cruz tenha sido o instrumento de execução de nosso Senhor. Foi seu segundo líder, J. F. Rutherford, quem introduziu esta idéia. Até 1936, todas as suas publicações traduziam stauros por cruz, e o livro intitulado “Criação”, de 1927, possui em sua versão portuguesa uma figura de Cristo e dos ladrões sendo pregados em cruzes, na página 236. Foi em 1936, em seu livro Riquezas, que ele começa a mudar sua posição sobre o assunto. Nele foi escrito:

A morte de Jesus, o homem perfeito, fosse como fosse, satisfaria as exigências da lei, visto que a pena imposta sobre Adão foi a morte. Por que, pois, foi Jesus crucificado? Jesus foi crucificado ou afligido, porém não exatamente numa cruz lavrada, como está representado nas imagens que os homens fabricam; a crucificação de Jesus consistiu em ser o seu corpo cravado ou pregado no madeiro.

Na década de trinta, Rutherford começou a elaborar algumas das doutrinas que distinguiram os Testemunhas de Jeová de outros grupos cristãos. Foi nesta década que ele criou o nome “Testemunhas de Jeová”, por exemplo. Acredita-se que ele tenha feito isto para se distinguir principalmente de outros grupos de Estudantes da Bíblia, que eram mais fiéis a Charles Taze Russel. Este tinha como símbolo na capa de suas revistas o símbolo da cruz. Então a partir de 1936, ele passa a criticar o uso da cruz, bem como sua historicidade. Em 1937, no livro “Inimigos”, ele escreve:

Alguém entretanto objeta : `Que dizer-se da estátua que mostra a Jesus sendo crucificado na cruz? Não deveríamos ter aquela estátua em nosso lugar de devoção? Jesus não foi crucificado numa cruz. A lei de Deus determinou que o amaldiçoado traidor fosse pendurado num madeiro. Os sacerdotes católicos conhecem esta verdade, porque sua Bíblia assim estabelece. (Veja-se Gálatas 3:13, Versão Soares) Deuteronômio 21 : 22, 23) .

Já em 1968, no livro “A Verdade que conduz à vida eterna”, eles exortam aos leitores que abandonem o uso da cruz:

Não é normal prezar e adorar o instrumento usado para assassinar alguém que amamos. Quem pensaria em beijar o revólver usado para matar um ente querido ou em levá-lo pendurado do pescoço? Sendo assim, e provando-se que a cruz é um símbolo religioso pagão, os que têm usado tal objeto ou que têm um crucifixo no seu lar, se confrontam com uma decisão importante. Continuarão a usá-los? Continuarão até mesmo a guardá-los? O amor à verdade e o desejo de agradar a Deus em tudo ajudará a fazer a decisão correta. – Deuteronômio 7:26.

Atualmente, eles possuem um livro de perguntas e respostas, conhecido por “Raciocínios à Base das Escrituras”. Este livro traz um tópico sobre a cruz, onde se defende que a forma de stauros era uma estaca vertical. A cruz como conhecemos é uma herança pagã. Certo ponto do tópico, é feito a pergunta:

“Faz realmente diferença se a pessoa preza a cruz, conquanto não a adore?”. A resposta, além de frisar que as origens da cruz são pagãs, termina dizendo: “Como deve, então, Jeová considerar o uso da cruz, que, conforme vimos, era antigamente usada como símbolo na adoração fálica?”.

Acredito que com estas palavras, a acusação de paganismo está feita a todo o cristianismo, que sempre acreditou que a cruz é o instrumento de execução de Cristo. Como concluímos ao ler a citação do livro “A Verdade que conduz à vida eterna”, estes não agradam a Deus nem amam a verdade. E se estas pessoas desagradam a Deus desta forma, devem estar excluídas da Salvação. A velha citação do Zoharin toma outra forma.

Por isto, acredito ser importante fornecer uma resposta a esta acusação. Muitas pessoas não costumam dar importância a este assunto, pois a importância maior está no evento, não nos meios. No entanto, penso que assim como se combateu o asceticismo desnecessário no passado, que faz objetos erroneamente originar o pecado, devemos fazer o mesmo hoje.

A questão aqui, não é se cristãos adoram ou não a cruz. Se eles adoram, estão mesmo errados. A questão é se o stauros usado na Bíblia é ou não uma cruz. E diante de tantas evidências, só podemos concluir que o stauros era realmente uma cruz, constituída de dois postes.

