Em que sentido Jesus é o princípio da Criação?

Ao anjo da igreja em Laodicéia escreve: Estas coisas diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus (Ap.3:14 ARA)

O livro de Apocalipse, como se sabe, é um livro cheio de símbolos e termos figurados, dos quais alguns são aplicados a Cristo. Vemos nesse verso Cristo ser chamado de Amém, algo que não acontece em nenhum outro lugar no NT. Ele também é chamado de Alfa e Ômega, entre outros títulos que recebe. Continuar lendo

Anúncios

Jesus é mesmo Miguel?

A Bíblia diz que ‘Miguel e seus anjos batalharam com o dragão e seus anjos’. (Revelação 12:7) De modo que Miguel é o Líder de um exército de anjos fiéis. Revelação também se refere a Jesus como Líder de um exército de anjos fiéis. (Revelação 19:14-16) E o apóstolo Paulo menciona especificamente o “Senhor Jesus” e “seus anjos poderosos”. (2 Tessalonicenses 1:7) Portanto, a Bíblia fala tanto de Miguel e “seus anjos” como de Jesus e “seus anjos”. (Mateus 13:41;16:27; 24:31; 1 Pedro 3:22) Visto que a Palavra de Deus em nenhuma parte indica que existem dois exércitos de anjos fiéis no céu — um comandado por Miguel e outro por Jesus —, é lógico concluir que Miguel não é outro senão o próprio Jesus Cristo no seu papel celestial – O que a Bíblia Realmente ensina?

O que lemos acima é realmente encontrado nas escrituras? Podemos dizer que o que lemos aqui, é realmente o que a Bíblia ensina, ou apenas mais uma distorção da mesma? No post de hoje vamos observar ao menos três características distintas de Miguel e Jesus que demonstram claramente que JESUS não é nem pode ser MIGUEL.

1. O que dizer do nome de Jesus e Miguel?

O nome Miguel significa “Quem é Como Deus?”. Encerra uma pergunta, sem afirmar que Miguel seja Deus. Já o nome Jesus significa “Jeová é Salvador”. É uma afirmação que enfatiza a diferença de Miguel.
Em Is 43.11 se lê: “Eu, eu sou o Senhor, e fora de mim não há Salvador“.Essa declaração é aplicada a Jeová nas Escrituras Hebraicas, mas nas Escrituras Gregas, vamos encontrar que a salvação é obra exclusiva de Jesus: “E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens pelo qual devamos ser salvos“(At 4.12). O nome de Cristo fala a respeito de sua natureza como Salvador, em identidade ao único Salvador, Jeová. Portanto, a julgar apenas pelos nomes que são atribuídos a Jesus e Miguel, deve-se concluir que existe certa diferença entre eles, de modo que, Jesus se identifica com Jeová, ao passo que Miguel apenas testifica sua posição de disposição diante de Deus.

2. O que dizer da natureza de Jesus e Miguel?

Miguel é anjo, na hierarquia angelical de arcanjo. Embora possa ser tido como chefe dos anjos, não deixa de ser criatura. Falando dos anjos diz Hb 1.14: “Não são porventura todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação?” A função dos anjos é servir àqueles que vão ser salvos. Como tal os anjos defendem os cristãos das artimanhas do diabo e de inimigos terrenos (Sl 34.7; 91.11). É digno de nota, ainda, que os anjos estão sujeitos a Cristo: “O qual está à destra de Deus, tendo subido ao céu; havendo-se sujeitado os anjos, e as autoridades e potências” (I Pe 3.22).

Jesus, diferentemente de Miguel, é o Criador do próprio Miguel. Em Cl 1.16, lemos: “Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades; tudo foi criado por ele e para ele“. Cristo é o Criador de todas as coisas, e dentre elas, as coisas invisíveis que compreendem toda a hoste celestial na categoria de anjo, arcanjo, querubim, serafim. Conseqüentemente, Jesus é o Criador de Miguel, não podendo ser confundidas as pessoas do Criador (Jesus) e da criatura (Miguel).

Ainda na natureza de ambos, Miguel e Jesus, se nota que Miguel é arcanjo enquanto Jesus é Deus, pois é assim em Jo 1.1-3. “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez”. Jesus em Jo 3.16 é chamado “Filho Unigênito”. A expressão “unigênito”, (monogenes), em grego, vem de dois vocábulos: (monos) significa “único” e (genes) que significa “raça”, “tipo”, de onde vem o “gen” da genética, responsável pela transmissão dos caracteres para os filhos. Ser “Filho Unigênito” é ser o único da espécie do Pai; é ter a mesma natureza. Esse Pai é Deus; logo o Filho também o é.