Por isso convidamos os leitores a conferirem se isso é verdade nos seguintes artigos:

1. Cruz ou estaca? – O que diz a história?

2. Cruz ou estaca? – O que diz a arqueologia?

3. Cruz ou estaca? – O que diz a lingüística?

4. Cruz ou estaca? – O que diz a Bíblia?

5. Cruz ou estaca? – O que dizem os Pais da Igreja?

6. Cruz ou estaca? – O que diz a Sociedade Torre da Vigia?

Todos os artigos dessa série provém do artigo de Gustavo Souteras Barbosa, publicado no e-cristianismo sob o título: Com quantos paus se faz uma stauros? – O artigo foi gentilmente cedido pelo autor para ser publicado neste blog. Algumas alterações de forma foram feitas ao original, mas o conteúdo mantém-se o mesmo.

Por que os cristãos usam a cruz como representação de sua fé?

Como se sentiria se um amigo seu muito prezado fosse executado à base de acusações falsas? Faria uma réplica do instrumento de execução? Será que o prezaria, ou, antes, o evitaria? – Raciocínios, pp.102

Muitas pessoas se perguntam se a CRUZ deve ser de fato um símbolo cristão, afinal não parece adequado fazer uma réplica do instrumento de execução de um amigo e guardá-lo de lembrança. Outras pessoas diriam que também não é apropriado fazê-lo até por que a CRUZ nem é o instrumento no qual Cristo teria sido morto.

Os autores do livro Raciocínios, demonstram com algumas citações que a origem de tal instrumento de tortura é pagã e portanto deve ser evitada. Observe algumas das citações que fazem:

“É um fato estranho, contudo inquestionável, que nas eras muito anteriores ao nascimento de Cristo, e desde então, em terras intatas aos ensinos da Igreja, a Cruz tem sido usada como símbolo sagrado. . . . O Baco grego, o Tamuz tírio, o Bel caldeu e o Odin nórdico foram todos simbolizados pelos seus devotos por um instrumento cruciforme.” — The Cross in Ritual, Architecture, and Art (Londres, 1900), G. S. Tyack, p. 1.

“Encontraram-se diversos objetos, datando de períodos muito anteriores à era cristã, marcados com cruzes de feitios diferentes, em quase cada parte do mundo antigo. A Índia, a Síria, a Pérsia e o Egito produziram todos inúmeros exemplos . . . O uso da cruz como símbolo religioso em tempos pré-cristãos e entre povos não-cristãos pode provavelmente ser considerado como quase universal, e em muitíssimos casos ligava-se a alguma forma de culto da natureza.” — Encyclopædia Britannica (1946), Vol. 6, p. 753.

“Usavam-se essas cruzes como símbolos do deus-sol babilônico,  , e são vistas pela primeira vez numa moeda de Júlio César, 100-44 A.C., e daí numa moeda cunhada pelo herdeiro de César (Augusto), em 20 A.C. Nas moedas de Constantino, o símbolo mais freqüente é  ; mas, o mesmo símbolo é usado sem o círculo ao redor, e com os quatro braços iguais, verticais e horizontais; e este era o símbolo especialmente venerado como a ‘Roda Solar’. Deve-se declarar que Constantino era um adorador do deus-sol, e não quis entrar na ‘Igreja’ senão cerca de um quarto de século depois da lenda de ter visto tal cruz nos céus.” — The Companion Bible, Apêndice N.° 162

Como vemos nessas citações, os autores recorrem a fontes não cristãs para demonstrar que a CRUZ tem sua origem muito antes do período de Cristo e que tal instrumento também era usado como instrumento de adoração, com diferentes tipos de significados em diferentes culturas. Todavia, o que parece certo, a partir dessas citações, é que também não parece adequado usar a CRUZ como símbolo, ou representação do cristianismo, quanto menos adorá-lo.

Mas, devemos nos perguntar uma coisa aqui: Isso significa que Jesus não morreu numa cruz? Certamente não. O que essas citações nos dizem até aqui é que a cruz como instrumento de tortura e veneração já era conhecido muito antes da morte de Cristo, mas nada fala sobre o fato de ter sido ele, ou não, morto em uma cruz.

De acordo com o testemunho das escrituras, sabemos que qualquer tipo de adoração que não seja direcionada a Deus é um ato de idolatria e portanto, nem precisamos recorrer a fontes não cristãs para nos informar como as antigas religiões se portavam com relação à cruz. Essa é uma informação clara.

Contudo, ainda outra pergunta merece nossa atenção: Isso significa que não devemos ter a cruz como símbolo do cristianismo? A resposta a essa pergunta é agora menos evidente, mas acho que podemos discorrer sobre o assunto.

O primeiro detalhe que devemos nos lembrar é que os símbolos não tem um significado único, mas conforme o tempo e a época, carregam um significado particular. Um exemplo disto é a flor de Lótus, que é normalmente associadoa ao budismo, mas já foi usada  por chineses, egípcios e hindus antigos, e em cada um desses credo tem um significado diferente. Com isso, estamos dizendo que  apesar de sua variedade de significados, os símbolos sempre representam uma idéia central de determinado pensamento. E o cristianismo histórico não foi uma exceção a esse fato.

Nos primeiros momentos da história do cristianismo, os cristãos adotaram o peixe como símbolo do cristianismo. Atualmente, alguns adesivos colados em carros, casas ainda levam esse símbolo. Mas qual é a razão da escolha desse símbolo? Trata-se de um acróstico: “ICHTHUS”, que é a palavra grega para peixe foi assim demonstrada: “Iesus Christou Theou Uios Soter”, que significa Jesus Cristo Filho de Deus Salvador. A idéia é excelente, mas poucas pessoas poderiam compreende facilmente essa idéia, e provavelmente por isso, esse símbolo não foi usado por muito tempo.

Deve ser por isso que os símbolo mais conhecido do cristianismo e que o representa facilmente é a CRUZ. Contudo, “a escolha que os cristãos fizeram da cruz como símbolo de sua fé é tanto mais supreendente quando nos lembramos do horror com que era tida a crucificação no mundo antigo”, diz John Stott em seu livro A Cruz de Cristo (pp.17). A crucificação sempre foi vista com horror pelo mundo antigo. Os gregos e romanos adotaram a crucificação, como pena capital, dos bárbaros que eram caprichosamente cruéis em suas formas de execução. Para os romanos, a crucificação era aplicada somente a criminosos extremamente desumanos, para que pudessem sofrer muito antes de sua morte. Com a crucificação, era possível fazer com que o criminoso sofresse durante dias, e isso servia de ilustração para outros que tentassem trilhar mesmo caminho. Então,

Por que razão o cristianismo escolheu a cruz?

Como já foi dito anteriormente, o símbolo é a expressão gráfica do cerne de uma idéia. E dessa forma, não haveria para o cristianismo outro símbolo tão apropriado quanto a cruz. A cruz em si, como acontecimento comum no antigo mundo romano, era deveras cruel. Era um símbolo de repulsa, medo, sofrimento, e desprezo. Mas para o cristianismo é símbolo de vida e liberdade, pois representa a morte de Cristo. Com isso não negamos a crueldade com que foi executada, mas afirmamos o resultado obtido por essa morte.

A Cruz, como evento histórico necessário, marco o ponto mais alto da História da Redenção, e tem lugar especial na vida do cristão. Observe alguns aspectos referentes a morte de Jesus:

  • É na morte que a Obra Messiânica é encerrada (Jo.19.30)
  • É o cumprimento do Antigo Testamento (1Co.15.3)
  • A morte de Cristo é a garantia da pureza do cristão, bem como de suas obras (Tt.2.14)
  • É na morte que ocorre o derramamento de sangue necessário para o perdão dos pecados (Hb.9.15; cf. Mt.26.28; Ef.1.7; Cl.1.14
  • É por meio do sangue de Cristo que temos Eterna Redenção (Hb.9.12)
  • É através da morte de Cristo que temos acesso a redenção (Rm.3.24)
  • Em nome de Cristo deveria ser pregada a redenção de pecados a todas as nações (Lc.24.27)

De acordo com essas evidências, não podemos deixar de reconhecer a centralidade da Cruz na vida e na expectativa cristã. De fato, é impossível ser cristão sem render-se à Cruz de Cristo. Alias, cristianismo sem cruz (no sentido como demonstrado acima) é mera ideologia ética sem valor. Portanto, o verdadeiro cristianismo depende intrinsecamente da cruz, pos esta é o cerne de suas ideologia e fé. É por isso que o símbolo que deveria representar tal idéia deve ser compatível a tal colocação, segue-se que a Cruz é a representação gráfica ideal par o Cristianismo. Afinal, é a morte de Cristo o tema central da mensagem dos apóstolos no Novo Testamento e das boas novas do evangelho.

E o que significa essa cruz senão nossa liberdade?! Nossa redenção?! A remissão dos nossos pecados?! Comunhão com Deus?! É por meio dela que nós somos completamente libertos de nossa medíocre vida sem significado e passamos a participar da Vida Eterna que Deus nos concede por meio de jesus Cristo. Por essa razão o cristianismo escolheu a cruz.

Se Constantino o fez com más intenções, o sentido que intencionou colocar sobre tal símbolo já não é mais o mesmo, até por que são muitos os cristãos que hoje quem desconhecem suas intenções e os significados conhecidos na história pregressa. Por isso, quando um cristão tem a cruz como símbolo (representação gráfica de uma idéia), e não como veneração, deve tê-lo em reconhecimento da morte de Cristo e dos benefícios que recebemos dela. Ou seja, não temos a cruz como instrumento de morte e tortura, mas de vida e liberdade, pois por meio da morte de Cristo, fomos abençoados com sua vida e liberdade. É com esse sentido que temos a cruz como representação do cristianismo.