3. O que dizer da posição de Jesus e Miguel?

Miguel não pode ser adorado. Dentro de toda a hierarquia angelical é terminantemente proibido prestar culto aos anjos, qualquer tipo de culto, como se lê em Cl 2.18, “Ninguém vos domine a seu bel-prazer com pretexto de humildade e culto dos anjos, metendo-se em coisas que não viu; estando debalde inchado na sua carnal compreensão“. Os próprios anjos são conhecedores que não se lhes deve prestar adoração e por isso recusam-na abertamente. Isso se pode ler em duas partes da Bíblia: Em Ap 19.10 e Ap 22.8,9 “E eu lancei-me a seus pés para o adorar; mas ele disse-me: Olha não faças tal; sou teu conservo, e de teus irmãos que têm o testemunho de Jesus: adora a Deus“.”E eu, João, sou aquele que vi e ouvi estas coisas. E, havendo-as ouvido e visto, prostrei-me aos pés do anjo que, mas mostrava para o adorar. E disse-me: 0lha não faças tal… Adora a Deus“.

Já, com respeito à pessoa de Jesus, não há qualquer problema em adorá-lo. Sabemos que os anjos são maiores do que nós (Hb 2.6,7), entretanto prestaram adoração a Cristo sem qualquer constrangimento. É interessante notar que é o próprio Deus que ordena essa adoração, como se lê em Hb 1.6 “E quando outra vez introduz no mundo o primogênito, diz: E todos os anjos de Deus o adorem“. Se Jesus fosse um anjo, na hierarquia de um arcanjo como Miguel, então seriam os anjos tidos como idólatras, pois não é correto que um chefe de anjo seja adorado por outros anjos.

Mas, na continuação da leitura de Hebreus, capítulo primeiro, versículos 4,5 e 6, pode-se ler sobre a superioridade de Jesus em relação aos anjos; o verso 8 mostra essa razão, quando o Pai declara de seu filho: “Mas do Filho diz: Ó Deus, o teu trono subsiste pelos séculos dos séculos, cetro de equidade é o cetro do reino” No céu, ao nome de Jesus, se prostram todos os seres criados: “Para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus…“(Fp 2.10). A Adoração ao único Deus é vista da seguinte forma em Apocalipse 5.13: “E ouvi, a toda criatura que está no céu, e na terra, e debaixo da terra, e eu está no mar, e a todas as coisas que neles há, dizer: Ao que está assentado sobre o trono, e ao Cordeiro, sejam dadas ações de graças, e honra, e glória, e poder para todo o sempre“.

Ou seja, é claro que pelas escrituras, Jesus não somente tenha sido adorado, como o próprio Deus estimula que os anjos adorem a Cristo. Portanto, seria equivocado associar Jesus a Miguel. Vale a pena ser dito que nenhum cristão primitivo aceitaria chamar a Cristo de Miguel, e devemos dizer que não se encontra em nenhum dos seus escritos tais idéias. Ousamos ainda dizer que tal idéia nem se encontra nas escrituras.

Conclusão: Afinal, é Jesus Miguel?

Diante das três diferenças que mencionamos acima, a resposta é um ENFÁTICO NÃO! Jesus não é nem pode ser Miguel. Para encerrar esse post demonstramos ainda mais algumas razões:

  • Jesus é criador (João 1,3); Miguel é criatura (Colossenses 1,16);
  • Jesus é adorado por Miguel (Hebreus 1,6); Miguel não pode ser adorado (Apocalipse ou Revelação 22,8-9);
  • Jesus é o Senhor dos senhores (Apocalipse 17,14); Miguel é príncipe (Daniel 10,13);
  • Jesus é Rei dos reis (Apocalipse ou Revelação 17,14); Miguel é príncipe dos Judeus (Daniel 12,1);
  • Nenhum anjo alguma vez foi chamado por Deus como seu Filho (Hebreus 1,5-6) e Deus jamais disse “Assenta-te à minha direita” a os anjos (Hebreus 1:13);
  • O mundo futuro não sera submetido a nenhum anjo «Porque não foi aos anjos que sujeitou o mundo futuro, de que falamos»(Hebreus 2,5) em contraposição será sumetido a Jesus «a quem constituiu heredeiro de tudo, por quem fez também o mundo.»(Hebreus 1,2);
  • Os anjos jamais recebem adoração (Colossenses 2, 18; Apocalipse ou Revelação 19,10; 22,9); Jesus recebe adoração de
    • anjos: Hebreus 1,6 (em isto a TNM estava de acordo desde 1950 até 1970);
    • dos discípulos: Lucas 24,52;
    • dos crentes: João 9,38;
    • dos santos na glória: Apocalipse ou Revelação 7,9-10;
    • eventualmente de todos: Filipenses 2,10-11; Mateus 9,18; 15,25;
  • DEUS não partilha a sua glória com ninguém (Isaías 42,8). Jesus, não um anjo, partilha da glória de DEUS desde antes que o mundo existisse (João 17,5);
  • Os anjos são servos desde a sua criação (Hebreus 1,14); Jesus assumiu a condição de servo em sua encarnação (Filipenses 2,7);
  • Somente ao nome de DEUS todo o joelho se dobrará: «”Por minha vida” – diz Jeová – “todo joelho se dobrará diante de mim e toda língua reconhecerá abertamente a Deus”» (Romanos 14,11 TNM); ao nome de Jesus todos dobrarão o seu joelho: «ao nome de Jesus, se dobre todo joelho dos no céu, e dos na terra, e dos debaixo do chão, e toda língua reconheça abertamente que Jesus Cristo é Senhor» (Filipenses 2,10-11 TNM);
  • Os anjos somente podem estar em um único lugar pois a Bíblia jamais afirma que são omnipresentes; Jesus, pelo contrário, é «Aquele que em tudo preenche todas as coisas» (Efésios 1,23 TNM); «Aquele que ascendeu muito acima de todos os céus, para que desse plenitude a todas as coisas» (Efésios 4,10 TNM); e quem «Sustenta todas as coisas pela palavra do seu poder» (Hebreus 1,3 TNM)»;
  • Na carta de Judas refere-se a Jesus como Jesus Cristo (Judas 1;4;17;21;25) e a Miguel como arcanjo (Judas 9) sem relacioná-los em nenhum momento.

Podemos chamar Jesus de Miguel?

A Palavra de Deus fala de Miguel, “o arcanjo”. (Judas 9) Esse termo significa “anjo principal”. Note que Miguel é chamado de o arcanjo. Isso sugere que existe apenas um anjo assim. De fato, a palavra “arcanjo” ocorre na Bíblia apenas no singular, nunca no plural. Além do mais, o cargo de arcanjo se relaciona com Jesus. Sobre o ressuscitado Senhor Jesus Cristo, 1 Tessalonicenses 4:16 diz: “O próprio Senhor descerá do céu com uma chamada dominante, com voz de arcanjo” A voz de Jesus é descrita aqui como sendo a de arcanjo. Portanto, esse texto indica que o próprio Jesus é o arcanjo Miguel – O que a Bíblia realmente ensina?, pp. 218

A pergunta do nosso artigo pode soar estranha, mas segundo vemos na citação acima, ela é uma questão pertinente. Aos que ouvem essa pergunta pela primeira vez, devemos dizer que a resposta a essa pergunta parece bem simples segundo as escrituras, entretanto, para defender uma teologia antes das escrituras, alguns tentam minimizar o impacto dessa questão.

Observando a citação acima, devemos ressaltar que o termo arcanjo acontece poucas vezes nas escrituras, mas é impressionante que ela sempre aconteça no singular. Nas Escrituras Gregas Cristãs só encontramos esse termo em dois texto: Judas 9 e 1Tessalonissences 4.16.

A ligação entre esses dois versos fez com que o autor da citação acima chegar a conclusão de que Jesus, na verdade, é chamado de Miguel. Para explicar esse fato, o mesmo livro nos ensina:

Há casos em que as pessoas são conhecidas por mais de um nome. Por exemplo, o patriarca Jacó é conhecido também como Israel, e o apóstolo Pedro, como Simão. (Gênesis 49:1, 2; Mateus 10:2) Da mesma forma, a Bíblia indica que Miguel é outro nome de Jesus Cristo, antes e depois de sua vida na Terra – pp.218

Em outras palavras, o que estamos observando aqui é que parece correto chamar a Jesus Cristo de Miguel. Aliás, parece que essa conclusão é apresentada diversas vezes por aqueles que se chamam Testemunhas de Jeová. Observe o que outra de suas publicações afirma:

Há qualquer dúvida quanto a quem é este Miguel, o arcanjo? Não é outro senão Jesus Cristo, o Filho unigênito de Deus! Foi ele quem, antes de se iniciar nossa Era Comum, foi o príncipe celestial do povo de Jeová, inclusive de Daniel. Ele nunca renunciou ao direito de ter este nome celestial, nem mesmo quando se tornou homem perfeito aqui na terra, a fim de trabalhar pelos interesses do reino messiânico de Deus e resgatar toda a humanidade por se oferecer a Deus como sacrifício humano perfeito. (João 18:36, 37; Mateus 20:28) Depois de sua ressurreição dentre os mortos e seu retorno ao céu, tomou novamente aquele nome celestial – Cumpri-se-á, pp.306

Diante dessa questão e do que aprendemos com essas citações, repetimos a pergunta: É adequado chamar Jesus de Miguel? Será mesmo que Miguel é o nome de Jesus antes de sua encarnação?

Como já mencionamos, algumas pessoas para defender suas opiniões pessoais tentam minimizar a pessoa do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo e afirmar que Ele é um ser criado por Deus. Uma das formas de defender essa visão é afirmar que Jesus Cristo na verdade é o Arcanjo, ou seja, o Principal entre os Anjos. Mas, é isso que as escrituras ensinam?

Em primeiro lugar, devemos deixar claro o que claro deixa as escrituras.

  1. Jesus sempre é diferenciado nas escrituras dos seres angelicais. Observe que em Hebreus capítulo 1, o autor deixa claro que Jesus é superior aos anjos. Observe por exemplo o que lemos em Hb.1.6: “E, novamente, ao introduzir o Primogênito no mundo, diz: E todos os anjos de Deus o adorem“. Nesse verso, chamamos a atenção do leitor para o fato de que Deus promove que os anjos adorem o Primogênito. Esse verso indica que Jesus não pode fazer parte dos seres angelicais, pois apenas Deus pode ser adorado. Com isso, aprendemos que por ser de uma classe distinta dos seres angelicais, Jesus não pode ser um arcanjo.
  2. Jesus nunca é apresentado nas escrituras como arcanjo. Note também que não encontramos nenhum verso nas escrituras que digam que Jesus é um arcanjo, quanto menos o arcanjo Miguel. O único texto que poderia dar essa impressão é 1 Ts 4.16, mas uma leitura adequada do texto nos mostrará que tal impressão é apenas imposição.
  3. Jesus nunca é apresentado nas escrituras como sendo criado. Esse é um pressuposto interessante que os autores citados acima carregam, mas não podem demonstrar. Para eles, Jesus é um ser criado, mas é o mais especial dentre os seres criados, por isso é chamado de arcanjo. Mas, as escrituras são clara em dizer que Jesus é criador de todas as coisas (Jo.1.3). Ora, se sem Ele nada do que existe veio a existir, Ele não pode ser uma criatura: Ele deve ser o Criador.

Em segundo lugar, devemos lembrar o leitor que o texto de 1 Ts 4.16 está sendo mal interpretado. A única evidência que poderia demonstrar que Jesus é de fato um arcanjo está nesse texto, mas se ele estiver sendo mal compreendido, toda a doutrina de que Cristo é na verdade Miguel se demonstrará equivocada. Então a pergunta que devemos fazer é:

O que dizer de 1Ts.4.16?

Vamos ler o texto: “porque o próprio Senhor descerá do céu com uma chamada dominante, com voz de arcanjo e com a trombeta de Deus, e os que estão mortos em união com Cristo se levantarão primeiro“. A primeira observação que fazemos ao texto é que ele não diz que Jesus descerá como arcanjo, mas com voz de arcanjo. Para argumentar em prol da identidade de Jesus com Miguel, a revista Despertai de 8 de Fevereiro de 2002 (pp.17), afirma: “quando a trombeta de Deus soou a chamada para ‘os que estavam mortos em união com Cristo’ serem levantados e levados para o céu, Jesus emitiu “uma chamada dominante”, desta vez “com voz de arcanjo”. É razoável concluir que somente um arcanjo chamaria “com voz de arcanjo“.

É verdade que o texto diz que Jesus dará uma ordem com voz de arcanjo, mas isso significa que Ele deva ser identificado com o arcanjo? Acreditamos que o mesmo versículo responde negativamente a essa pergunta. Note que o texto fala de três características da descida do Senhor: (1) Será com uma chamada dominante; (2) será com voz de arcanjo e (3) será com a trombeta de Deus. É interessante que todos os termos “com” usados nessa frase traduzem o termo grego “en“. Ou seja, se nesse texto Jesus é identificado como sendo o Arcanjo, Ele também deve ser uma ordem e uma trombeta.

Se o argumento de que apenas um arcanjo usaria uma voz de arcanjo é verdadeira, deveríamos assumir que apenas uma trombeta poderia soaria como trombeta, e que portanto Jesus deve ser uma trombeta. Entretanto, sabemos que isso não é verdade e que o texto não nos está dizendo isso, pois as escrituras também falam que a voz de Deus pode soar de modo semelhante a uma trombeta: “Por inspiração, vim a estar no dia do Senhor, e ouvi atrás de mim uma forte voz, semelhante à duma trombeta” (Rev.1.10; cf. 4.1). Ou seja, não é por que Jesus fala com voz de arcanjo é que Ele seja um arcanjo, e nem por que Deus fala com voz como de uma trombeta que Ele seja uma trombeta. A ênfase do texto não é essa, na verdade, o texto está dizendo que no retorno de Cristo, que será visível e fisicamente observável (At.1.11), Ele virá com uma ordem, com voz de arcanjo e com a trombeta de Deus. Ou seja, com poder, autoridade para determinar e organizar.

Por isso, devemos ter em mente que a idéia que se tem nas escrituras do papel da trombeta, é de uma demonstração de poder de ordenar e preparar. Observe o que Paulo mesmo diz sobre a trombeta: “Pois, verdadeiramente, se a trombeta der um toque incerto, quem se aprontará para a batalha?“. (1Co.14.8). Esse conceito é encontrado diversas vezes nos Escrituras Hebraicas, especialmente em textos que falam sobre guerra (Jos.6.5; Juz.7.18; Nee.4.20). Ou seja, Paulo está aqui demonstrando o papel de Cristo na organização e início dos eventos que narra nesse verso, ressurreição dos mortos em Cristo. Note que as três características que Paulo dá para o retorno de Cristo enfatizam o poder Dele: Ordem, voz de comando e com o toque da trombeta. Em outras palavras, ao invés de associar Jesus Cristo com um ser criado, Paulo está demonstrando Sua Suprema autoridade como SENHOR que é.

Outro detalhe importante, que deve ser lembrado aqui é que o próprio Jesus nos informou sobre os detalhes que Paulo apresenta aqui, observe: “E enviará os seus anjos com grande som de trombeta, e eles ajuntarão os seus escolhidos desde os quatro ventos, de uma extremidade dos céus até à outra extremidade deles” (Mt.24.31). Nesse texto, Jesus deixa evidente que mandará os seus anjos com grande som de trombeta: Ele mesmo, o Filho do Homem, ensina que fará seus anjos realizarem esse trabalho (veja também: Mt.13.41; 25.31), sem que estes sejam identificados com a trombeta, que provavelmente tocarão.

Mas, o mais importante detalhe é que o texto de 1Ts.4.16 não diz que o Senhor descerá com voz DO arcanjo, como se existissem apenas UM arcanjo, mas fala que ele descerá com voz DE arcanjo. Dois detalhes são fundamentais aqui:

  1. O substantivo arcanjo não tem artigo e não encontramos razões para entender essa expressão definidamente. Note que a TNM honrando a ausência de artigo quando fala da chamada dominante, diz “uma chamada dominante“. Para evitar essa mesma conclusão, quando fala da voz do arcanjo, fala voz DE arcanjo, pois sabe que não existe artigo nessa frase. Entretanto, quando interpreta o texto, assume que o termo deve ser entendido definidamente. Entretanto, essa não é a verdade do texto.
  2. Essa definição é importante, pois no judaísmo (religião onde Paulo foi ensinado) afirmava que eram quatro os Arcanjos de Yahaweh: Miguel, Rafael, Uriel e Gabriel. Por exemplo, no livro apócrifo de Enoque, que Judas usa para falar sobre o arcanjo Miguel (Jd.9) encontramos esses quatro arcanjos (Enoq. 9.1; 40.8-9). Ou seja, por que as escrituras só falam do arcanjo Miguel, não significa que só exista um arcanjo. Esse argumento é um argumento falacioso montado na falta de evidências. Observe que seguindo esse mesmo raciocínio poderíamos dizer que não existe outro Epafrodito, afinal as escrituras só falam de um Epafrodito. Mas, isso é construir uma dedução a partir da ausência de informações: Isso não é certo, e quando forçado aqui e aplicado a Cristo, a Sociedade Torre da Vigia desmerece nosso Senhor chamando-o de arcanjo.

Portanto, diante dessas evidências, encontradas no próprio texto, no restante das escrituras e na literatura judaica contemporânea de Paulo, notamos que o argumento imposto aqui por essas publicações não deve ser considerado como verdadeiro. Em outras palavras, estamos dizendo que Jesus não é nem deve ser chamado de Miguel. Esse é um fato que a Bíblia realmente ensina sobre Jesus.